A última Apostasia (conto)

 

S.– A Última Apostasia. Esta expressão não lhe soa familiar?

P. – Não sei dizer com certeza. Lembro-me de tê-la ouvido em alguma parte. O que ela significa?

S.– É uma longa história ...

P. – Conte-ma, por favor.

S.– Como quiser. Começa assim: o século XVI depois de Cristo foi a época da Segunda Queda Espiritual do Gênero Humano. Adão, o Grande, governava sobre diversas civilizações, espalhadas pelos 4 cantos da Terra, e seu império se expandia cada ano que passava, estendendo-se do ocidente para o oriente, e chegando enfim aos remotos confins do planeta, nas regiões onde despontam de manhã os primeiros raios da aurora nascente.

P. – Fale-me desse império.

S.– Era um reinado dividido hierarquicamente por castas. Nele Adão, o Grande, havia sido coroado o instrutor absoluto do mundo, e ocupava a mais alta posição. Abaixo de seu trono, erguiam-se o templo da sabedoria, formado pelos Sábios, e o templo da santidade, formado pelos sacerdotes, os Santos. Logo abaixo vinha a casta dos guerreiros, os Heróis, que formavam o Exército do reino. Na parte inferior, o povo, que era governado conforme a lei e a justiça divinas. Adão era o representante de Deus na Terra. Os Sábios, no templo da sabedoria, ocupavam-se do progresso da ciência e da técnica, e desenvolviam a mecânica, a agricultura, a medicina, e toda gama de habilidades conforme as necessidades do povo. No templo da santidade, por sua vez, os sacerdotes ocupavam-se da disciplina da alma, e proviam o povo de ensinamentos, orações e assistência espiritual, conforme suas necessidades. Os Heróis, do alto do seu posto, ocupavam-se da guerra e da conquista de novos territórios para o império. O Reino de Adão, o Grande, era próspero e bem-aventurado, e não faltava com a obrigação de assistir às exigências do povo, e provê-lo da saúde do corpo, através dos Sábios, e da saúde da alma, através dos Santos.

P. – Como acontece, então, a Última Apostasia?

S.– Certa noite, Adão recebe a visita da Serpente do Modernismo. A Serpente, de língua ferina e maledicente, sussurra no ouvido de Adão boatos de que uma conspiração estava sendo tramada contra ele, com o propósito de derrubá-lo do trono. Insinua a serpente que a conspiração vinha sendo planejada pelos sacerdotes, que alegavam ser os verdadeiros porta-vozes de Deus na Terra, e deviam por isso ser proclamados reis no lugar de Adão.

P. – Entendo.

S.– A Serpente do Modernismo planta as sementes da suspeita, os germes da desconfiança, que logo brotariam, sob a forma da discórdia, e dariam seus frutos, sob a forma da divisão. Por fim, Adão abusa de seu poder e expulsa os sacerdotes do templo da santidade. O rei resolve extinguir a casta dos Santos e transforma o seu templo numa simples subdivisão do templo da sabedoria. Assim, ele nomeia os Santos que ainda restavam como meros subordinados dos Sábios.

P. – Puxa, que história incrível! E onde tudo isso vai parar?

S.– Com a derrubada do templo da santidade, o povo ficou sem assistência espiritual, e os súditos de Adão estavam à mercê das doenças da alma. Antes que os súditos subissem ao trono para pedir socorro, a Serpente do Modernismo apareceu de novo, desta vez junto aos sábios, e murmurou no seu ouvido o boato de que o povo proferia difamações contra eles. Insinuou a Serpente que o povo não acreditava que os Sábios seriam capazes de cumprir as funções sobrenaturais que eram reservadas aos Santos, nem de atender às necessidades do espírito. Os Sábios se sentiram ofendidos em sua vaidade, e desenvolveram técnicas de tratamento das doenças da alma conforme os conhecimentos que eles tinham da medicina do corpo. Eles submeteram os doentes ao tratamento, mas não obtiveram o mesmo efeito sobrenatural alcançado pelos Santos, quanto à adequada saúde do espírito. Porém, como os Sábios conheciam as propriedades dos corpos naturais, eles levaram plantas e raízes para o laboratório e criaram remédios e medicamentos; aplicaram-nos sobre os doentes (com bons resultados); e satisfizeram de modo provisório a população, que nem percebeu o paliativo. Nada mais foi dito sobre o assunto. As coisas voltaram ao normal. Só que neste ínterim Adão, que já estava velho, veio a falecer.

P. – Meu Deus! Quem iria governar agora?

S.– Ninguém soube naquele momento o que fazer. O trono não podia ficar vazio. A Serpente do Modernismo, então, voltou a aparecer aos Sábios, e soprou no seu ouvido que o povo continuava a desconfiar do templo da sabedoria, e que pretendia apoiar algum Herói do Exército para que ocupasse o lugar de Adão. Deu-lhes a entender que se espalhavam rumores, crescia de boca em boca o burburinho de que o reino não duraria, agora que não tinha imperador, e que dentro em breve cairia, entregue nas mãos dos Sábios.

P. – Imagino então que os Sábios se sentiram feridos no seu orgulho, e se autodeclararam reis ...

S.– Exatamente. Eles se convenceram de que um novo tempo havia chegado, e que este novo tempo exigia uma forma diferente de governar, com vários instrutores ao invés de um. Foi assim que os Sábios chamaram àquela época a Idade da Razão, e tornaram o reino uma nação administrada racionalmente, conforme as regras estabelecidas pelo templo da sabedoria. A Serpente do Modernismo, porém, voltou a soprar no ouvido dos Sábios, insinuando-lhes que entre o povo circulavam boatos de que aquela Idade da Razão não era mais próspera do que o tempo antigo em que Adão, o Grande, governava. Os Sábios se sentiram ofendidos com as palavras da Serpente, e protestaram. Assim, para provar sua superioridade, lançaram o projeto de edificar uma Metrópole Universal, que seria mais rica do que qualquer reinado anterior. Para isso, os Sábios reformaram a nação, decretaram a abolição da casta dos Heróis, juntaram os guerreiros ao povo, colocando-os em pé de igualdade. Os Sábios disseram que na Metrópole só haveria agora uma única casta de formigas operárias, e, como num formigueiro, todas trabalhariam juntas para criar uma nova ordem de absoluta prosperidade. A ideia da Metrópole Universal entusiasmou a todos. Mas, para reforçá-la, os Sábios fizeram propaganda do Futuro, explicaram que a idade das luzes havia chegado, e que o Passado era uma idade de trevas, e devia, portanto, ser esquecido. Eles se julgaram novos Adões sobre a terra, e criaram desse modo o adanismo, a crença de que eram a origem de todas as coisas.

P. – E a prosperidade veio?

S.– Sim, por causa das habilidades dos Sábios, que conheciam as propriedades dos corpos naturais e sabiam como dominá-los. O formigueiro trabalhou infatigavelmente e edificou a Metrópole. A cidade agora era dividida em duas partes: as fábricas, onde trabalhavam dia e noite as formigas, produzindo riquezas, e o templo da sabedoria, que foi transformado pelos Sábios no Grande Escritório, onde eles se ocupavam da administração racional de tais riquezas.

P. – Eles obtiveram, então, sucesso nos seus planos ...

S.– Não por muito tempo. Sem o templo da santidade, as formigas operárias não tinham a quem recorrer quando acometidas das doenças da alma. Inquietas, as formigas faziam uso dos remédios ministrados pelos Sábios, só que a medicina dos corpos já não funcionava mais para o espírito, o natural não substituía o sobrenatural, e a saúde das formigas piorava a olhos vistos. Aproveitando-se daquela ocasião, a Serpente do Modernismo voltou a aparecer, desta vez no formigueiro, e falou às operárias, que trabalhavam. A maliciosa incutiu na mente das formigas a ideia de que eram exploradas pelos Sábios; que elas, que produziam, viviam a pão e água, e os Sábios, que viviam do bom e do melhor, não precisavam mover uma palha para isso. A Serpente, de voz afiada, sibilante, disse que as formigas haviam vendido sua liberdade a preço de banana, agora trabalhavam como escravas para sustentar os Sábios e recebiam em troca uma bagatela, que mal dava para viver.

P. – Coitadas das formigas! Como elas reagiram a isso?

S.– As formigas se alvoroçaram, debateram, e chegaram à conclusão de que tinham que se rebelar contra esse regime de escravidão que lhes fora imposto. Pararam de trabalhar, e planejaram uma revolução contra seus opressores, os Sábios. Algumas delas eram guerreiras antes de se tornar operárias, e podiam atacar o Grande Escritório, tomar as riquezas dos Sábios, e reparti-las entre si. Só que esses Heróis, uma vez convertidos em formigas, já não se lembravam mais da arte da guerra, já não sabiam mais como lutar. Assim, os protestos não redundaram em nada além de confusão. Os Sábios, já prevenidos quanto à possibilidade da revolta, tinham um plano B. As formigas pedem liberdade? Demo-la a elas! Os Sábios instalaram parques de diversões junto às fábricas. Nesses parques, as formigas podiam se entregar livremente a prazeres e divertimentos fúteis que as distrairiam, nas horas de folga, e as fariam esquecer suas angústias e ressentimentos. Não demorou muito para que as formigas esquecessem até mesmo que possuíam uma alma. Assim, a única coisa que lhes restava era se entregar por inteiro aos prazeres do corpo, e trabalhar mais ainda para manter o parque de diversões em funcionamento. As necessidades do corpo se tornaram a regra, e pouco tempo depois a Metrópole se transformou na Grande Sodoma, as formigas viraram os Sodomitas. Continua assim até hoje.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Resumo integral das Meditações sobre Filosofia Primeira de Descartes

Contra as Heresias, de Santo Irineu de Lião (resumo)

Resumo do Organon de Aristóteles