Tradução do artigo de Ludwig Landgrebe "Husserls Abschied vom Cartesianismus".

LANDGREBE, L. A despedida de Husserl do cartesianismo. Tradução Marcelo Rosa Vieira. Philosophische Rundschau. Tübingen, número 2/3, 1961, 133–177.

 

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A despedida de Husserl do cartesianismo

 

Introdução: O significado das preleções sobre “Filosofia Primeira”.

I. A ideia diretriz da Filosofia Primeira e sua problemática.

II. A subjetividade transcendental como campo da experiência absoluta e o problema da via para sua abertura - subjetividade fenomenológica e psicológica. 

III. O alcance do campo experiencial transcendental – A consciência de horizonte e seu significado.

IV. A problemática da absolutidade da subjetividade transcendental e seu fundamento por meio da teoria da reflexão fenomenológica.

V. O resultado da análise crítica.

 

Introdução

 

O significado das preleções sobre “Filosofia Primeira”

 

O segundo tomo das preleções de Husserl sobre “Filosofia Primeira” de 1923/24[1] 1, publicado postumamente como oitavo volume da Husserliana, tem um {134} caráter completamente diferente dos trabalhos que haviam sido publicados até então. Se Husserl havia se incumbido em pessoa da publicação dos textos que foram a lume até aquele período, parte dos quais foram concebidos previamente para lançamento futuro, e cuja aparência é efetivamente a de textos prontos para tal desígnio, como o segundo tomo das “Ideias”, o mesmo não acontece com o texto da “Filosofia Primeira”, especialmente, no que se refere à sua segunda parte sistemática. Ministrara Husserl as lições do semestre de inverno de 1923/24 com a intenção de prepará-las para impressão, mas esse projeto, que continuou a ocupá-lo até cerca de 1930, fora abandonado por razões a serem discutidas. A primeira parte histórica[2], no entanto, juntamente com os suplementos que a acompanham, se apresenta como um todo independente. Ela inclui o conteúdo completo sobre a história da filosofia que Husserl expôs em suas palestras e exercícios, desde seu tempo em Göttingen, para tratar da tradição histórica e para elaborar o fundamento histórico da necessidade da fenomenologia. O rascunho das preleções, portanto, tem base num amplo trabalho preparatório, que se prolongou por décadas, e que alcançou por fim grande unidade interna. Mas é diferente com a segunda parte a ser discutida aqui. Ela não contém uma apresentação de pensamentos laboriosamente amadurecidos e resumidos do ponto de vista didático, tem pelo contrário toda a aparência de um rascunho que fora redigido de última hora e trazido para a conferência. Trata-se do caminho de uma aventura experimental de pensamento, cujo êxito foi repetidamente posto em questão nas reflexões que acompanham as preleções (cf. por exemplo, 354 e segs.), e cujo resultado era imprevisível, desde o início, de sorte que levou Husserl, com efeito, a chegar num lugar diferente daquele que ele havia planejado no começo. Decerto, a intenção de Husserl nestas preleções era apresentar a via para a fenomenologia, que deveria contemplar todo o progresso que seu pensamento havia alcançado desde o aparecimento de “Ideias” (1913). E desse modo a fenomenologia deveria ser definitiva e sistematicamente justificada em sua necessidade histórica. Mas é paradoxal que o entendimento que o próprio Husserl teve de início do resultado dessa investigação, em sua extensão completa, fora apenas parcial: o entendimento de que aquela via e aquela justificação em geral não eram viáveis. Foi desse modo que ele, por fim, no trabalho tardio da “Crise” (“Husserliana” Vol. VI), deparou-se com uma via completamente diferente.

Para a compreensão da história do desenvolvimento do pensamento de Husserl, {135} este trabalho tem um significado semelhante ao da “Fenomenologia do Espírito” de Hegel no desenvolvimento de seu sistema, e a história de sua criação é comparável à história de uma improvisação levada sempre mais longe, também relacionada à história do surgimento da fenomenologia hegeliana. É certo que Hegel tornou pública sua “fenomenologia” e, com isso, autorizou-a. Husserl, ao contrário, nos anos que se seguiram às suas preleções, após intensos esforços, deixou por fim os rascunhos inacabados e, no geral, inteiramente incompletos. Portanto, a história da origem do presente texto é a história de um fracasso. Mas se fosse apenas o fracasso de uma nova tentativa de introduzir a fenomenologia, o trabalho de publicação deste texto deveria ser visto como altamente questionável. Esse fracasso, porém, é mais do que o infortúnio acidental de um autor (o que nem o próprio Husserl nem os ouvintes das lições na época poderiam ter percebido de imediato). Não é sinal de uma falha sistemática do poder criativo. Pelo contrário: em nenhum de seus escritos teve Husserl o radicalismo de um começo sempre novo e “incondicional”; em nenhum ele operou tão visivelmente o questionamento de todos os resultados alcançados até aquele momento; em nenhum deles Husserl fez tanta exposição à “força do absoluto” (Hegel) para que os traços fundamentais de seu pensamento manifestassem o desejo não de dominar o sistema, mas de progredir num completo abandono à “coisa”. Basta olhar para trás hoje, a partir da distância histórica adquirida, para entender que neste texto se realiza uma despedida das tradições determinantes do pensamento moderno e a partida para um novo solo de ponderada reflexão. Trata-se de um abandono relutante, no qual o desejo de Husserl era completar e cumprir aquela tradição, sem estar imediatamente consciente do quanto ele, com esse esforço, havia ultrapassado todos os limites. Trata-se, portanto, de um documento em devir cujo esforço, nunca antes visto, é fazer recurso ao discurso terminológico da tradição moderna para expressar um conteúdo de pensamento que já está se furtando a si mesmo e às suas alternativas e perspectivas.

Portanto, o risco de publicar este texto problemático é justificado de modo brilhante. Não apenas porque ele fornece a chave para entender o desenvolvimento da fenomenologia de Husserl, uma vez que as aporias que nele emergem tornam possível classificar corretamente os trabalhos posteriores de Husserl no decurso desse desenvolvimento e conectá-los aos anteriores, mas porque torna aqui compreensível a razão pela qual Husserl se vê no trabalho tardio da “Crise” compelido a seguir uma nova via – cuja novidade, decerto, {136} está velada em parte pela autointerpretação que o próprio Husserl lhe dá. Além do significado que o texto possui para a interpretação da própria fenomenologia, seu peso se baseia no fato de que, por assim dizer, ele consuma diante dos olhos do leitor o fracasso do subjetivismo transcendental como um apriorismo sem história e como a conclusão do racionalismo moderno. Embora hoje se fale com obviedade de todo o fundamento conclusivo do trabalho de Heidegger: o “fim da metafísica”, o sentido deste discurso só pode ser efetivamente compreendido por nós caso sigamos de perto o modo como a metafísica é, por assim dizer, nele colocada sob os ombros de Husserl. Quase se pode dizer que este trabalho é o fim da metafísica no sentido de que não é mais possível, depois dele, dar continuidade à linha de seu pensamento e de sua terminologia, das quais a metafísica busca extrair as últimas possibilidades. É claro, então, que Husserl nada sabia disso expressamente, e seu auditório na época também não, e será necessário um longo e intenso esforço de interpretação e de ponderada e contínua reflexão, até que possamos entender o que é que, com tudo isso, chegara ao fim. E com ele pode-se igualmente lançar nova luz sobre a relação de Heidegger com a fenomenologia. Desde seus primeiros tempos em Friburgo, e a partir dos muitos diálogos com Husserl, Heidegger pôde meditar sobre o excurso de pensamento vigente naquela altura e testemunhou com seus próprios olhos o fracasso desse pensamento, e extraiu daí a conclusão, que ele pressentia já como resultado disso, sobre o discurso metafísico, do qual o próprio Husserl ainda buscava se afastar.

Portanto, o esforço de penetrar no quase inextricável curso de pensamento da obra é ricamente recompensado, obra que, constantemente interrompida por excursões e reinterpretações retrospectivas do caminho já percorrido, empenha-se em começar sempre de novo. Seu estudo, obviamente, exige muito do leitor, que não tem uma visão clara do curso diretor de pensamento, e que pode contar apenas com os suplementos anexos ao texto principal, que preenchem três quintos do extenso volume, assim como pode recorrer a uma visão ao mesmo tempo retrospectiva e prospectiva dos trabalhos anteriores e posteriores de Husserl, para penetrar no sentido do que se realiza aqui.

Em sua introdução deveras importante e instrutiva, o editor já havia se referido a esse caráter particular da obra, e seu procedimento editorial é justificado sob todos os aspectos. Com efeito, é certo que o texto principal fora reproduzido sem nenhuma busca por aperfeiçoamento, para o qual as observações críticas de Husserl ao texto poderiam ter pendido, e todas as reflexões autocríticas de Husserl só aparecem nas notas e anexos. {137} Estes são tão habilmente selecionados da imensa quantidade de manuscritos que pertencem à esfera problemática do texto que não se poderia dispensar nenhum deles se se quisesse obter uma imagem adequada da totalidade do problema. Assim como nos volumes anteriores da edição, predomina no aparato crítico do texto o mesmo paradigmático cuidado; entretanto, o editor enfrentou dificuldades incomparavelmente maiores do que nas primeiras edições, e a maneira como ele lidou com isso merece os maiores elogios.

Resulta dessas observações introdutórias que a apreciação do trabalho no contexto aqui apresentado deve limitar-se a enfatizar as ideias fundamentais e o encadeamento das mesmas, a fim de vinculá-las a observações de interpretação crítica, com as quais, pelo menos em alguns pontos e de modo completamente preliminar, deve ser justificado aquilo que sobre o significado do trabalho fora de antemão sugerido. Para uma análise mais precisa do curso de pensamento e de suas reviravoltas, interrupções e correções subsequentes, devemos nos reportar de uma vez por todas à “introdução do editor”. Qualquer acréscimo exigiria, provavelmente, um comentário crítico que acompanhasse o texto inteiro. Também deve ser feita referência nesta introdução ao aparecimento do título “Filosofia Primeira” e ao sentido de seu uso no desenvolvimento do pensamento de Husserl. Deve-se pôr ênfase aqui somente no fato de que, após a elaboração destas preleções, aquele título é cada vez mais retirado de cena, nas Meditações Cartesianas ele aparece apenas en passant (I. p. 47) e na “Crise” apenas uma vez, entre aspas, porém. Caso o editor observe que a expressão mais geral “filosofia transcendental” toma o seu lugar, seria mais exato afirmar que não ocorreu apenas uma mudança no nome da mesma coisa, mas que Husserl, ao ver-se obrigado a fazê-lo, buscara retornar às coisas mesmas e isto significa abandonar a ideia diretora da disciplina fundamental da fenomenologia, designada com o título “Filosofia Primeira”, como impraticável.

 

I. A ideia diretriz da Filosofia Primeira e sua problemática

 

Vamos perguntar, em primeiro lugar, pela ideia diretriz do trabalho, que deve ser designada com o título. Em um artigo escrito um pouco antes (por volta de 1921, cf. p. 249), Husserl falou da Filosofia Primeira como a “ciência do método em geral, do conhecimento em geral e de possíveis metas do conhecimento, por exemplo, conhecimentos possíveis a partir dos quais todas as ciências a priori, as quais eliminaram contingências de todo tipo (também os a priori materiais e contingentes), resultam como desdobradas ramificações. Acima {138} de todas as ciências se eleva a mathesis universalissima ... como uma matemática das operações cognoscitivas ... Esta lógica mais alta que brilhou com inteligibilidade absoluta. . . move-se em distintas formas de pura subjetividade e exige o estudo da plena subjetividade pura”. Trata-se, portanto, de nada mais do que da ideia da filosofia transcendental fenomenológica, tal como ela já era exigida nas “Ideias” enquanto “primeira de todas as filosofias” (III, 8) na forma de uma ciência fundamental da subjetividade transcendental e de suas operações constituintes. Esta, em oposição a todo ser constituído, é uma “região” do ser absoluto, porque tudo aquilo de que podemos falar em geral como ser é ser para a consciência e a validade de sua posição enquanto ser deve ser demarcada na consciência.

De acordo com as lições de 1923/24, no entanto, a Filosofia Primeira deveria conter não apenas a tarefa de uma sistemática apresentação dessa ideia, mas deveria conter as meditações e pré-meditações sobre a via a seguir até ela e sobre o começo absoluto dessa via como igualmente pertencente ao seu conteúdo sistemático fechado em si (p. 5). A Filosofia Primeira é, portanto, uma ciência universal absolutamente fundamentada a partir de um começo absoluto. É aquela que “em si mesma é a primeira por razões essenciais” (VII, 4). “O nome ‘Filosofia Primeira’ indicaria nessa altura uma disciplina científica do começo”. “O começo da Filosofia Primeira em si mesmo seria então o começo de toda filosofia em geral”. Nessa condição, a Filosofia Primeira seria por si mesma absolutamente justificadora em cada etapa de seu pensamento. Husserl insiste em apontar como exemplo a investigação cartesiana do fundamentum absolutum et inconcussum, que pode ser encontrado na evidência ineliminável do ego cogito. Trata-se, portanto, da ideia de uma ciência primeira que toma como ponto de partida uma evidência consistente e irremovível, neste sentido uma evidência apodítica, e dela deriva, justifica e edifica do mesmo modo cada um de seus passos subsequentes. Deve ser justamente aquela ciência que Descartes esforçou-se, por seu turno, em concretizar, mas que ele deixou perder-se de vista, ao não efetuar a redução fenomenológica ao ego transcendental como a dimensão da justificação última e absoluta.

De saída, a introdução nas três primeiras palestras (p. 3-23) desse princípio condutor deixa à mostra o caminho percorrido por Husserl desde que a redução fenomenológica foi apresentada e introduzida nas “Ideias”. Após a demonstração da “tese geral da atitude natural”, da crença no mundo que sempre subjaz a todos os nossos atos e pensamentos e os alicerça, a redução foi introduzida ali como “questão de nossa total liberdade” {139} (III, 65), como resultado de uma livre decisão, cuja necessidade não é preciso mais justificar. Depois da apresentação da atitude natural, segue a transição para a Redução, que é feita mediante as simples palavras: “em vez de permanecer nessa atitude, queremos alterá-la radicalmente” (p. 63). Essa “ingenuidade”, porém, deve por agora ser superada com meditações sobre a situação motivacional do “filósofo que começa”. A partir daí deve acontecer a justificação da necessidade desse passo. É assim que o princípio cartesiano da saída do “eu sou” para o “eu, como filósofo que começa” se torna concreto.

O filósofo “precisa necessariamente de sua própria decisão, que é a autocriação original, por assim dizer, a fundação primordial que o cria como filósofo em geral e originalmente. Ninguém pode ser conduzido para dentro da filosofia” (p. 19). Essa decisão pela Redução fenomenológica à dimensão da justificação absoluta e última significa a “renúncia radical ao mundo” como o caminho necessário para “mostrar a efetividade ultimamente verdadeira e, com isso, viver uma vida ultimamente verdadeira” ( p. 166).

Evidentemente, não existe um paradigma que possa ser demonstrado para essa decisão na vida sob o solo da “atitude natural”, da “filiação ao mundo” (p. 123). Trata-se de uma vida que se contenta em alcançar as metas próximas e restringidas à aquisição da claridade de cada situação dada e delimitada. Isso também vale para a condução para dentro dos problemas filosóficos delimitados nas ciências particulares, os quais são perseguidos na medida do que parece necessário para a resolução de dificuldades e paradoxos metodológicos condicionados à colocação de um problema específico.

“Trata-se, portanto, de uma atitude de fato completamente ‘antinatural’ e de uma consideração sobre o mundo e sobre a vida muito antinaturais. A vida natural se efetiva como um perder-se-no-mundo (Weltverlorenheit) completamente originário, como um primeiro dar-se-mundo (Welthingabe) absolutamente necessário. O antinatural é a radical e pura autorreflexão, a autorreflexão sobre o puro ‘eu sou’, sobre a pura vida do eu, e sobre os modos como, nesta vida, algo se dá em certo sentido como objetivo,  como, evidentemente, esse sentido e esse modo de validade são conquistados como objetivos: puramente a partir da efetuação interna e própria dessa vida mesma” (p. 121).

Se, portanto, nenhum modelo para a decisão do “filósofo que começa” pode ser encontrado na vida mundana natural, então sua possibilidade reside já no próprio filósofo, caso não tenha sido ainda afetado por ela, a saber, na “motivação do cientista em geral”, e isso significa no esforço pelo conhecimento em geral. Logo, ele visa por sua essência uma verdade permanente e, com ela, visa não apenas o conhecimento, mas o conhecimento bem fundamentado[3], de modo que esse esforço inclua previamente a tendência {140} de superar a “ingenuidade da criação cognoscitiva” (p. 19). Mas não apenas o esforço pelo conhecimento, mas o esforço em geral, como já pertence à vida natural, exige justificativa e responsabilidade. O empenho pela verdade científica já é visto aqui em conexão com a questão da responsabilidade de cada esforço, em conexão com seu “fascinante significado sobre toda cultura pura” (p. 23). Porque, em última instância, todos os esforços do homem na direção do bom, do verdadeiro e do belo são em sua verdade responsáveis pelo conhecimento da exatidão das normas pelas quais se guiam. Portanto, “nas formas de conhecimento da verdade teorética toda outra verdade, logo, toda verdade axiológica (a qual nós chamamos valor verdadeiro e genuíno) e verdade prática são enunciadas na forma predicativa, determinam e também admitem formas gnosiológicas fundamentadoras ... por fim, a responsabilidade pela autenticidade do valor e pela verdade da realização no reconhecer ...” (p. 25). Por conseguinte, a busca pelo conhecimento está essencialmente dirigida à universalidade, à “onisciência” (pp. 196, 344) e, nesse sentido, à “ciência universal”. Essas expressões, porém, não possuem qualquer significado quantitativo, elas tão somente assinalam que nenhum conhecimento isolado pode ter o caráter da absoluta justificação, tão somente apontam que todo conhecimento como tal só pode ser conquistado no universo dos conhecimentos possíveis em geral. Pois a razão cognoscitiva é uma, e a universalidade não significa que a totalidade dos conhecimentos seja facticamente alcançável, mas significa tão somente a ideia do pertencimento conexo de todo conhecimento possível em geral à sua ordenação na ordenação da unidade da razão. No que diz respeito à universalidade quantitativa, a filosofia enquanto ciência absoluta é uma “ideia infinita”.

Portanto, a decisão do filósofo que começa é a decisão séria pelo esforço já estabelecido na vida dos homens, a decisão pela “crítica universal da vida” (p. 154), e, “por conseguinte, concluir a própria ideia da filosofia em uma forma de validade última e em uma forma de radicalismo da validade última” (p. 21), o que pressupõe nada menos do que “uma forma de colapso de todo conhecimento ingênuo – e de todos os valores científicos ... no conhecimento … que é necessário um começo completamente novo e uma ciência completamente nova” (op. Cit.).

Mas esse esforço pela responsabilidade cognoscitiva última não tem seu significado apenas para a reflexão do indivíduo, o qual sempre é membro de uma comunidade.

“A responsabilidade pessoal do indivíduo, que se conhece como membro e funcionário da comunidade, inclui também a responsabilização por esse tipo de vida prática e se decide, portanto, por uma responsabilização pela comunidade”. (p. 197 e seguintes). {141} “Por outro lado, pertence à minha responsabilização pessoal, nessa ligação efetiva e possível, que eu atraio os outros para a responsabilização” (op. Cit.). Portanto, “origina-se a ideia da ‘forma axiológica mais elevada de uma comunidade … a qual realiza em si esse absoluto valor’ como ‘o progresso da comunidade consciente da meta ideal que a conduz” (p. 200).

Trata-se por conseguinte da ideia de uma responsabilidade humana do filósofo, não exclusivamente para ele, mas para toda humanidade, caso nele tenha alguma vez origem o esforço para a fundamentação pensante não apenas tradicional, mas de sua existência – a posição remota que Husserl já havia desenvolvido alguns anos antes[4], e que no presente momento seria acolhida ali no curso das meditações sobre o começo da filosofia. Pelo que parece aqui, claramente, é como se esse começo, uma vez realizado por um filósofo, fixasse de uma vez por todas uma evidência convincente que poderia ser estabelecida de forma reprodutível para todos com a mesma evidência. Todavia, se já na parte histórica das palestras a fenomenologia deve ser comprovada como o desejo secreto de todo pensamento europeu-ocidental e, com isso, deve ser historicamente justificada em sua necessidade, surge uma problemática alusiva ao começo absoluto aqui buscado, do qual Husserl está aos poucos se dando conta, o que finalmente o compele a abandonar o esforço que, sob o espírito cartesiano, busca a justificação a partir de um fundamentum absolutum et inconcussum. Será mostrado na sequência como isso é anunciado no curso posterior da palestra e nas reflexões que a acompanham, e, finalmente, como conduz à nova via da obra tardia.

Essa ideia-meta da absoluta autorresponsabilização filosófica e da auto-justificação acompanha a visão das vivências da evidência como um “ter a si mesmo”, como consciência da autoexistência daquele que se intenciona: “O sujeito cognoscente está consciente disso na forma conquistada de ser ele mesmo agora através da meta. Ele discerne cognoscitivamente a ‘verdade’, aquilo que foi conquistado, o ‘isto mesmo’ da opinião julgadora” (p. 8), em contraste com a opinião “simples” e “vazia”. A exigência de uma justificação absoluta tem dois lados: o conhecimento deve ser um conhecimento “definitivo”, a posição da meta deixa-se orientar pela ideia de uma verdade permanente, definitiva e finalmente conquistada, e, por outro lado, ela deve ser evidente “sob todos os aspectos”[5]. {142}

“O reconhecido não deve ter uma determinação que lhe pertença essencialmente, a qual se encontre fora da direção de mira de minhas evidências perfeitas e, por força do seu desconhecimento, possam seguir-se ambiguidades, enigmas e dúvidas iniciais”. Uma tal evidência “nós chamamos de evidência adequada” (p. 33). O fato de que ela seja, nós reconhecemos apenas em uma outra, a saber, na evidência reflexiva, que deve ser de novo, ela própria, adequada (op. Cit.). A característica de uma evidência adequada “surge na prova de resistência à negação e à dúvida” (p. 35). Ela inclui ao mesmo tempo a visão clara da impossibilidade do não-ser e do não-ser-assim e constitui, nesse sentido, uma evidência apodítica (p. 380). Husserl assinala, a propósito (p. 125), que essa evidência não é outra senão a máxima cartesiana da indubitabilidade como o princípio da completa justificação. Portanto, o “apodítico” e o “adequado” são identificados aqui, mas deve-se notar que Husserl mais tarde distingue entre os dois (pp. 310 e I, 55). Já na página seguinte (p. 36 em diante), somente a busca por evidências adequadas é mencionada, e a tarefa de uma crítica das evidências adequadas obtidas em relação à sua apoditicidade é descrita apenas como posterior, sem que o assunto tenha sido ainda explicitamente abordado na presente lição (169 e 380).

Agora, perguntemos mais de perto: qual é a problemática que Husserl experimenta nesta explicação da fenomenologia sob a orientação da ideia de uma ciência absolutamente fundamentada? Somente o esclarecimento dela tornará possível uma visão penetrante do posterior curso de pensamento. A explicação da ideia diretriz da Filosofia Primeira seguiu inicialmente a linha de pensamento das quatro primeiras preleções. (Preleções 38–41). Para compreender sua problemática, as reflexões tardias de Husserl devem agora ser também consultadas, parte das quais, em sua precipitação, nós já encontramos nas constantes reinterpretações dos desenvolvimentos de pensamento no decurso adicional da preleção. Essa problemática pode ser brevemente esclarecida do seguinte modo. Um domínio de evidências apodíticas é buscado como base da absoluta justificação e responsabilização, as quais encerram a visão clara do não-pode-ser-diferente (Nicht-anders-sein-könnens). Se houvesse apenas assunções subjetivas “aproximadas e episodicamente resistentes”, não haveria nenhumanorma absoluta para todas as assunções judicativas correspondentes logo, todo discurso sobre uma verdade mais válida e todo esforço pela verdade teriam perdido seu sentido” (p. 366). A desejada apoditicidade deve, portanto, ter o caráter da visão eidética clara já discutida nas “Ideias”, nomeadamente, a visão clara de uma universalidade e necessidade incondicionais. Mas, agora, a apoditicidade no sentido da evidência apodítica é determinada ao mesmo tempo como um ter-a-si-mesmo, como consciência da existência-própria das coisas significadas (Gemeinten) e, nesse sentido, como imediatidade, como um imediato permanecer-junto-às-coisas.

O resultado, pois, das meditações iniciais foi: “no começo, deve-se … estabelecer um conhecimento imediato, um evento, um campo diretamente mais acessível indicado através de um conhecimento imediato {143}, conhecimentos, portanto, eles próprios imediatos, e essa imediatidade deve ela própria ser conhecida de modo imediato.” (p. 40).

 Mas tal saber imediato não pode ser outro que o da experiência. Significa de mais a mais, portanto, que a prova “conduz à subjetividade transcendental como persistência isolada junto a uma imediatidade apodítica, a uma doação experiencial absolutamente indubitável” (p. 41). Esse pensamento continuaria numa reflexão aproximadamente simultânea: toda experiência regride em última instância à intuição, a intuição é, na verdade, a consciência dessa imediatidade buscada: “portanto, a justificação absoluta pressupõe a absoluta intuição” (p. 367). A Redução Fenomenológica ao ego transcendental abre então “a possibilidade de uma experiência absoluta e de uma ciência da experiência” (p. 362), e a questão é esta, “onde há tais intuições imediatas, logo, experiências absolutas” devem ser encontradas.

“Se há visões absolutas, elas devem então ser de tal tipo, que eu, enquanto as tenha ou não as tenha ainda originalmente em ato, não posso pura e simplesmente me representar que o experienciado ou não exista ou seja dubitável ou seja apenas possível” (p. 368).

O discurso sobre “experiência” deve ser entendido aqui no sentido rigorosamente literal. Ele não pode ser mal interpretado no sentido dos antigos conceitos de visão de ideias ou intuição intelectual, e com isso já se indica que tipo de ruptura radical com as convicções da metafísica tradicional ocorreu aqui; porque pertence aos seus pressupostos fundamentais que as visões claras de necessidade e generalidade incondicionais, ou seja, visões claras sobre verdades “eternas” e “necessárias” jamais podem ser extraídas da experiência, que tem sempre a ver com facticidades e, nesse sentido, com contingências. À luz dessa tradição, uma experiência absoluta que garantisse a apoditicidade seria um ferro de madeira. Que Husserl estava plenamente consciente dessa dificuldade, indicam-no as numerosas reflexões que acompanham a preleção, nas quais sempre de novo seria desenrolada a indagação: se a meta da fundamentação apodítica em geral é alcançável e se não deve, antes, ser abandonada. Isso é claramente visível na página 452, na qual ele fala do “poder normativo da doação originária”. Se, nomeadamente, toda auto-doação se refere, em última instância, à experiência absoluta, isso nada mais significa então do que o princípio positivista do “poder normativo das facticidades”, com a qual é eliminada a possibilidade de qualquer subordinação dos dados factuais à apoditicidade de verdades eternas. O sentido oculto do positivismo como um protesto contra a supressão {144} da facticidade através do pensamento metafísico será, portanto, visível aqui com toda clareza, e nós estamos com isso no ponto em que Husserl busca apenas, por trás do solo do pensamento metafísico, retroceder para a alternativa conveniente do positivismo, respectivamente, do empirismo e do racionalismo.

É claro, essa ruptura com a tradição não acontece pela primeira vez aqui. Ela já fora estabelecida numa determinação anterior (1908) e consistente da metafísica como a doutrina do facto e na exposição da primeira parte da preleção (VII, 258).

De fato, Husserl já havia, essencialmente, deixado para trás a via cartesiana da justificação, ao tomar a evidência cartesiana “apodítica” do “eu sou”, com todo o conteúdo nela decidido, como uma experiência absoluta e, na verdade, como um campo completo de experiência. Descartes, desde seu ponto de partida, só pôde chegar a resultados igualmente seguros a partir da doutrina das ideias inatas e garantir o rigor delas, do mesmo modo, através da existência de Deus – um caminho que está fechado para Husserl, porque, para ele, a informação sobre a origem das ideias inatas só pode ser dada através de uma argumentação metafísica e não através da redução à experiência absoluta. Mas também para eles tais experiências devem ser passíveis de demonstração como operações constitutivas do sujeito transcendental, para que sua pretensão de verdade seja justificável. Pelas mesmas razões, a redução “regressiva” de Kant está fechada para Husserl na dimensão da fundamentação última do facto do Eu-penso e de sua experiência sob as “condições de sua possibilidade”, as quais, por sua vez, não podem mais ser objeto de uma experiência, porque elas é que tornam possível, primeiramente, toda experiência. Ambas as vias não correspondem à exigência de evidenciação em relação ao imediato trazer-à-intuição (Anschauung-Bringen).

Mas não há também nenhuma visão fácil de “verdades eternas” existentes em si – este aspecto platonizante acompanha ainda o conceito de intuição categorial nas Investigações Lógicas – portanto, nenhum tipo de θιγεῖν platônico de ideias e relações de ideias; porque então a evidência da própria subjetividade permaneceria oposta a uma transcendência como a um Em-si. Mas qualquer discurso sobre tal Em-si só poderia ser autorizado caso seu sentido fosse demonstrado através de uma regressão à sua origem nas operações experienciais constitutivas da subjetividade. Também o sentido do discurso sobre verdades existentes em-si só vale na correlação com a subjetividade capaz de experienciá-las, e isso não significa na correlação com uma consciência possível em geral que as experiencie, mas com a experiência originária factual {145} da subjetividade. Não têm mais precedência assim as possibilidades da efetividade, antes, todas as considerações sobre possibilidade servem apenas para a elucidação da facticidade da experiência transcendental (cf. VII, 258), daí “o fato em geral que um ser real e ideal que exceda a subjetividade transcendental total é contraditório e deve ser visto como tal” (p. 482). Sob essa base, Husserl critica em Kant o fato de que ele acabou por admitir e pressupor a lógica e as evidências lógicas como inquestionáveis, e, mais tarde, em “Lógica Formal e Transcendental”, perseguiu até o fim a questão da origem delas nas operações da subjetividade. Portanto, também deve ser compreendido que Husserl, em suas considerações históricas, coloca abertamente Hume, com sua questão originária, como um precursor da fenomenologia superior a Kant, com a sua.

Iria além do escopo deste artigo expor aquilo que deveria resultar da solução das dificuldades discutidas por Wagner e Henrich sobre o conceito de uma dimensão de justificação última[6], que não deveria ser uma dimensão de validade anterior a priori, mas uma experiência absoluta enquanto tal. Deve-se mostrar aqui apenas que a questão que toca o sentido do “anterior” do a priori assume uma nova forma (cf. VII. 358, 363).

Se mantivermos tudo isso diante dos olhos, torna-se-á compreensível até que ponto, nessas aporias, não apenas a própria via cartesiana se mostra inadequada em relação à apoditicidade, mas também todos os desenvolvimentos adicionais da questão sobre os princípios ultimamente fundamentadores, desde a problemática das “ideias inatas” até a dos “juízos sintéticos a priori”, e como, por conseguinte, elas hão de ultrapassar o espaço de jogo dessa problemática na filosofia da modernidade. Portanto, o problema das vias ou da via na dimensão da fundamentação última, a partir dessa preleção, adquire aquele significado central para Husserl, sob a base do qual ele dedica-lhe nos anos seguintes sempre novas reflexões. Sobre isso, os “anexos” dão a impressão de compor apenas uma pequena seção. Esse problema das vias, então, não é um puro problema da apresentação e da importante introdução didática à fenomenologia, mas ele pertence, como já foi observado, ao seu próprio “conteúdo sistemático”. Certamente, isso só vale na condição de que seja estabelecido o pressuposto de que há um começo absoluto, passível de fundamentação apodítica, que, uma vez descoberto como verdade permanente, deve estabelecer-se “de uma vez por todas”. Se bem que, para Husserl, esse pressuposto mesmo nesta preleção e na cadeia de reflexões subsequentes já começa a tornar-se problemático, por outro lado, ele permanece eficaz {146} ainda nos anos seguintes como um motivo em movimento e só vai para segundo plano gradativamente, com o desvanecimento da ideia condutora da Filosofia Primeira, e com ela também perde relevância a pergunta sobre o número das vias e a relação entre elas.

 

II. A subjetividade transcendental como campo da experiência absoluta e o problema da via para sua abertura – subjetividade fenomenológica e psicológica.   

 

Não é possível discutir aqui com mais detalhes o problema da diferença entre as diversas vias na fenomenologia e sua relação umas com as outras lançando mão dos textos do volume[7]. Em vez disso, deve ser esclarecido apenas qual problema permanece como fator determinante por trás dessa questão das vias. Por esse motivo, a subjetividade transcendental deve ser aberta como o “campo” da experiência transcendental absoluta, e com isso deve ser respondida uma tripla pergunta:

1. Em que sentido pode-se falar aqui de experiência?

2. Como deve ser determinado o sujeito dessa experiência?

3. Qual é o solo, o campo dessa experiência?

Obviamente, são apenas três lados da mesma pergunta que não podem ser separados um do outro, mas, dependendo de onde o acento é neles colocado, as maneiras de responder a essa pergunta também variam. Se acaso for feita uma tentativa de distinguir esses três lados, deve-se ressaltar que essa distinção não cobre absolutamente nenhuma das tentativas de Husserl de diferenciar as vias. O leitor atento dos anexos descobrirá que essas tentativas de Husserl frequentemente se contradizem e se anulam parcialmente, de modo que, lançando mão dos textos deste volume, não é possível determinar, na verdade, quantas vias foram distinguidas pelo próprio Husserl, simplesmente porque ele não veio a fazer uma tal distinção em definitivo. Em vez disso, trata-se apenas de encontrar um fio condutor com o qual possa ser descoberto e demonstrado por que a lógica interna dessas tentativas de distinção de Husserl não chegaram a um fim e qual o motivo de seu fracasso. Embora esse fracasso não devesse ser preterido, mesmo assim se lhe impôs, efetivamente, como um problema fundamental da fenomenologia. Ele não pode obter êxito senão pelo caminho dessa consideração, que trará luz ao curso de pensamento particularmente difícil e deslocado da preleção.

1) A questão sobre o sentido em que se deve falar aqui de experiência é tratada por Husserl já na conclusão das meditações preliminares (Seção I) {147} e, em seguida, especificamente nos capítulos 1 e 2 da seção II das preleções (pp. 37-64), e esse conceito de experiência é tirado do mais habitual e mais familiar. De acordo com este último conceito de experiência, a experiência é sempre compreendida como a experiência de estar no mundo e do mundo mesmo como a totalidade do que é experienciável. Mas uma tal experiência não pode suportar o critério da apoditicidade; ela é sempre presuntiva, corrigida no curso ulterior, que expõe e nega o que já foi supostamente vivenciado como aparência. Ora, não pode haver nenhum saber apodítico em geral de que ela continuará como experiência de mundo, de que, em vez de progredir continuamente, ela não dissolver-se-á na contínua consciência da experiência com todas as suas presunções, correções e negações em uma “onda de sensações” (p. 49). Essa experiência é relativa à “tese geral da atitude natural” (Ideias I. Parte III, 62), e isso significa a crença na existência contínua do mundo experienciado, portanto, não se trata de uma crença do tipo que seria suscetível de uma justificação e de uma fundamentação apodíticas. A crença de que o mundo experienciado exista não se resolve, portanto, em nenhuma certeza apodítica, que possa ser levada ao resultado de uma via absoluta de fundamentação. A experiência de mundo não é o procurado solo da experiência absoluta. Logo, a crença no ser do mundo não pode ser plenamente realizada, mas deve ser incluída na absoluta derrubada de todas as crenças anteriormente válidas (p. 68). O seu ser verdadeiro não é nada mais do que a ideia de um curso de percepção harmoniosamente contínuo e não dissolvente (p. 52). O ser do mundo é contingente e por isso não pode ser fundamentado como necessário. A crença no mundo é por isso o “pressuposto universal da positividade” (p. 461) e “mundo” nada mais é do que um título para a facticidade, cujas questões pertencem à metafísica, não, porém, à ciência absoluta do começo.

De que tipo então seria uma experiência correspondente à exigência da absolutidade? Não pode ser uma experiência que não seja a autoexperiência reflexiva do “eu sou”. A sentença “eu sou” é “o verdadeiro princípio de todos os princípios” (p. 42). Logo, essa “primeira” via para a procurada dimensão da experiência absoluta vai além da “crítica da experiência mundana” (título da Lição II). Ela significa a busca pela suposição cartesiana sem a adição das substruções metafísicas de Descartes, e por isso é também conhecida como via cartesiana.

2) Como o sujeito desta experiência do mais próximo deve ser determinado? Ele não é um Eu em geral, como se pertencesse a todos os sujeitos pensantes; pois o discurso sobre os outros sujeitos pensantes já pressupõe a existência do mundo, que deve, pois, ser incluída na virada absoluta. {148} Logo, a meditação sobre a Filosofia Primeira só pode ser formulada no discurso em primeira pessoa (p. 59). Os outros são dados para mim apenas como sujeitos no mundo, e, na verdade, dados no modo pelo qual eu percebo seus corpos entre as coisas no mundo e no modo pelo qual eu “anexo” uma consciência a esses corpos. A percepção do ser dos outros é uma percepção permeada por uma “interpretação” (p. 63) e a existência deles, fundamentada na percepção de seus corpos, não é apoditicamente mais certa do que tudo aquilo que é mundano e não mais do que o próprio mundo, e deve, por isso, ser incluída na derrubada. A esfera de experiência apoditicamente certa é apenas a do meu “eu sou” considerado como Solus ipse (p. 66). Por isso, a fenomenologia transcendental só pode começar como egologia: a vida própria tem a vantagem de ser um primeiro dado originário. (p. 174). Em conexão com a crítica da experiência mundana, essa crítica da experiência dos outros será apenas claramente sugerida por agora e discutida com mais detalhes somente na parte final da palestra (p. 174 segs.), que tem o caráter de uma retrospectiva dos resultados obtidos[8].

Após essa redução à egologia, porém, surge a questão de saber se, com ela, não se incidiu em nenhum círculo epistemológico.

Em uma versão simplificada, esta questão pode ser compreendida como segue (cf. 70 e segs.). A validade da experiência mundana será eliminada, uma vez que ela não resiste à crítica da apoditicidade (p. 69). Mas eu obtive o saber reflexivo sobre mim mesmo e meu “eu sou” apenas ao refletir sobre mim, o que experiencia ou supostamente experiencia o mundo, e, em geral, do fato de que pelo menos essa certeza seja apoditicamente certa. Contudo, eu só alcancei essa certeza porque já tinha previamente essa experiência ou suposta experiência do mundo e dos entes mundanos. Logo, não se trata de uma “suposição ingênua” a de que eu teria por essa via conquistado um solo apoditicamente seguro? O mundo não está aí ainda como um pressuposto oculto, já que só enquanto Eu no mundo em geral teria a possibilidade de refletir sobre mim de tal maneira e fazer o recuo até minha consciência? (p. 70).

A dissolução do círculo aparente segue do modo pelo qual são distinguidos dois significados do discurso sobre o eu: o eu-humano e o eu-transcendental.

“Tomado em termos concretos, eu sou um corpo animado, uma realidade psicofísica, pertencente ao mundo e a todas as realidades. Eu sou um objeto de minha experiência mundana no meio de outros. Eu não devo, a propósito, separar aquele eu, que é aqui o sujeito da experiência, o eu-sujeito do eu-objeto? Considerado mais precisamente: eu, o eu realizador que passa por uma experiência contínua do mundo, encontro esse mundo múltiplo e uniforme, e sou então, enquanto tal, o sujeito {149} que encontra justamente os objetos para todos, para todo o universo. Eu também encontro a mim mesmo enquadrado como este, este sou eu como objeto, este eu-humano com toda sua vida animada” (p. 71).

Certamente, esse equívoco do discurso do eu não é acidental, mas tem sua base no fato de que “eu, o sujeito da experiência, sou idêntico ao Eu que se tornou objetivo no homem” (op. Cit.). Eu posso, portanto, voltar a cada vez da “experiência reflexiva do eu-sujeito para a experiência objetiva mundana do eu-humano” (p. 72). Ao reivindicar uma certeza mais elevada e possivelmente apodítica para esse eu-sujeito, de maneira alguma pressupus secretamente a existência do mundo, e caí com isso num círculo, mas se o mundo criado, o objeto de minha experiência, é aniquilado, nem por isso eu deixo de ser o eu puro de sua experiência, e essa experiência não é ela própria aniquilada. (p. 73). “A contingência do conhecimento, que o mundo possui em virtude da natureza da minha experiência mundana, e tudo o que surge dessa contingência, não diz respeito ao meu ego em sua pureza e à vida do ego em sua pureza” (p. 74). Logo, a crítica da experiência mundana tem a função “de tornar visível aos olhos a subjetividade transcendental anteriormente oculta e sua vida transcendental”, “como uma esfera de ser simplesmente separável do mundo – e separada, contudo, não num sentido natural, como se se tratassem de reinos de ser existentes à parte. O ser transcendental é completamente fechado em si mesmo e, além disso, conforme o próprio sentido da experiência mundana, ele é, portanto, uma produção que se consuma no eu transcendental, experimentável como a alma de um corpo. (p. 76 e segs.). Logo, esse método conduz à percepção “de que eu, em minha efetividade última e verdadeira, vivo uma vida própria absolutamente fechada, que uma vida é um constante produzir objetivante, que forma em si um mundo objetivo como seu fenômeno, logo, como fenômeno nesta subjetividade última.” (p. 78).           

Com isso se determina, primeiramente, o sujeito da experiência absoluta que buscávamos, e fornece uma visão clara mais aprofundada do caráter próprio de sua experiência. Trata-se de uma experiência reflexiva, mas fundamentalmente diferente, enquanto tal, da “experiência interior” da tradição. Porque, como Husserl enfatiza repetidas vezes, isso tornaria o sujeito experienciante idêntico ao eu-humano, idêntico ao eu do homem no mundo, e assim nos precipitaríamos em todas as aporias gnosiológicas que dominam o pensamento da modernidade. Em vez disso, esta autoexperiência reflexiva do eu transcendental, do “eu-primordial”, deve ser fundamentalmente distinguida da experiência reflexiva psicológica, que nunca perde o caráter de uma experiência mundana (p. 79). Mas não se trata de modo algum de uma objeção que se refere apenas à análise psicológica {150} especial e à teoria da consciência e, em particular, à psicologia que só se tornou independente no século 19, separando-se da filosofia. Pelo contrário, ela estende-se a todo o problema moderno da consciência e não apenas à doutrina da consciência e da alma, mas também a toda interrogação sobre a essência do homem, que deseja elevar o homem ou a “humanidade” ao princípio da justificação última[9]. Então, desde que corretamente entendida, ela se põe contra todo o movimento do antropologismo de Feuerbach que domina o pensamento da modernidade tardia em uma medida que está longe de ser evidente. Mesmo Kant não teria escapado desse “antropologismo” (cf. VII, 354 e 357 e seguintes) e sua filosofia transcendental não seria mais do que uma psicologia transcendental (VII, 401). Obviamente, falta em Husserl uma discussão com as distinções presentes nos sistemas do idealismo alemão que, à primeira vista, soam análogas[10]. Essas indicações já deixam claro que a distinção entre reflexão psicológica e reflexão fenomenológica, e a análise da consciência, que a muitos fenomenólogos pareceu estranha, até mesmo supérflua, tem um significado central para a compreensão da fenomenologia de Husserl. Por isso, ele dedicou contínuos esforços a ela nos anos que se seguiram a esta preleção[11].

Por enquanto, deve-se salientar somente, a propósito disso, que as dificuldades de tal distinção já são evidentes no fato de que Husserl insiste sempre mais em enfatizar que essa análise e descrição são puramente psicológicas – quando não se trata de fundamentar as teorias a partir de um encadeamento psicofísico, mas manter-se no consciente tal como ele é efetivamente consciente – na análise dos diferentes modos individuais de consciência, dos diferentes tipos de ato, que devem levar aos mesmos resultados que os atos fenomenológicos, de modo que essas análises psicológicas também possam ser “lidas” fenomenologicamente mediante uma simples “mudança de sinal”. Essa relação já havia sido indicada na primeira parte das “Ideias” (III, 175), mas a diferença entre psicologia e fenomenologia era entendida ali como a de uma ciência factual indutiva, por um lado, e uma ciência essencial da consciência, por outro (loc. Cit. III, 193 e seguintes). 220 f.) – embora a possibilidade de uma “psicologia racional” adequadamente compreendida, ou seja, uma ciência física da alma, fosse uma questão deixada em aberto na terceira parte das “Ideias” (V, 37 e segs.). O problema se fez sentir com maior agudeza, assim que a subjetividade fenomenologicamente reduzida fora apresentada como um campo da experiência transcendental e a eidética da consciência transcendental como uma ferramenta para caracterizar a ciência dos fatos transcendentais (VII, 258), uma ciência baseada em “experiências absolutas”. Nas “Ideias”, por outro lado, {151} a possibilidade de uma ciência fenomenológica da experiência transcendental é expressamente negada (nota III, 149). Isso agora força a psicologia e a fenomenologia a não mais serem simplesmente distinguidas uma da outra como ciência indutiva da experiência, por um lado, e ciência eidética, por outro, mas a ciência factual psicológica e a fenomenológica devem ser distinguidas, bem como o eideticismo psicológico e fenomenológico, e a relação entre essas duas orientações da questão deve ser determinada. Não se pode discutir aqui com mais detalhes como esse problema traz mais complicações à pergunta sobre as vias da fenomenologia[12].

De fato, trata-se de um problema que toca a maior parte dos atuais esboços de antropologia filosófica. Eles reivindicam universalidade naquilo que declaram sobre os homens, sobre sua diferença com relação aos animais, sobre suas regiões de interioridade cuja gênese, etc., e eles fundamentam com direito, por outro lado, aquilo que declaram, parcialmente, sobre os resultados de pesquisas empíricas experimentais. Enquanto essa universalidade não for justificada pela referência metafísica a uma teoria dos valores e a um domínio de valores, permanecerá em suspenso, completamente, se seu caráter é o de uma universalidade empírica e presuntiva ou o de uma universalidade incondicional e, portanto, a priori. A antropologia de Gehl, com sua abundância de material relevante, fornece um exemplo claro disso. Somente entendendo a dimensão da justificação última como uma “experiência absoluta”, com uma revisão da alternativa entre “empírico” e “a priori”, essas dificuldades poderão ser solucionadas.

 

III. O alcance do campo experiencial transcendental – A consciência de horizonte e seu significado.

 

No desenvolvimento da “primeira via” para a subjetividade transcendental, que discutimos até agora, a distinção entre subjetividade transcendental e psicológica é submetida apenas a uma primeira abordagem, mas ainda não tratada detalhadamente. A saber, ela requer uma distinção mais precisa entre descrição fenomenológica e psicológica e, por outro lado, uma Teoria da Reflexão. Em primeiro lugar, no entanto, segue da página 81 até a 163 uma consideração que se destina a fornecer uma “visão geral” do domínio da experiência transcendental. Ela representa o cerne da palestra e é designada, numa revisão retrospectiva (p. 164), como uma fenomenologia da Redução fenomenológica. Nela se inclui o tratamento dos outros dois problemas: a discussão da diferença entre análise fenomenológica e psicológica em conexão com uma previsão e revisão do curso de toda a preleção (pp. 120-130 e 139-146), a teoria da Reflexão fenomenológica em uma seção (pp. 87-1 11) na qual é referido o trabalho tardio de Husserl como um excurso. {152}

Ambos devem ser abstraídos primeiramente, e a linha fundamental do curso ulterior de pensamento, a “visão geral” do campo da experiência transcendental deve ser esboçada. Esta consideração vale, portanto, para o 3) problema supramencionado, ou seja, para a pergunta: até que ponto a esfera absoluta do ser do Eu-sou pode ser vista como um campo fechado em si mesmo da experiência transcendental? Para responder a essa pergunta, a primeira via “cartesiana” para a fenomenologia não é suficiente. Ela obtém não mais do que uma referência total e permanentemente vazia à desejada dimensão da justificação absoluta[13], que reconduz à evidência impenetrável do Eu-sou através da crítica à experiência mundana e do desmoronamento da crença na existência do mundo. Não é possível ver nela, porém, aquilo que foi derrubado nesse desmoronamento nem aquilo que permanece em tal evidência, ou seja, como essa certeza instantânea e inteiramente pontual de mim mesmo, como eu inextricável, contém em si mais evidências igualmente garantidas, com o qual o “campo transcendental da experiência” se abre.

De início, essa parte é introduzida apenas como uma consideração, que deve servir para “colocar mais perto dos olhos a subjetividade transcendental”. Numa visão retrospectiva apenas, ela é indicada como uma nova “segunda via” para a fenomenologia, na qual, sob a consideração da via “cartesiana”, a prévia eliminação da crença no mundo mediante a efetuação da Redução em tipos individuais de atos é exemplificada, e a partir dela é indicado como deve ser aberto o campo inteiro da experiência transcendental (p. 127). Sobretudo, ela também mostra retroativamente, ao mesmo tempo, que os vários tipos de atos aqui analisados não são de maneira alguma simplesmente escolhidos como exemplo qualquer, mas que neles pode-se provar como em todo o atual eu-sou, eu-que-realizo-este-e-cada-um-dos-atos, o campo inteiro da experiência transcendental já está implícito. Ela representa, portanto, a via pela qual é desenvolvida, nesse texto, a doutrina das implicações intencionais (p. 153).

Essa doutrina é de um significado central, não só porque torna claro o conceito de mundo no sentido husserliano, mas porque ela também mostra que a subjetividade transcendental, como o lugar da justificação última, não surge na “atuosidade vital” (Aktuosität) da consciência[14], e sobre ela não são reconduzidos todo “sentido” e todo “significado” apenas como constituídos. Em vez disso, essa aparência nasce de uma ambiguidade no conceito de constituição e de operação constitutiva que Husserl não resolveu. Discutir quais as consequências que resultam para a questão {153} da “validade” das relações lógicas, uma vez esclarecida essa ambiguidade, levar-nos-ia muito longe daqui.

Logo, o significado sistemático desta parte repousa no seguinte: foi de início afirmado que, após a redução à evidência “apodítica” do eu-sou, através da crítica da experiência mundana, não resta apenas uma consciência pontual vazia, mas a consciência “eu sou, e sou essa experiência mundana vivida” (p. 81). Deve ser mostrado, portanto, como, no respectivo ato de experienciar, a mais ínfima experiência de um ente mundano é um perceber, mas não somente disto e daquilo que é agora percebido, mas como, nessa percepção atual, enquanto presentificar de um ente, no “ele mesmo aí” de sua doação sensível, já está implicada uma experiência do mundo. O perceber atual é nomeadamente consciente como um momento no fluxo da experiência perceptiva. Trata-se de uma consciência do que acabou-de-ser-percebido e da expectativa do que está por vir - uma conexão que apareceu pela primeira vez e foi apresentada em detalhes nas Lições sobre a Consciência do Tempo[15].

Aí já se mostra que o campo de síntese na consciência se estende muito mais profundamente do que se via na tradição, e não se refere apenas à ligação da sequência de atos no curso da consciência. É por aí que se deve entender a diferença decisiva de Husserl em relação a Kant, o que certamente seria tarefa de uma investigação própria. Só se pode salientar aqui que, com essas análises, Husserl consegue penetrar em uma dimensão da consciência e responder a perguntas das quais Kant fala: “Quanto ao como, também não podemos explicar neste lugar como pensamos em geral o que subsiste no tempo e cuja simultaneidade com o variável produz o conceito de mudança.”[16]

A consciência atual como uma consciência presente já implica assim uma presentificação, que, por sua vez, pode ser sempre convertida em um ato atual de lembrança ou ilustração das expectativas. Em todo ego cogito atual, então, eu já “sei do meu ser transcendental ou da vida no passado e no futuro” (p. 84). Esse “saber” já foi sempre decidido na consciência presente: o fato da lembrança presumida, ou, mais precisamente, à capacidade de recordar, que pertence à sua consistência, é reduzida à pura crença mediante a eliminação de sua pretensão de validade e é assegurada fenomenologicamente. É o pré-requisito para que possa ser perguntado em geral se, e até que ponto, a memória pode ser enganada e corrigida. É com base em tais modi presentes de consciência {154} que a evidência do eu sou não se limita à consciência presente a um agora pontual, mas que ela sempre inclui a consciência de um encadeamento de experiências que se estende ao passado e ao futuro; que nesta extensão assim está consciente de um mundo real nela presuntivamente experienciado.

Mas não há somente esses atos da consciência real supostamente percebida e as respectivas memórias e expectativas. Como atos posicionais, eles se diferenciam dos atos quase posicionais (p. 115) da imaginação ou da antecipação associados à percepção real e à eventual coloração de possibilidades. A consciência não é apenas consciência do ente real no mundo, mas também consciência de objetos ideais e relações lógicas, matemáticas etc., mas, então, sempre sob a base da consciência de mundo, todos os mundos ideais da ciência, da arte, etc., e sua formação, pertencem igualmente ao nosso mundo. Consideramos agora que não se trata apenas da consciência de possibilidades factuais, mas também de possibilidades puras; que o essencial é obtido variando livremente o que é dado de fato na experiência atual; e que, à luz de tal generalidade, que sempre foi de alguma maneira entendida, o ente já sempre foi entendido previamente como “um ser humano”, “um animal”, e assim por diante; indica-se então qual o significado que essa análise dos atos presentificadores comporta e em que medida a presentificação e a fantasia pertencem à constituição da realidade mundana. Elas estão, a cada vez, sempre já implicadas na consciência atual ou, como consciência de fundo do “caso eu prossiga assim e assado em minha experiência ...”, deixam claro o fato de que essa consciência do eu sou, enquanto consciência experienciante, já sempre implica a consciência de que “este meu mundo é”. Mas, além disso, esse fluxo de minha experiência inclui também a experiência de outros como um não-atual, de acordo com o conceito husserliano de apresentação (Darstellung). Somente os corpos dos outros são dados à percepção atual, e neles é indicada uma consciência “como a minha”, que, como eu também, encontra-se direcionada para o mundo e o experimenta. Esse saber sobre outrem, portanto, é a realização de um grupo distinguido não no presente, mas de atos presentificadores, sob a base dos quais o mundo experienciado por mim vale não apenas como meu, mas como mundo comum. Na experiência do mundo está, portanto, implicada a experiência da humanidade como uma comunidade abrangente de pessoas (p. 127).

Mostra-se, portanto, como resultado dessa visão ampliada do campo da experiência transcendental, que se trata efetivamente de um campo e seu correlato é o mundo na {155} condição de presumido. E mostra-se que a análise redutiva dos atos isolados de consciência não pode se interromper aí, mas que conduz ao horizonte de consciência que sempre esteve implícito em todo ato de consciência. Logo, se a redução fenomenológica deve efetivamente ser realizada, na qual é retirada a validade de toda e qualquer objetividade pressuposta, ela não pode então limitar-se apenas aos atos individuais, mas deve incluir também a consciência de horizonte implícita em cada ato de consciência, que consiste, em última instância, na consciência do mundo como um horizonte total. Ela deve então colocar fora de circuito, em primeiro lugar, essa validade oculta do mundo implícita em cada ato individual (p. 153). Por conseguinte, a análise da consciência dos tipos individuais de atos exige uma análise da consciência de horizonte (pp. 146-164). Com ela se fecha a parte designada inicialmente de visão geral, e somente com ela torna-se acessível o domínio da experiência transcendental, em seu pleno alcance (p. 146). Foi demonstrado assim que até mesmo a tentativa de efetuar a redução, primeiramente, apenas na recondução aos atos individuais, com os quais essa parte começou, só pode ser vista como uma via para o campo da experiência transcendental, se deve ser posta fora de validade não apenas a posição dos princípios que nos atos valem, respectivamente, como ser, mas o seu horizonte completo, o ser do mundo, deve ser “colocado entre parênteses”. Assim também essa via, ao terminar, conduz para o mesmo resultado que a primeira, mas nela a pergunta que permaneceu aberta no início poderá ser respondida.

É evidente que, no presente texto, a linha de pensamento não segue essa via contínua. Além disso, a necessidade de pôr os horizontes entre parênteses, de modo a ir do ato individual ao campo da experiência transcendental, só se mostra em seguida como seu resultado, e é inicialmente motivada por uma consideração tardiamente revogada, caso a procurada redução aos atos individuais com suas teses de ser e seus correlatos seja justamente a pura redução psicológica, e a pergunta: “como ela se distingue da redução transcendental-fenomenológica (p. 142)?” deva ser desconsiderada aqui.

É múltipla a significação dessa análise da consciência do horizonte, e múltipla a intuição da necessidade de que esta também, em sua plena extensão, deve ser integralmente incluída no desmoronamento da redução, que Husserl viu como uma das descobertas mais importantes dessa preleção. Ela justifica a afirmação de que o mundo, e não apenas o ser no mundo, é efetivamente experienciado. É claro que ela não é experienciada e experienciável como um objeto ao lado de outros objetos de experiência ou como o todo dos objetos experienciados e experienciáveis ao modo do possível – ela é, enquanto tal, uma “ideia” – mas ela já é sempre experienciada, em seu ser, como objeto de crença, como o horizonte indeterminado do “e assim por diante” de nossa experiência. A consciência não é apenas consciência deste {156} ou daquele ente mundano, mas, sob a base de seu horizonte atual, ela é sempre consciência do mundo ao mesmo tempo. Com efeito, com esta doutrina das implicações dos horizontes totais em cada ato individual de consciência, seja ato ou estado de consciência, foi dado um passo essencial para além de toda tradição moderna da teoria da consciência, doutrina que permite entendê-la nos limites de sua questionabilidade e através das aporias que dela resultam.

Segue-se disso, em particular para a avaliação da relação entre a fenomenologia e a filosofia transcendental de Kant, que a experiência não é apenas a apercepção “discursiva” que percorre e coleta o individual e que não atinge a totalidade da experiência senão como um conceito limite de razão. Antes de qualquer discursividade da experiência individual, a experiência já se mantém sempre na totalidade como o horizonte do mundo, como a potencialidade de ser capaz de prosseguir no futuro e de retornar ao passado pela lembrança, experiência que não somente acompanha, mas também direciona todo ato de consciência. Não podemos fazer aqui uma análise mais precisa da consciência do horizonte. Este horizonte é tal qual uma consciência aberta a uma abertura indeterminada, “sem limites próprios, e mesmo assim limitada e variavelmente limitada” (p. 467), uma abertura que, para o indeterminado ter-mundo, não pode referir-se nem à consciência de uma abertura finita nem à de uma abertura infinita, de modo que este conceito do mundo, como horizonte aberto, não incide na antinomia dos conceitos de “finito” e “infinito” que brotam naturalmente da reflexão.

Por outro lado, essa descoberta significa um motivo que é da maior importância para o desenvolvimento do pensamento de Husserl no que diz respeito ao seu trabalho tardio. Se, em primeiro lugar, foi seguida também aqui a doutrina das implicações, para a consciência da percepção e para a consciência representacional que nela está essencialmente implicada, então se mostra também que o horizonte do mundo não é somente o horizonte daquilo que é atualmente percebido e suscetível de percepção, mas é o horizonte de um mundo comum, que comporta em si mesmo todas as opiniões e “prejuízos”, todos os esquemas de concepção e normalização que se referem ao seu tornar-se-ser (Gewordensein) histórico-comunitário. Não se referem menos ao tornar-se-ser das questões e direções de investigação das ciências que já são decisivas neste mundo, que pertencem elas-mesmas ao horizonte do mundo e através das quais o mundo é sempre entendido sob uma determinada luz. Logo, através dessa intuição é motivada a posição de um duplo problema, que Husserl abordou apenas em seus trabalhos finais[17]: por um lado, a regressão ao já cientificamente interpretado horizonte do mundo sob as condições de sua formação a partir da discussão do pré-científico e do extra-científico da subjetividade {157} com seu mundo – em outras palavras, o regresso ao “mundo da vida” – ; por outro lado, a pergunta sobre as condições desse tornar-se (Werdens) como um tornar-se histórico.

Portanto, se o horizonte é um horizonte de experiência absoluta e, como tal, o horizonte de fato do meu eu, então a análise da consciência do horizonte não pode se restringir à tarefa de expor as estruturas gerais do horizonte em seu significado para a constituição do mundo em todas as camadas, do pré-científico ao mundo cientificamente interpretado, mas ela se apressa rumo à questão alusiva a este ego determinado historicamente em sua origem historicamente determinada. E isso significa, para a questão do horizonte histórico, este “eu sou”, que pode estabelecer para si mesmo a meta de tal fundamentação apodítica e de tal justificação, portanto, para o horizonte da ciência ocidental, para a filosofia e para a certeza do mundo. Mas essas são perspectivas que Husserl elaborou apenas nos anos tardios, e que, a princípio, apenas anunciaram em sua consciência a incompletude da via dessa preleção.

Num retrospecto do curso da preleção feito até aquele momento (p. 169), ele assinala que, com a exigência de tirar cada objetividade de circuito e com o intuito de estender também a redução às veladas opiniões e crenças objetivantes que operam em conjunto no horizonte, não será conquistada ainda, enquanto o horizonte permanecer obscuro, a meta de uma fundamentação apodítica da subjetividade transcendental como um campo de experiência absoluta, mas restará ainda a tarefa de realizar uma crítica apodítica da experiência transcendental. De fato, ela nunca passou por essa crítica – pela simples razão de que a crítica não pode ser executada de uma vez para sempre no antigo sentido, como fundamentação de um começo. Decerto, a plena claridade sobre isso só foi alcançada por Husserl no contexto do trabalho sobre a “Crise”. Nós lemos em uma importante reflexão de 1955 {VI, 508}: “A filosofia como ciência, como ciência honesta, rigorosa e até apoditicamente rigorosa – o sonho acabou.” A citação encontra-se no contexto de um texto que aborda a questão: “como a história é necessária para a reflexão filosófica radical?” Torna-se claro aqui como a adoção da ideia condutora da ciência apodítica vai de mãos dadas com a devoção decisiva à fundamentação histórica e histórico-filosófica da via da reflexão. Não se trata de uma ruptura com as abordagens anteriores de Husserl, mas a consequência resultante do programa de uma fundamentação última da verdade filosófica a partir da “experiência absoluta”. Não mais do que a análise da consciência de horizonte, que, como consciência de mundo, pertence de modo inseparável a cada ato pleno de consciência, e a determinação do fato de que também esta {158} deve ser incluída no “desmoronamento”, entre os parênteses redutivos, abriu a via para essa consequência. Para deixar cair todas as crenças óbvias que operam em conjunto no horizonte, que antes haviam sido assumidas como tais sem serem examinadas, seria preciso também colocar em questão a obviedade da crença na necessidade de começar pela evidência do eu-sou e justificar até mesmo ela. Mas isso não é possível fazendo-se recurso a uma essência geral da consciência, a suas operações intencionais e a suas formações de mundo – uma via que, para Husserl, tornou-se inacessível no instante em que lhe fora imposta, no extremo, a exigência de fundamentar toda justificação e responsabilidade na experiência absoluta e no sujeito da experiência absoluta. Assim, a fundamentação na obra Crise ocorre de modo completamente diferente, a saber, no retorno reflexivo à pré-história dessa exigência na ciência e na filosofia europeias, que deveria provar ser o télos dessa história[18]. Assim, pode-se dizer que a fundamentação histórico-filosófica da fenomenologia na obra da Crise preenche o espaço que ficou vazio na presente preleção, que permaneceu incompleta devido à falta da exigência de uma crítica apodítica. Esse preenchimento não resulta da base de uma nova virada, mas é consequência do retorno de Husserl à “experiência absoluta”. Portanto, não é exagero dizer que, nesse retorno, como ocorre pela primeira vez na “Filosofia Primeira”, reside o motivo que, em suas consequências, conduz à destruição do espaço no qual está contido o pensamento metafísico da tradição e, particularmente, de sua forma cartesiana moderna. O próprio Husserl, é claro, nunca em sua vida se tornou completamente consciente do alcance dessa ruptura com a tradição. Ela acontece pelas costas, por assim dizer, em meio aos esforços incessantes que, a partir da “Filosofia Primeira”, buscam estabelecer o fundamento da fenomenologia.

Para o entendimento do significado dessa descoberta no pensamento de Husserl, e para maior ponderação das consequências nela envolvidas, é preciso dizer o que se segue. É óbvio que essa fundamentação histórica não pode mais ser apodítica no sentido antigo, a saber, não pode ser uma fundamentação que admitisse ser derivada das verdades eternas ou das necessidades da razão. Trata-se, antes, da fundamentação de um fato (Faktum) histórico e da disposição de dizer sim e de agarrar a possibilidade oferecida à “decisão” do filósofo. Sem que Husserl fizesse isso, poder-se-ia entender mal a fundamentação histórico-teleológica, caso alguém quisesse apreendê-la como uma “tese dogmática”, teoricamente fundamentada sobre o curso da história. Pelo contrário, ela tem o sentido de um princípio “regulador” que determina o agir e a atitude dos homens. {159} Pois a decisão pela redução é, como decisão do “filósofo que começa”, um ato de vontade e, nesse sentido, significa uma “transformação pessoal completa”. Essa teleologia da história só é descoberta se incorporada à vontade daquele que reflete, que assim assume o fato que fundamenta sua própria existência. Sob esse aspecto, a teleologia é uma ideia, mas não uma ideia a ser contemplada em uma região absoluta, antes, é uma tarefa colocada pela própria história e tomada em uma decisão, de modo que a decisão de assumi-la como um dado não contém nenhum momento arbitrário. Acontece então que a “experiência absoluta”, na qual estão baseadas toda responsabilidade e justificação da vida, é uma experiência histórica, cuja absolutidade e finalidade não repousam no conhecimento de uma verdade existente em si, nem na apreensão ou na imensidão de uma “verdade eterna”, mas é uma experiência absoluta no sentido da autossuficiência de uma facticidade intransponível e somente passível de aceitação. A fundamentação é definitiva, no sentido de que a decisão de assumi-la “assim como deveria ser” é uma decisão sobre as considerações feitas e, por conseguinte, definitiva. Isso por si só pode constituir o sentido de uma fundamentação absoluta, depois que o ideal de sua apoditicidade se provou insatisfatório.

O fato de que o empirismo e o positivismo, com suas consequências céticas, são o companheiro inseparável da metafísica, como Husserl insiste em salientar, deve-se à impossibilidade de exercer essa virada no solo deles, com a qual o interesse legítimo que buscavam fazer valer só pode tornar-se o direito que lhes permaneceu velado. Se a designação da fenomenologia como “positivismo transcendental”[19] deve ter um sentido justificável, ele deve ser buscado nesse contexto.

No que se refere à possível objeção de que tal interpretação tem consequências que cometeriam violência contra os escritos de Husserl, deve-se frisar que somente ela dá continuidade e lógica interna ao desenvolvimento do pensamento husserliano, desde “Ideias” passando pela “Filosofia Primeira” até o trabalho tardio da “Crise”. No entanto, há muito que o caminho para um fundamento histórico da fenomenologia tem sido preparado, no significado que Husserl atribui à consideração da história da filosofia, que, todavia, ele apresentou com muito mais frequência como seu “Mar”, no fim das contas, como sua “Poesia da história da filosofia” (VI, 513). Com ambos deve se provar que a fenomenologia, em referência a abordagens anteriores, é como o “desejo secreto” da filosofia europeia. Mas essa consideração não é sustentada apenas em suas outras lições sobre a história da filosofia, mas também na parte histórica da “Filosofia Primeira”, principalmente no quadro da história pura da filosofia. Somente na “Crise”, com sua genealogia {160} do “Objetivismo” concebido como a atitude fundamental da modernidade, segue-se a fundamentação da necessidade da fenomenologia a partir de um amplo aspecto histórico-mundano e crítico-cultural. A fundamentação gnosiológica, que nas “Ideias” e ainda nos anos após a Primeira Guerra Mundial estava no centro das preocupações de Husserl, encontra-se aqui pela primeira vez sistematicamente combinada com o problema da “renovação da humanidade europeia”. Certamente, a discussão com “Ser e Tempo” de Heidegger não deixou de exercer influência sobre essa virada “existencial” de Husserl, entretanto, não dá para entendê-la atendo-se exclusivamente a esse ponto. O tema estava presente nos estudos já antes mencionados, embora tenham sido tratados de modo muito geral. Evidentemente, esse último passo de Husserl não é uma consequência do pensamento puro – sua possibilidade só seria aberta pela problemática da “Filosofia Primeira” – pensamento que havia antes de todas as experiências históricas da década de 1930, na qual Husserl demonstrou, por assim dizer, que o “colapso” significa mais do que uma simples crise da ciência, antes, ele é compreensível apenas sob a base de um colapso histórico da “humanidade europeia”. E onde haveria um grande pensador que não tivesse recebido seus últimos e velados impulsos de tais experiências históricas?

Depois de termos dirigido esse olhar para as perspectivas abertas pela descoberta da estrutura de horizonte da consciência, voltemos ao texto da própria lição. Em conexão com isso, a apresentação da estrutura do horizonte serviu para provar que o solo “absoluto” do Eu-sou, conquistado através da redução, não é apenas a evidência pontual dos atos egológicos que acabam de transcorrer, mas que com ele é obtido todo um campo de experiência transcendental. Isso significa que a exigência de ampliar o alcance dos parênteses redutivos, de modo a abranger cada um dos atos implícitos no horizonte da consciência de mundo, não quer dizer que, após essa colocação entre parênteses, reste apenas o agora pontual do Eu-sou, mas o mundo dado na consciência de horizonte se mantém como presunção (vermeinte) mantida no parêntese. Conserva-se o Eu-sou com sua consciência de um mundo presumido, esse fluxo de sua suposta experiência de mundo é preservado – como sempre, pode-se reter com o verdadeiro ser do mundo o mundo que nele é pressuposto. A experiência reflexiva fenomenológica é posta na direção dessa experiência fluente, que não é, assim, uma simples experiência do mundo, mas uma experiência reflexiva do experienciar mundano, o que quer dizer: a constituição do mundo presumido pelas operações da minha experiência. Ela é aquilo que resta após a efetuação da redução, na condição de absolutamente dado {161}, e, com relação a essas operações, o sentido, a possibilidade e os limites de cada verdade a ser obtida sobre os entes só pode ser decidida e responsabilizada por ela.

Vista dessa maneira, a subjetividade transcendental atingida pela redução não pode mais ser chamada propriamente de subjetividade no sentido da tradição. Pelo contrário, ela não é nada mais do que a unidade inseparável das experiências de mundo e seu correlato intencional, ao passo que na tradição o mundo é presumido como experimentado, e apenas a distinção entre “subjetivo” e “objetivo”, entre “dentro” e “fora”, tem no sentido convencional a razão de sua possibilidade. Portanto, o que resta após a redução não é apenas a certeza do Eu-agente individual realizado em sua presença viva, não só a presença viva dada imediatamente (p. 175), mas também a certeza do horizonte total como o mundo que sempre já foi co-presumido, pressuposto, e, nesse sentido, a certeza da “universalidade de um encadeamento sem fim de vida” (p. 153). Essa consciência do horizonte, enquanto consciência vazia, pode ser transformada em uma “consciência global universalizante”.

Isso quer dizer, portanto, que na redução “a minha vida inteira é abrangida pelo olhar ... em conformidade com ela e numa virada correlativa: o mundo é todo percorrido pela vista, apesar de que, em minha intencionalidade, ele sofra naturalmente variações de conteúdo: em minhas certezas judicativas, em minhas verossimilhanças, em minhas ações e posições de valor, sempre um novo mundo é formado e reordenado” (p. 157). Evidentemente, não se trata “propriamente de um espetáculo, não é uma reprodução efetiva da vida pretérita em uma continuidade de recordações explícitas ... e ... de uma animação explícita das presunções e possibilidades da minha vida futura ... ” (p. 155). Antes, trata-se das estruturas essenciais desta vida realizadora e formadora de mundo, especialmente, do “tipo próprio essencial da minha vida, que, em todas as fases do presente, ainda que vazias – possui uma consciência do remoto e uma consciência de horizonte e produz sempre um novo presente que flui sem cessar.” (p. 161). Desse modo, “eu ganho a pura vida universal, e o universo mundano converte-se na objetividade intencional universal como tal” (p. 162). É dessa maneira que a redução abre “um novo reino de experiência” (p. 163).

Com isso se fecha a parte central da preleção. A conclusão que dela se tira (pp. 1 64 e segs.) não ocupa mais do que um breve espaço. Ela tem o caráter de uma visão retrospectiva dos resultados obtidos e, sobretudo, confirma a necessidade do caráter egológico das considerações anteriores através de uma análise mais profunda da percepção de outrem (Fremdwahrnehmung), a partir da qual o outro nunca é um “si mesmo aí” („selbst da), mas existe apenas em sua corporalidade, tal como um objeto anexo ao mundo. Pois quando se pergunta justamente sobre a verdade do ser de tudo o que se presume estar baseado no critério da autoexistência, se o outro como outro {162} não resistir a esse critério, isso será então uma indicação de que subsiste aqui uma transcendência genuína em relação ao respectivo encadeamento subjetivo próprio, que tem seu próprio modo de comprovar a persistência da apercepção de “outro” no curso da experiência (cf. p. 495). Ele é então um “ser absoluto”, e isso quer dizer que o solo de fundamentação última da experiência absoluta, a subjetividade transcendental, não radica na respectiva subjetividade própria descoberta pela reflexão fenomenológica, e em suas operações constitutivas do mundo, mas está radicado no universo dos sujeitos transcendentais, no “transcendental Eu-todos”.

“Mas o único ser absoluto é ser-sujeito, tal como se constituiu ser originariamente para si mesmo, e o ser absoluto integral é o universo dos sujeitos transcendentais, que permanecem em comunhão uns com os outros numa comunidade autêntica e possível. Assim, a fenomenologia conduz à monadologia antecipada por Leibniz num aperçu genial” (p. 190, cf. também 482 e segs.).

 

IV. A problemática da absolutidade da subjetividade transcendental e seu fundamento por meio da teoria da reflexão fenomenológica.

 

Mas com isso a fenomenologia não é levada a uma metafísica espiritualista e à conclusão final do racionalismo moderno, embora Husserl, por outro lado, critique o “dogmatismo” da metafísica leibniziana (VII, 366)? E isso não é compatível com a alegação de que a presente lição está experimentando justamente o fracasso dessa metafísica? De fato, Husserl nunca revogou a tese sobre a subjetividade transcendental como ser absoluto, já estabelecida nas “Ideias” e que foi também mantida nas Meditações Cartesianas de 1930. Mas foi após o aparecimento de “Ideias” que a tese gerou controvérsia entre os alunos de Husserl em Gotinga, os quais relutaram em realizar aquela virada para o “idealismo”. Embora essa resistência fosse não raro justificada por argumentos inadequados, provenientes do aparato epistemológico do “realismo”, ela se baseava em preocupações legítimas, perguntando-se se essa virada deveria ser, necessariamente, a última palavra dada pela abordagem fenomenológica. Logo, um exame crítico da fundamentação dessa tese terá, ao mesmo tempo, a tarefa de remover pelo âmago a legitimidade dessas preocupações. O exame deve partir da contradição que reside no fato de que o curso de pensamento da “Filosofia Primeira” contém os momentos supramencionados, cuja consequência deve levar a colocar em questão a tese sobre a subjetividade transcendental como ser absoluto. Mas, do fato que Husserl não extraiu essa consequência, segue-se que sua despedida da metafísica não chegou a um desfecho. Acha-se aqui a razão de todas as dificuldades que a interpretação de Husserl nunca deixou de enfrentar, a saber: tanto o caráter da {163} absolutidade da subjetividade transcendental quanto o sentido dos conceitos “operativos” fundamentais com os quais Husserl trabalha, tais como constituição, operação e vida transcendental, que não podem ser derivados daquela, e que repousam numa espécie de limbo que admite exegeses contraditórias[20]. Daqui para frente, uma tomada de posição crítica deve esforçar-se em encontrar a razão dessa obscuridade. E, na verdade, uma razão tal que se deixe mostrar no curso da própria análise de Husserl, e que, para apresentar seu ponto, dispense a necessidade de argumentar criticamente de fora.

A primeira pergunta a ser feita é: quais são, nesta preleção, os caminhos de pensamento sob os quais deve ser buscada a fundamentação da tese sobre o ser absoluto da subjetividade transcendental? A mostração da consciência de horizonte levou à intuição de que a evidência imediata do Eu-sou não é apenas a evidência de cada ato efetuado no agora com seu correlato intencional, mas que ela, do mesmo modo, já desde sempre implica a consciência do mundo presumido, e daí o fato que, através da redução, é aberta a subjetividade como campo da experiência fenomenológica. Mas não se segue daí ainda que esse campo da experiência transcendental seja um campo do ser absoluto. Essa tese funda-se antes na concepção de Husserl da essência e da operação da reflexão fenomenológica. Se se mostrar que essa concepção não resiste à crítica, então a tese sobre a subjetividade transcendental como ser absoluto tornar-se-á com ela igualmente débil. A teoria husserliana da reflexão acha-se inserida no cerne da lição como um desvio de rota[21]. Sua discussão, até então adiada a fim de não interromper a apresentação do curso fechado de pensamento, deve ser, por conseguinte, remarcada, tendo em vista a obtenção do ponto de partida para uma consideração crítica. Para isso, as noções basilares dessa teoria devem ser, primeiramente, resumidas numa breve síntese.

Uma primeira consideração aplica-se sobre a estrutura geral da reflexão, que de novo é ilustrada pelo exemplo “fácil” da percepção externa. Ao perceber, eu me encontro dirigido para aquilo que é percebido. Junto à coisa, o eu que percebe está em estado de “autoesquecimento”, ou, como Husserl se corrige: ele está latente. Mas, compenetrando-se de mais coisas na percepção, ele pode a qualquer momento voltar à sua percepção inicial, na medida em que tem a consciência retencional do-que-acabou-de-ser-percebido (Soeben-wahrgenommen-Haben). Ele preenche assim a consciência expressamente reflexiva “eu percebo”, {164} junto à qual o eu antes latente do perceber torna-se patente. A reflexão é, portanto, uma “pós-percepção” (Nachgewahren) (p. 89)[22]. Ela consiste nisto: “que o eu que reflete é executor de um ato que faz do eu, antes latente, o objeto intencional do ato”. Agora, a reflexão do Eu executor está, por sua vez, latente, e pode tornar-se patente em uma reflexão de nível superior. Mas está contido essencialmente aí que o Eu-executor, na execução de seus atos, permanece sempre um eu latente. Nós temos assim no presente vivido, por exemplo, um curso percepcional “em que coexistem o eu que se dobrou e um duplo eu agente, portanto, o eu, que agora observa continuamente a casa, e o eu que preenche o ato de dar-se conta do mesmo ...” (p. 89). Mas isso não leva de modo algum a um regressus ad infinitum da reflexão, na qual o eu executor estaria, por assim dizer, constantemente em fuga, mas, uma vez que o eu executor, o “eu-sujeito”, se sabe como idêntico ao eu-objeto de sua reflexão, segue-se que essa possível iteração pode ser desconsiderada, já que não leva a nada de novo, mas sempre ao mesmo eu que é idêntico a si mesmo e que sabe de sua identidade. Portanto, é lícito dizer “que os vários polos de ato coincidem evidentemente com o mesmo eu, ou que um e o mesmo eu entra em cena em cada um desses atos ..., que o eu vivido em atividade nada mais é do que uma cisão-mantida-continuadamente-em-atuação ... ” (ein Sich-immerfort-in-tätigem-Ferhalten-spalten)  (p. 91). A reflexão, portanto, é apresentada como o ato de converter o eu antes latente em objeto intencional. O Eu-sujeito torna-se com isso o objeto intencional de sua própria reflexão

Assim para a estrutura da reflexão em geral. O que distingue então a reflexão natural e mundana da fenomenológica é o fato de que a reflexão mundana acontece o tempo todo em função de um interesse no ser do objeto (p. 95), para o qual o eu fora antes dirigido. Por exemplo, na percepção, eu busco certificar-me do ser e do ser-assim do objeto presumidamente percebido através da consideração reflexiva: “o que eu efetivamente vi?”, etc. O perceber estabelece aí seu objeto intencional como efetivo; ele é uma consciência posicional e funda-se assim no solo da “tese geral” da crença no mundo. Ele se realiza junto com a tese e serve aos objetivos da experiência de mundo. A percepção se tranquiliza quando obtém alguma certeza sobre o objeto da experiência que seja suficiente para suas metas. A reflexão fenomenológica, pelo contrário, já colocou desde sempre essa crença em xeque; ela vive puramente no interesse pelo curso subjetivo do ser presumido e na presunção enquanto tal, como o correlato do ser presumido, sem consumar a posição pertencente a ele. Para ela, “não há nada além do puramente subjetivo, e meu interesse teórico preocupa-se com a {165} consideração e a determinação desse conteúdo puramente subjetivo e puramente imanente” (p. 97). Não é preciso enfatizar novamente o sentido em que o discurso aqui refere-se à subjetividade e ao “subjetivo”, ou seja, como se dá a correlação indissolúvel entre as experiências mundanas e seu correlato intencional, o “mundo”.

Em vista desse interesse específico, que guia a reflexão fenomenológica e que é fundamentalmente diferente de todos os interesses mundanos comprometidos com a atitude natural e com a reflexão natural, chega-se por conseguinte à possibilidade de “conceber um conceito mais amplo de alguém que, por assim dizer, simpatize ou não simpatize consigo mesmo, ou melhor, de um Eu-reflexão desembaraçado de toda simpatia em relação a si mesmo, e com isso a ideia ... de um completo auto-observador e auto-reconhecedor teórico não comprometido em geral” (p. 99). Ele se estabelece, livre de todos os interesses mundanos, como o “espectador não comprometido” desse eu mundano, que acha-se absorvido nos interesses do mundo. Quando Husserl descreve seu interesse como “teórico”, ele faz menção, portanto, a esse momento descompromissado do ser, que não simpatiza com os interesses mundanos. O tema teórico do eu da reflexão fenomenológica é o campo da experiência reflexiva do curso do interesse mundano como um jogo “subjetivo”. Jogo que se revela na reflexão fenomenológica universal. Seu interesse “é um interesse puro no ser subjetivo” (p. 108), nos “puros vividos de ato”. Estes se definem como “o que pode ser fixável e reconhecível a todo momento na experiência, caso eu, como reflexivo, coloque fora de validade, dali para frente, todas as coisas vigentes” (p. 110). Husserl acrescenta em um anexo (p. 417): “A subjetividade transcendental é de início absolutamente anônima para si mesma – e não apenas despercebida ali, não-tematizada; e aberta, na sua experiência aí, e, por baixo do eu como eu-humano, estão-lhe dadas apenas coisas mundanas, como uma ‘criança do mundo”. De acordo com essa observação, será preciso distinguir a latência do eu mundano, que pode ser tornado patente na reflexão mundana, e que já está posto, embora despercebido e não tematizado, do anonimato absoluto do eu transcendental, que não pode ser apanhado, simplesmente, por uma atenção (Zuwendung) temática, possível sempre que se quiser. O eu mundano está sempre na direção “imediata” de seus objetos “co-existentes”, de um modo que não é, evidentemente, caracterizado por Husserl nos detalhes, e que pode se tornar temático na reflexão. Por essa razão, ele também substituiu a expressão “autoesquecimento” por esta: coexistência (Mitdasein) ao referir-se à latência. Para descobrir o eu transcendental, é necessária uma decisão especial. É a decisão do “filósofo que começa” em rumo à justificação e à responsabilização absolutas. {166}

Nessa distinção, porém, reside a problemática da teoria da reflexão fenomenológica, na qual deve ser buscada a fundamentação da tese da subjetividade transcendental como ser absoluto. Deve-se perguntar se ela é efetivamente capaz de receber essa fundamentação. Para tanto, deve-se partir do encadeamento do problema em que a teoria da reflexão fenomenológica é desenvolvida. É a pergunta sobre a motivação particular, não assentada em quaisquer condições mundanas, que há por trás do esforço de libertação do simpatizar com relação aos interesses do eu mundano. Desde o início, Husserl sabia não encontrar para isso nenhum modelo na vida natural (ver p. 139 acima). É “uma atitude muito ‘antinatural’ e uma autoconsideração completamente antinatural do mundo” (p. 121). Na verdade, já existe também na vida natural – pelo menos na medida em que ela se orienta na busca pelo conhecimento científico – um esforço pela fundamentação e pela verdade fundamentada, e também pelo reconhecimento da necessidade de justificação das normas que determinam a vida prática e seus interesses. Ela se tranquiliza, porém, assim que obtém um fundamento que lhe pareça suficiente para os respectivos interesses, e não se eleva à exigência de uma absoluta “crítica universal da vida”, que é uma universal justificação, fundamentação e responsabilização. A decisão para tanto não é motivada, pelo contrário, ela depende de um ato de liberdade: “Na minha liberdade, eu posso recusar essa crença natural da reflexão” (p. 92). “Somente através do ato livre de abstenção do juízo pode se instaurar essa atitude do espectador não interessado, que se desprende deliberadamente do interesse mútuo originário” e “uma motivação especial deve me libertar dessa simpatia” (p. 98). Surge então a pergunta: “Qual pode ser o motivo aqui?” (loc. Cit.). Mas essa pergunta fica, no restante do texto, praticamente sem resposta. Naturalmente, Husserl busca num anexo fornecer uma tal solução: “O motivo é claro: far-me-ei mais profundamente cônscio do fato de que todo saber e todo opinar sobre o mundo ... são provenientes de minha própria experiência” (p. 416). Com isso não se significa apenas a argumentação gnosiológica da “proposição da consciência”, mas a visão clara de que tudo o que meu mundo vale, com os interesses que nele me determinam, não é algo que é simplesmente dado e deve ser aceito, mas que tudo isso é somente para mim em virtude de meu dizer sim, meu reconhecimento, “posição”, é válido que eu não apenas tenha que aceitar meu mundo dado e dizer sim às suas exigências, mas que eu tenha que me responsabilizar por ele tal como ele é. Mas tal visão clara não é nada mais do que a consciência de mim mesmo como um eu livre que não está pura e simplesmente ordenado a nenhuma conexão mundana de condições e interesses, e este e nenhum {167} outro é o “eu transcendental”. É o eu moral que detém o julgamento de todos os interesses mundanos.

Mas o eu livre não é pura e simplesmente livre como o eu de um “ato efetivo”: ele é o sujeito da experiência absoluta e, como tal, é sobretudo minha subjetividade, minha consciência. Não é, como na “Fenomenologia do Espírito” de Hegel, a autoexperiência do espírito absoluto, que chega, no desenvolvimento de sua experiência, à δυνάμει em si que ele já era e, assim, passa do ser-em-si para o ser-para-si e ascende ao em-si-para-si. Antes, a facticidade da experiência absoluta do eu transcendental precede toda possibilidade, que, como tal, é nele constituída[23], e, com isso, a interpretação da absolutidade da subjetividade absoluta no sentido do idealismo absoluto é excluída. Nesse sentido, tratar-se-ia não de uma experiência da “vida transcendental fluente”, com seu horizonte indefinidamente aberto de experiência. Nessa abertura, funda-se a possibilidade de sua liberdade para responder ao apelo do experienciado.

Todavia, permanece em aberto como a absolutidade da subjetividade absoluta pode ser entendida positivamente. A razão pela qual seu caráter é deixado em suspenso por Husserl pode ser descoberta mediante uma análise crítica de sua teoria da reflexão fenomenológica. Nela deve se indagar: como, antes da redução, esta sua liberdade pode ser “completamente anônima” para o eu consciente? Por acaso sua consciência da liberdade já não está pressuposta na possibilidade de decidir pela redução? A decisão pela absoluta responsabilização e justificação não pode ser motivada através da visão clara de que o mundo para mim seja o que ele é, em virtude de minha tomada de decisão livre, mas a consciência da necessidade de responsabilização e justificação é o pressuposto em geral para se alcançar essa visão. Não é acidental, portanto, que todas as tentativas de Husserl de descobrir a motivação para a redução fenomenológica, sobre a qual os anexos desta palestra, em particular, fornecem informações, não possam aceder a nenhum resultado satisfatório. Sua teoria da reflexão fenomenológica, e a tese nela subjacente do ser absoluto da subjetividade transcendental, bloquearam a via para a resposta que ele estava procurando. Isso se mostra quando se indaga por que Husserl deve pôr ênfase no absoluto anonimato da subjetividade transcendental antes de descobrir a via para a redução. Somente através dela Husserl conquista, de fato, o critério que lhe permite distinguir entre a subjetividade transcendental, como uma região de ser própria e nomeadamente absoluta, e a subjetividade mundana, o eu-humano, que, embora quase sempre latente, já se conhece como eu antes da redução fenomenológica. E é justamente essa tese do anonimato absoluto que tem sua base na {168} teoria da reflexão fenomenológica. O que deve ser mostrado tal como se segue.

A reflexão tem a estrutura temporal da “pós-percepção”. A fim de manter o exemplo da percepção externa contínua no tempo: o eu que reflete encontra-se direcionado para o ainda vívido ter-acabado-de-perceber retencional, e junto a ele torna-se consciente de si próprio como o mesmo que acabou de perceber e que agora se dirige reflexivamente a esse ter-percebido. Torna-se consciente dele na identidade de seu ser como aquele que, para si mesmo, se auto-constitui como temporal, como o perseverar do eu em sua temporalização. Através dessas noções, o passo já foi dado da evidência inicialmente pontual e aparente do eu-sou até o eu-sou como “fluxo de vividos”, quando ele se torna o campo da experiência transcendental, em suas operações vividas constitutivas de mundo. O “efetivamente percebido no agora em fluxo, para cujo conteúdo puro nós reduzimos, é um si mesmo absoluto” (p. 466), que, no entanto, pertence de modo indissociável ao horizonte temporal, de modo que “o eu puro se estende para muito além do que é obtido em primeiro lugar na apreensão” (p. 477). O presente concreto em fluxo, o imanente como o constante e duradouro em fluxo, o uniformemente doador de si mesmo num conteúdo alternante ... é dado, em sua originariedade absoluta, como algo em duração e desdobrando-se deste e daquele modo no tempo. Sua identidade, em torno dessa consciência, é constituída em sua temporalidade, é o eu transcendental “absolutamente aí para si mesmo”, e o absolutamente existente para si mesmo no “sentido de um ser absoluto, que se apresenta absolutamente” (loc. Cit.). Esta sua autoapresentação é fundamentalmente distinta da autoapresentação de uma coisa na percepção, na mudança de seus modos de aparição, na qual essa apresentação de si mesmo é sempre presuntiva e, por isso, deixa em aberto, no curso ulterior da percepção, a possibilidade de engano e, com este, a possibilidade de “súbita anulação”, o não-ser (p. 466). Por outro lado, o “aparecer” do eu, como idêntico ao longo da sucessão de seus atos, é uma autoapresentação absoluta, isto é, uma autoapresentação que exclui toda e qualquer possibilidade de não-ser. Nesse sentido, deve-se entender que, quando Husserl fala da subjetividade transcendental como uma região absoluta do ser, ele a toma, enquanto tal, por um campo descritivo. Ela reside não apenas em suas operações de constituição de coisas e em seu horizonte, livre, do mundo,  mas também nas operações da temporalidade, através das quais ela se constitui como tal em cada agora idêntico.

Essa auto-constituição do eu, sob a base da qual ele é o ente absoluto para si mesmo, é, portanto, apresentada conforme o modelo de toda constituição, o que, para Husserl, é conducente: como constituição da unidade objetivada {169} ao longo da multiplicidade de seus modos de doação. Na reflexão fenomenológica, o eu transcendental é tematizado, e isso quer dizer: objetivamente, na unidade permanente que subsiste através de todos os seus atos, como o eu, que também em sua vida judicativa natural no mundo – ainda que, na maior parte das vezes, latente e “esquecido” de si mesmo –, já sempre esteve aí, dirigido para os objetos. Por conseguinte, antes da reflexão fenomenológica, será a esta permanência de sua presença-junto-às-coisas (Mitdabeisein) que se deve relacionar o discurso sobre o anonimato do eu transcendental; pois, antes dela, na reflexão natural, o eu só ocasionalmente toma consciência de sua presença-junto-às-coisas, e somente em função de interesses mundanos limitados. Através da redução fenomenológica, e de sua exibição da permanência da presença-junto-às-coisas, o eu é privado de toda possibilidade de desculpa, por assim dizer, e se depara com a universalidade de sua responsabilidade por tudo aquilo que o mundo possui, para ele, de validade.

Assim compreendido, o discurso sobre a “observação não comprometida” do eu fenomenologicamente reflexivo remove todo e qualquer teor de curiosidade “teorética” ​​ociosa, e esse modo de reflexão universal se prova ser a via pela qual pode ser fundamentada, simplesmente, em sua necessidade, a exigência que recai sobre o eu de uma “crítica radical da vida” e sua absoluta autorresponsabilização. Ela é possível somente através da “libertação da infância mundana”, da “renúncia do mundo”, isto é, pela libertação da simples aceitação e realização de todos os interesses, considerações e vínculos mundanos dados. A redução fenomenológica significa, portanto, o ato em que o eu se torna consciente de sua liberdade para a absoluta autorresponsabilização. Só porque a reflexão fenomenológica, como observação desinteressada, tem este sentido, a saber, de tomar consciência de si como “eu-executor” absoluto, e porque o mundo e as coisas do mundo não devem jamais ser admitidos facilmente como dados, Husserl pode dizer mais tarde, na “Crise”, que a reflexão leva a uma “transformação pessoal completa” do homem. Ela perde com isso a aparência de ser apenas uma satisfação tranquilizadora que serve à busca e análise do plenum (Fülle) infinito do jogo de operações intencionais subjetivas. Se Husserl cita repetidamente Agostinho: “in te redi, in interiore homine habitat veritas”, ele pode fazê-lo com razão, visto que essa via de reflexão serve ao mesmo objetivo.

Mas deve ser mostrado agora que este simples estado de coisas, por outro lado, é de novo encoberto, no sentido de que a constante presença-junto-às-coisas do eu transcendental, revelado pela redução, é representada, num teor idealista, como um campo objetivo do ser absoluto. {170} Isso é uma consequência do fato, já bastante ressaltado, de que, para Husserl, ser significa principialmente ser-objeto para um representar judicativo. É a partir desse fundamento que ele só pode entender a auto-constituição do eu em sua temporalização sob o modelo fundamental de toda constituição, a saber, como constituição da unidade objetiva através da multiplicidade de seus modos de doação. Daí a autoexistência absoluta do eu transcendental não pode significar senão a existência como objeto – em sua unidade duradoura conscientizada – do eu judicativo reflexivo sobre essa existência. A verdade de seu ser absoluto significa, portanto, o ter-se-submetido-à-experiência (Sichbewährthaben) e o ser-capaz-de-submeter-se-à-experiência (Bewährenkönnen) em atos de identificação. Ele não é nada mais do que a constância de si mesmo como executor, que se torna objetivo na reflexão fenomenológica, em todos os atos por ele performados. Por conseguinte, uma vez que, para Husserl, verdade significa principialmente a subsistência objetiva conscientizada da autoexistência, ele pode considerá-la como a operação da reflexão fenomenológica, como o eu consumado na consistência previamente anônima de sua presença-junto-às-coisas e constitutivamente operante como uma região do ser absoluto e, com isso, descoberto como campo de análise descritiva.

Mas essa subjetividade absoluta, em sua auto-temporalização, está por si mesma efetivamente aí, de modo que, em sua absoluta existência para si mesma, possa se tornar objeto de representação representacional-reflexiva? Se no meio da redução fenomenológica acontece a demonstração universal do mundo como uma estrutura de formações intencionais, das quais eu, como formador, sou responsável, essa liberação do eu para a sua responsabilização absoluta ocorre através da exposição de uma dimensão do ser absoluto como um novo campo de experiência? Antes, não se acham na análise de Husserl da auto-constituição temporal do eu os momentos sob a consideração dos quais isso deve se tornar questionável? Já nas lições sobre a consciência do tempo (p. 63) é estabelecido que a subjetividade absoluta é um “fluxo absoluto” – Husserl, em um manuscrito tardio, fala de um “rio heraclitiano” – para cujos momentos constitutivos “falta-nos em geral um nome”, visto que todos os nomes, a saber, são apenas nomes para os entes objetivos constituídos mundanamente no fluxo. Nesse rio, portanto, não há nada de estabilidade objetiva. Ela é descoberta primeiramente na “pós-percepção” (Nachgewahren) e, sob a base desta, numa visão retrospectiva-reflexiva para a constituição da unidade e da identidade do eu, que se recorda de si mesmo como sendo o mesmo em todas as fases decorridas da “corrente de vividos”. Se essa estabilidade deve ser entendida como a de um ser absoluto, então há que se pressupor que o “eu-efetuador” está completamente absorvido naquilo {171} que a reflexão pós-percepcional, representacional e objetivante de suas operações já efetuadas, e de seu resultado, é capaz de estabelecer como sua unidade. Se isso estivesse correto, seguir-se-ia então que o eu, em sua identidade absoluta, só seria constituído a partir de seu tornar-se-ser objetivável – de início mantido retencionalmente, e depois refletido na lembrança. Ele só se compreenderia como um já sido até agora. Mas isso se opõe ao fato de que a consciência do eu, em seu “presente vivo”, como constituinte de sua identidade, não inclui apenas aquilo que é mantido retencionalmente, mas inclui também as protensões que apontam na direção do “futuro”. Com as protensões, ela se dirige imediatamente para o que é esperado e experienciado e sabe de si nesta coincidência com o eu idêntico “pós-percepcionado” na reflexão. E é justamente sob a base desse ser protencional, dirigido para o “futuro” e para o “imediato”, que está fundada a possibilidade da abertura para novas experiências e para a responsabilização fática por essa experiência.

Evidentemente, não é por acaso que a estrutura da protenção seja tratada de modo muito abreviado nas lições sobre a consciência do tempo[24]. A saber, as preocupações ulteriores de Husserl levá-lo-iam a interrogar a doutrina da auto-constituição do eu a partir de seu tornar-se-ser, e a colocar em questão a conquista de sua identidade objetiva como a de um campo do ser absoluto no “pós-percepcionar” e na visão retrospectiva reflexiva. Portanto, a doutrina husserliana da identidade do eu absoluto não pode tornar inteligível como essa identidade do eu, que está sempre tornando-se consciente ao considerar a realização constitutiva já consumada, é aquela que é idêntica ao eu que está em execução, e isso significa: estendendo-se “no futuro”[25]. O eu-consumado, em sua identidade, não é absorvido naquilo que a reflexão pós-percepcionante (nachgewahrende), representacionalmente objetivante, pode estabelecer como suas realizações já consumadas. Pelo contrário, nessa sua identidade autoconsciente já está pressuposta a possibilidade de tal visão retrospectiva pós-percepcional e reflexiva. Portanto, já deve haver algum tipo de saber sobre si mesmo na execução, que, evidentemente, não surge do saber que ele obtém na reflexão sobre sua execução. Por esse motivo, Scheler já havia enfatizado que a essência dos atos “só pode ser vivida na execução” e que a reflexão “é diferente de toda atitude representacional em geral” [26]. O saber do eu sobre si mesmo, obtido através da reflexão objetivante, é apenas um {172} saber daquilo que ele já executou, isto é, os atos de uma direção intencional determinada nos quais a unidade objetiva se constitui para ele. O eu se experiencia, desse modo, apenas no resultado de suas operações já executadas, e não na execução dessas suas operações. Sua identidade própria, sobreposta a ambos, não pode nunca tornar-se um objeto para ele, mas está sempre além de toda objetivação e não pode ser obtida mediante uma reflexão objetivante. Ela sempre fora mais do que aquilo que conhece em tal reflexão, ela nunca pode se representar objetivamente, mas sempre com antecipação. Mas, antes de toda reflexão, há sempre um saber de sua identidade, e é por isso que Sartre tentou fazer a distinção entre o cogito préreflexiv e o cogito reflexiv. Assim, a identidade do eu-executor consigo mesmo nunca é uma identidade convertida objetivamente, e nunca pode ser descrita nos termos de um ser convertido objetivamente em conceito, mas apenas como a relação “dialética” de um-ser-em-outro-ser (Eins-seins-im-anders-sein)[27]. Como tal, o ego transcendental, medido pela escala da autoexistência-para-si absoluta, é evidentemente anônimo como auto-representação-para-si absoluta. Mas essa anonímia não pode ser removida por nenhuma reflexão objetiva. Ela é aquilo pelo qual o eu já sempre precede sua presença, e na qual a precedência de ser está aberta para a nova experiência e para a responsabilização por essa experiência. Mas Husserl não consegue recompor esse tipo próprio da unidade do eu em virtude de sua equação entre o ser e a identidade objetiva, embora as análises da consciência do tempo já possam oferecer o ponto de partida para isso. E somente por esse motivo a subjetividade transcendental pode ser representada por ele como um campo próprio do ser aberto pela redução.

O pensamento posterior das análises de Husserl da autoconstituição temporal do eu nos obriga então a abandonar essa tese. Ela tomba sob a crítica kantiana dos paralogismos da doutrina da alma, doutrina que têm suas raízes na aplicação da categoria de substância ao conceito de eu – e o conceito de unidade de Husserl não é nada mais do que o de aquilo que se torna representável objetivamente. Uma vez que Husserl, apesar de todas as críticas a Descartes, não desistiu do conceito de substância da metafísica moderna, sua análise da autoconsciência e, com ela, sua despedida da metafísica, ficaram no meio do caminho.

Confirma-se com isso a asserção estabelecida acima de que, sob a base do conceito condutor de ser verdadeiro como identidade objetiva a ser provada e representada, o que é legitimamente visto sob o título de subjetividade transcendental e sua absolutidade {173} é tão velado que Husserl não pôde chegar a uma determinação inequívoca desses conceitos. Porque, sob a base desse conceito de verdade, a subjetividade transcendental, como solo de absoluta fundamentação e justificação, deve ser o solo de um ser absoluto, e a teoria da reflexão fenomenológica há de confirmá-lo. Contudo, como subjetividade livre, ela não é exatamente isto – e somente uma tal subjetividade pode encontrar em si o motivo para a absoluta autorresponsabilização e produzir a via para a superação redutiva de sua “anonímia”. Por conseguinte, Husserl não pode assim encontrar nenhuma resposta satisfatória para a pergunta pela motivação da “crítica radical da vida”; pois essa “motivação” não é nada mais do que sua liberdade como abertura para a experiência absoluta, e é precisamente isso que exclui sua subsunção a um conceito de ser como objetividade subsistente. É por isso que o conceito de subjetividade absoluta cintila entre o conceito de um eu livre, que, em sua antecipação de ser, acha-se aberto para a absoluta experiência e responsabilização, e o conceito idealista de um ser absoluto, que confirma seu ser para si mesmo numa consideração teorética desinteressada de si mesmo. A pergunta sobre a motivação para o esforço pela absoluta justificação, e pela redução como o caminho dessa justificação, não poderá ser respondida, caso o eu responsável e justificador seja representado como um solo de ser absoluto.

As observações autocríticas de Husserl publicadas nos apêndices mostram que ele mesmo sempre encontrou novas dificuldades nesse ponto. Isso significa que ele não consegue estabelecer de forma satisfatória a conexão entre o eu “teórico”, que se dirige ao fundamento último do conhecimento, e o eu “prático”, o eu moral livre, embora seus esforços orientem-se nessa direção. É também uma indicação dessa lacuna que o fenômeno da consciência moral, como uma “tomada de posição emocional reflexiva”, seja mencionado sob os modi da reflexão (p. 103). Entretanto, é de fato estranho que isso não esteja associado à questão do motivo do esforço pela justificação, que guia o procedimento de redução.

Uma vez que Husserl não pôde penetrar no fundamento último da absoluta autocerteza do eu como aquele que não se abre para uma reflexão objetivante, não apenas o conceito de subjetividade transcendental permanece naquele limbo, mas também todos os outros “conceitos operativos”, tais como “constituição”, “realização”, “vida transcendental”, com os quais a essência da subjetividade transcendental deve ser interpretada.

 

V. O resultado da análise crítica

 

O resultado dessa análise crítica só pode ser brevemente sugerido. Foi nela demonstrado que o termo husserliano “subjetividade transcendental” não é isento de equívocos, mas que duas espécies de coisa {174} devem ser nele distinguidas:

1. o sujeito, na condição de livre, é convocado à sua responsabilidade, cujo apelo ele experimenta em sua interioridade como um eu-mesmo. Nesse sentido, a subjetividade transcendental, o ser-sujeito do sujeito, para falar como Kant, é o “caráter inteligível” do homem. Mas, como tal, não pode ser objetivamente refletido e não é um “campo” de descrição.

2. aquela não pode mais ser designada de “subjetividade” no velho sentido (cf. p. 161 acima) da insuprimível correlação entre as operações constitutivas de mundo e o que nelas é realizado. A grande tarefa da análise fenomenológica, mediante o método de redução, é apresentá-la, e nisto ela tem seu campo. Caso ela conduza ao resultado que essas operações da essência da “vida” transcendental, como vida de um Nós-comunalizado transcendental, seja o “Eu-todos transcendental”, isso significará, então, que aquilo que nós chamamos “mundo” não é em nada diferente do que a interpretação de alguma coisa experienciada, da qual nada pode ser dito “em si” sem esta correlação com a experienciada consciência comunalizada. Nesse sentido, Husserl chama, com razão, a fenomenologia de fenomenologia transcendental, ou seja, “transcendental” no sentido crítico kantiano, embora ela se diferencie da filosofia transcendental de Kant conforme o método e o escopo de sua temática. De acordo com o que foi exposto, o “mundo” é o resultado da constituição, que se transforma permanentemente na história do homem, como uma exegese, uma interpretação de algo sem nome e inexprimível antes dessa interpretação e sem ela. Mas quando se busca superar esse jogo da correlação entre o mundo já sempre formado na interpretação e a formação constituinte de mundo como as “leis” (Walten) do próprio mundo na direção do absoluto[28], então se segue, como quer-nos parecer, que, na compreensão de tais leis, perde-se de vista que nelas nada mais há do que o espaço de jogo, o horizonte das tomadas de posição da subjetividade transcendental no sentido inicialmente mencionado, como uma experiência livre e, com isso, aberta para a história porvindoura a cujo apelo ela tem de responder. A existência da subjetividade transcendental, nesse primeiro sentido, quebra a imanência de uma lei fechada em si mesma do mundo.  A experiência da subjetividade absoluta, como uma subjetividade livre, não é apenas a experiência responsável por suas tomadas de posição sobre o mundo e sobre as coisas do mundo, mas é, ao mesmo tempo, a absoluta certeza de si mesma como livre e convocada à absoluta responsabilização, em cuja certeza ela experimenta sua referência ao “absoluto” no sentido próprio (hegeliano), isto é, às fontes {175} da possibilidade de sua livre responsabilidade sobre todos os interesses mundanos e condicionalidades; e, com isso, o mundo, com suas leis, não pode ser o absoluto. Essa certeza de suas razões, concluída na absoluta autocerteza do sujeito livre, que, assim como a certeza de sua liberdade na reflexão, não pode ser objetivada nem subsumida a conceitos objetivados de ser, é, portanto, a certeza de uma transcendência no sentido do não-mundano, que, entretanto, não fica em oposição como um objeto que se encontra aí diante de nós, mas se manifesta como uma subjetividade livre. Nesse sentido, portanto, a subjetividade transcendental, como o sujeito consciente de sua liberdade, não é em si mesma o absoluto, mas o lugar de sua experiência – junto à qual fala-se de experiência, obviamente, em um sentido fundamentalmente diferente daquele da experiência do mundo e das coisas mundanas, o que está em harmonia com a exigência, imposta por Husserl, de que toda transcendência, caso não seja um pensamento vazio, deve ter na consciência o tipo apropriado de exibição e manifestação.

A subjetividade, em seu “anonimato”, enquanto livre de toda reflexão, já é sempre absolutamente certa de si mesma. Uma vez, porém, que Husserl acreditava que o “eu-executor”, o “eu das tomadas de posição”, pudesse ser trazido, em sua liberdade, integralmente à apreensão da reflexão objetivante “pós-percebida” (nachgewahrenden), ele não foi capaz de descobrir esse imediato ser-inerente-a-si-mesmo (Ihrer-selbst-Innesein) como a razão da possibilidade tanto da reflexão quanto da responsabilização. Ela é considerada de algum modo por Husserl sob o título de “subsolo da intencionalidade”, mas a tentativa de determinar esse “subsolo”, em sua relação de proximidade com a reflexão explícita e tematizada do subjetivo, acaba por levar à alegação, dificilmente inteligível, de que o eu, desde que não efetue nenhum ato de reflexão, nem mesmo a própria subjetividade ... é consciente[29], porque até mesmo o conceito de “consciência” é orientado desde o início até a consciência objetivante, que faz de alguma coisa um objeto intencional.

Não se pode mais entrar aqui na questão de como essa revisão do conceito de subjetividade absoluta permite precisar o sentido dos outros conceitos operativos fundamentais de Husserl. Também seria necessário um tratado à parte para mostrar como esse “saber” imediato e pré-reflexivo de si mesmo não é o de uma subjetividade “pura”, cuja pureza fosse precisamente aquela da reflexiva, teórica e universal {176} observação e objetivação. Contudo, como a subjetividade tem a razão de sua possibilidade em sua mundidade (Weltlichkeit), a que pertence a sua corporalidade, segue-se que tal corporalidade não é simplesmente constituída (embora seja uma “coisa” distinguida – na medida em que só aparece para a reflexão objetivante), pelo contrário, ela pertence propriamente à constituição do sujeito consciente de si mesmo em sua liberdade, em sua capacidade, na imediatidade em que é experimentada (cf. p. 61). O resultado que daí se segue, ao mesmo tempo, é a revisão das análises insatisfatórias de Husserl devotadas à constituição do “outro”[30], assim como a modificação do sentido da distinção entre subjetividade transcendental e psicológica.

Como já foi indicado, isso tem um significado permanente na crítica do “antropologismo” moderno. Mas a diferença aí referida não pode mais ser interpretada ao modo da descrição de duas regiões experimentadas do ser e da eidética a partir delas, o que elimina o problema do paralelismo entre análise psicológica e fenomenológica, com o qual Husserl lutou incansavelmente. A diferença que subsiste é entre a “subjetividade transcendental” no sentido mencionado inicialmente, como a dimensão “absoluta” (e isso significa: a experiência ultimamente fundamentadora, que, no entanto, não é um “campo” de descrição objetivante nem uma eidética), e, por outro lado, a “subjetividade transcendental” ao modo daquela correlação não-substancial (unaufheblich) entre a formação constitutiva do mundo, como processo da história progressiva, e o mundo já constituído, como o horizonte respectivo de sua progressão. Ela é, de fato, o campo da experiência fenomenológica, mas uma experiência na qual todos os resultados da pesquisa empírica psicológica e antropológica estão sempre incluídos.  Não é preciso dizer que a fundamentação metodológica dessa possibilidade de que o empírico possa abrir o acesso a “experiências absolutas” tornará oportuna uma revisão da distinção entre “empírico” e “ a priori”, cujo caráter alternativo-exaustivo, por outro lado, já se tornou questionável para a pesquisa de base da lógica.

Que tudo isso fique dito aqui apenas a título de insinuação e como uma indicação de como esse projeto fracassado da “Filosofia Primeira”, justamente em seu fracasso, não significa um fim, mas um começo, significa a abertura para toda uma gama de problemas que dizem respeito não apenas ao entendimento das obras de Husserl e à sua unidade, mas ao {177} horizonte das questões que surgem após o desfecho da metafísica moderna, como questões irrecusáveis no panorama de um caminho para sua resposta.

 

                                                           Ludwig Landgrebe (Köln)

           

 

 

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Husserliana, E.H. Ges. Werke, hersg. v. Rudolf Boehm, Vol. VIII, Haag (Nijhoff) 1959. Para citações deste volume, daremos somente o número da página; para citações de outros volumes, daremos o número do volume e o número da página.

[2] Husserliana, Vol. VII, cf. o debate de Heinrich, Philos. Rundschau, VI. 1958, pp. 1 e segs.

[3] Vide o anexo sobre “O Princípio de razão suficiente para todo Conhecimento Científico”, p. 329.

[4] A ideia de uma cultura filosófica na “revista Alemã-Japonesa” I, 1923, e a ideia de renovação na revista “Kaizo”, Tóquio 1923. A parte da conhecida primeira redação que é decisiva para este problema seria publicada por Husserl no texto da preleção, VII, p. 8-17.

[5] P. 31, vide também p. 9, 48 e segs.

[6] Vide Heinrich, op. Cit., e Wagner “Consideração crítica para o legado de Husserl”. Philos. Rundschau I 1953/54 p. 1 e segs. e 93 segs.

[7] Para isso, cf. a introdução do editor.

[8] Husserl já havia feito uma primeira apresentação da redução à “Intersubjetividade” numa preleção de 1910, nas “Ideias” ela não seria abordada, e seguir-se-á sua apresentação mais abrangente apenas nas “Meditações cartesianas” de 1930.

[9] Vide o posfácio às “Ideias”, V, p. 140.

[10] Vide Heinrich, op. Cit., p. 17.

[11] Os textos oficiais, que estão no volume IX da husserliana, aparecerão em breve.

[12] Para isso, consultar os apêndices na página 443 e seguintes.

[13] Cf. também as observações em VI, 157 segs., sob uma visão retrospectiva posterior.

[14] Vide Henrich, loc. Cit., p. 20.

[15] Edmund Husserls Vorlesungen zur Phänomenologie des inneren Zeitbewußtseins, hersg. v. Heidegger, Anuário de Phil. And Phan. Forschg., IX, 1928. (As preleções foram em parte ministradas já em 1904/05.)

[16] Crítica da Razão pura. Introdução B, Anm. p. XLI.

[17] Para a interpretação da obra tardia, ver A. Gurwitsch, The last work of E. Husserl, Philosophy and phenomenological Research, XVI, 1956, p. 380 e segs.

[18] Cf. também Sthepan Strasser, O problema de Deus no último Husserl. Philos. Jahrbuch, 67. Jahrg., p. 130 e segs.

[19] Ver W. Szilasi, Introdução à Fenomenologia de Edmund Husserl, Tübingen 1959, p. 116 segs.

[20] Cf. FINK, E. Conceitos operativos na Fenomenologia de Husserl, Jornal de Pesquisa Filosófica segs. XI, 1957, p. 521.

[21] P. 87-111; a análise é continuada no tratado sobre Kant de 1924, VII, p. 259 segs.

[22] O termo Nachgewahren é usado por Husserl para descrever a apreensão de uma experiência vivida no instante imediatamente posterior à experiência mesma, na medida em que o episódio experiencial dado encontra-se ainda mantido pela retenção. Nota do tradutor.

[23] Vide acima p. 145.

[24] Cf. Lições sobre a Fenomenologia da Consciência Interna do tempo. P. 410 e segs.

[25] Os comentários críticos de Ingarden, impressos no apêndice das Meditações Cartesianas, também visam essas dificuldades.

[26] Formalismo II, GW, pp. 46 e 38.

[27] Sobre isso, cf. O problema da dialética em “Marxismusstudien” Vol. III, 1960, pp. 1 e segs.

[28] Para mais detalhes, cf. FINK, E. Ser, Verdade, Mundo. Phaenomenologica Vol. I (Revisão em Phil. Rundsch. XXX, nota do editor) Haag, 1958.

[29] Essa posição se encontra na seção “Reflexão natural e transcendental e o subsolo da intencionalidade”, do tratado sobre Kant (VII, 259 ss., em particular 266), que é muito importante para essa problemática.

[30] Sobre tais problemas, cf. A. Schütz, O problema da intersubjetividade transcendental em Husserl, Phil. Rdsch. V / 1957, pp. 81 ss. e Dieter Sinn, A intersubjetividade transcendental com seus horizontes do ser em E. Husserl, Diss. Heidelberg 1958. 









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