IMRE LAKATOS: FILOSOFIA DA CIÊNCIA
No que Imre Lakatos concorda e discorda de Popper:
"The hallmark of empirical progress is not trivial verifications: Popper is right that there are millions of them. It is no success for Newtonian theory that stones, when dropped, fall towards the earth, no matter how often this is repeated. But so-called 'refutations' are not the hallmark of empirical failure, as Popper has preached, since all programmes grow in a permanent ocean of anomalies. What really count are dramatic, unexpected, stunning predictions: a few of them are enough to tilt the balance; where theory lags behind the facts, we are dealing with miserable degenerating research programmes." p. 6.
Neste trecho de Imre Lakatos, ele está discutindo o que constitui progresso empírico em teorias científicas e como isso se relaciona com a visão de Karl Popper sobre a falsificabilidade.
Lakatos começa afirmando que a marca distintiva do progresso empírico não são as verificações triviais, concordando com Popper que existem muitas delas. Em outras palavras, confirmar algo que já é amplamente conhecido e esperado não é um indicador significativo de progresso científico. Por exemplo, observar repetidamente que objetos caem em direção à Terra quando soltos no ar não é uma conquista especial para a teoria newtoniana da gravidade, uma vez que isso já era amplamente aceito e esperado.
Em seguida, Lakatos critica a visão de Popper de que as "refutações" são o sinal de falha empírica. Ele argumenta que isso não é necessariamente verdade, porque todas as teorias estão cercadas por anomalias e exceções, e a simples existência de anomalias não deve ser vista como uma falha irremediável na teoria. Ou seja, o fato de uma teoria não ser capaz de explicar todas as observações não significa automaticamente que a teoria está completamente errada.
Lakatos conclui que o que realmente importa são as previsões dramáticas, inesperadas e surpreendentes feitas por uma teoria. Ele sugere que apenas algumas previsões desse tipo são suficientes para inclinar a balança a favor de uma teoria. Quando uma teoria não consegue produzir previsões notáveis e continua atrás dos fatos observados, ele a considera um programa de pesquisa degenerado e sem sucesso.
Em resumo, Lakatos está argumentando que o progresso empírico em ciência não se baseia apenas em confirmações triviais ou na ausência de anomalias, mas sim na capacidade de uma teoria fazer previsões notáveis e inesperadas, e que a mera existência de anomalias não significa automaticamente que uma teoria está condenada ao fracasso.
A "Metodologia dos Programas de Pesquisa Científica" de Imre Lakatos é uma abordagem filosófica que se concentra na análise das teorias científicas como estruturas organizadas e dinâmicas. Essa metodologia foi desenvolvida como uma resposta às limitações da visão de filosofia da ciência anterior, conhecida como "Falsificacionismo Popperiano", proposta por Karl Popper. Lakatos expandiu e modificou as ideias de Popper para oferecer uma perspectiva mais flexível e realista sobre o desenvolvimento das teorias científicas.
A seguir, explicarei os principais conceitos da Metodologia dos Programas de Pesquisa Científica de Lakatos:
1. **Programas de Pesquisa Científica**: Lakatos argumenta que as teorias científicas não podem ser analisadas apenas com base em sua capacidade de serem falsificadas, como defendido por Popper. Em vez disso, ele introduz a ideia de "programas de pesquisa", que são conjuntos de teorias, hipóteses e métodos que guiam a atividade científica em uma determinada área. Esses programas têm um núcleo duro e uma série de hipóteses auxiliares.
2. **Núcleo Duro e Hipóteses Auxiliares**: O núcleo duro de um programa de pesquisa é composto por princípios centrais que são considerados inquestionáveis pelos cientistas que aderem a ele. Esses princípios formam a base do programa e não podem ser facilmente alterados ou abandonados. Por outro lado, as hipóteses auxiliares são elementos periféricos da teoria que podem ser revisados, ajustados ou até mesmo descartados quando confrontados com evidências conflitantes.
3. **Progresso Científico**: Lakatos introduz a ideia de que o progresso científico ocorre quando um programa de pesquisa consegue explicar fenômenos até então inexplicáveis ou prever novos fenômenos com sucesso. Isso não significa que as teorias não mudem ou se desenvolvam, mas que essas mudanças ocorrem dentro do contexto do programa.
4. **Heurísticas Negativas**: Lakatos também propõe o conceito de "heurísticas negativas", que são regras que indicam quando é apropriado abandonar um programa de pesquisa em favor de outro. Isso ocorre quando o programa falha repetidamente em explicar novos fenômenos ou enfrenta problemas insuperáveis em suas hipóteses auxiliares. "A heurística negativa de um programa envolve a estipulação de que as suposições básicas subjacentes ao programa, seu núcleo irredutível, não devem ser rejeitadas ou modificadas. Ele está protegido da falsificação por um cinturão de hipóteses auxiliares, condições iniciais etc. A heurística positiva é composta de uma pauta geral que indica como pode ser desenvolvido o programa de pesquisa. Um tal desenvolvimento envolverá suplementar o núcleo irredutível com suposições adicionais numa tentativa de explicar fenômenos previamente conhecidos e prever fenômenos novos. Os programas de pesquisa serão progressivos ou degenerescentes, dependendo de sucesso ou fracasso persistente quando levam à descoberta de fenômenos novos." (CHALMERS, pp. 101-102).
5. **Comparação de Programas de Pesquisa**: Uma parte importante da abordagem de Lakatos é a comparação de programas de pesquisa concorrentes. Ele argumenta que a escolha entre programas de pesquisa deve ser baseada na capacidade de um programa de fazer previsões bem-sucedidas e explicar fenômenos observados. Programas que demonstram maior capacidade de resistência a desafios e geram um número significativo de descobertas científicas são considerados mais bem-sucedidos.
Em resumo, a Metodologia dos Programas de Pesquisa Científica de Imre Lakatos oferece uma maneira mais sofisticada de entender o desenvolvimento e a evolução das teorias científicas. Ela considera as teorias como estruturas organizadas, compostas por elementos centrais e periféricos, e enfatiza o progresso científico como a capacidade de um programa de pesquisa em explicar e prever fenômenos da maneira mais eficaz possível, em vez de simplesmente descartar teorias com base na falsificabilidade.
Critica de Chalmers a Lakatos
A crítica de David Chalmers a Imre Lakatos na passagem citada está relacionada à concepção de programas de pesquisa e à autonomia que Lakatos atribui a eles. Imre Lakatos desenvolveu a ideia de programas de pesquisa como estruturas autônomas que guiam o desenvolvimento da ciência. Cada programa possui seus próprios princípios e metodologias, e o progresso na ciência ocorre por meio de competição entre esses programas. No entanto, Chalmers está argumentando que a interação entre programas de pesquisa pode ser mais complexa do que a visão de Lakatos sugere.
O exemplo dado por Chalmers é o desenvolvimento da teoria eletromagnética clássica. Ele afirma que, se a abordagem da ação à distância tivesse sido abandonada mais cedo em favor do programa de campo, isso teria prejudicado grandemente o desenvolvimento da teoria. Isso sugere que os programas de pesquisa não são tão autônomos quanto Lakatos argumenta, pois houve uma interação entre eles. A teoria eletromagnética clássica, de acordo com Chalmers, emergiu como uma reconciliação entre os dois programas, incorporando elementos de ambos.
Portanto, a crítica de Chalmers a Lakatos está relacionada à ideia de que os programas de pesquisa podem se influenciar mutuamente e interagir, em vez de serem estruturas completamente autônomas e isoladas. Isso levanta questões sobre a simplicidade da abordagem de Lakatos na compreensão do processo de desenvolvimento da ciência.
Comentários
Postar um comentário