Santo Anselmo e a prova racional a priori da existência de Deus

 Santo Anselmo e a prova racional a priori da existência de Deus

Santo Anselmo nasceu no ano de 1033 na cidade de Aosta na Itália, tornou-se monge beneditino e foi Arcebispo de Cantuária entre os anos 1093 e 1109. Considerado por muitos o primeiro escolástico, Santo Anselmo dedicou-se, sobretudo, ao problema filosófico da existência de Deus, para o qual formulou cinco soluções ou cinco provas racionais.

As primeiras quatro provas foram apresentadas pelo Arcebispo na sua obra Monologion. No seu conjunto, essas provas são compostas de inferências simples e naturais da razão humana e são baseadas na experiência. A primeira prova parte da existência das coisas boas para remontar à existência da Bondade Absoluta. A segunda prova parte da variedade das grandezas para remontar à existência da Máxima Grandeza. A terceira prova parte dos efeitos observados na criação para remontar à existência do Sumo Criador ou Causa Primeira de tudo o que existe. A quarta prova parte da existência dos graus de perfeição para remontar à existência da Suprema Perfeição.

As quatro primeiras provas de Santo Anselmo são chamadas de provas a posteriori, porque elas dependem da experiência, isto é, partem da natureza das coisas e dos efeitos da ação divina observados no mundo para inferir a existência de um primeiro princípio necessário, sem o qual nada mais poderia haver. No entanto, o santo filósofo introduziu no seu opúsculo Proslógio um novo argumento chamado de prova a priori, independente da experiência, pois demonstra a veracidade e a necessidade da existência de Deus a partir de uma análise lógica do conceito “Deus”.

Embora o argumento seja baseado na razão natural, o ponto de partida de Santo Anselmo é o da fé, baseado no princípio Credo ut intelligam (creio para compreender). Diz o santo que a inteligência racional, que nos foi concedida por Deus em defesa da fé, percebe com toda evidência que Deus é “o ser do qual não é possível pensar nada maior”. Assim, do ponto de vista conceitual, Deus pode ser definido como o maior ser pensável ou concebível pela nossa inteligência.

Contudo, o maior ser concebível é um ser existente apenas na inteligência, ou Ele existe na realidade? Podemos perguntar se existe verdadeiramente esse “ser do qual não é possível pensar nada maior”, uma vez que o insensato, do qual fala o Salmo,disse em seu coração: Não há Deus.” (Sl 13,1). Ora – argumenta o Arcebispo de Cantuária –, o insensato também ouve e compreende o significado da expressão que define Deus como “o maior ser concebível”. O sentido dessa expressão também se encontra em sua inteligência e pode ser percebido com a mesma evidência. Assim sendo, o insensato há de concordar que “o ser do qual não é possível pensar nada maior’ não pode existir somente na inteligência”. Ou seja, Ele tem que existir igualmente na realidade, caso contrário, Ele não seria o maior ser concebível, pois um ser que existisse apenas na inteligência seria menor do que um ser que existisse na inteligência e também na realidade.

No argumento de Santo Anselmo, a existência de Deus é uma consequência lógica da própria definição Dele. O Proslógio apresenta o raciocínio do seguinte modo:

Premissa 1: se “aquilo em relação ao qual não é possível conceber nada maior” existisse somente na inteligência, poder-se-ia pensar que há outro ser maior do que Ele, pois, além de pensado, esse ser existiria também na realidade.

Premissa 2: se é possível conceber a existência de algo maior do que “o maior ser concebível”, isso, certamente, seria uma contradição e um absurdo.

Conclusão: logo, “o ser do qual não se pode pensar nada maior’ existe, sem dúvida, na inteligência e na realidade”.

Dizendo o mesmo com outras palavras, podemos argumentar que o maior ser que se pode pensar deve possuir, por definição, todas as perfeições. Ora, se Deus é o maior ser que se pode pensar, segue-se necessariamente que Ele possui todas as perfeições, e, sendo a existência uma delas, segue-se necessariamente que Ele existe. Ora, vê-se com evidência que é melhor existir do que não existir, e que a existência é mais perfeita do que a não-existência. Assim, se Deus existisse apenas na inteligência, ele seria um ser simplesmente mental, e sua perfeição seria menor do que a dos seres que existem tanto na mente quanto na realidade.

Santo Anselmo demonstra então que essa conclusão é tão verdadeira que nem sequer é possível pensar que Deus não existe. Pois, seo ser do qual não é possível pensar nada maior” admitisse ser pensado como não-existente, Ele não seria o maior, e sim outra coisa, uma vez que é mais perfeito “não admitir ser pensado como não-existente” do que admiti-lo. A conclusão necessária a que isso leva é que Deus existe de tal modo que é impossível pensá-lo como não-existente, pois se a mente do homem fosse capaz de conceber algo maior do que Deus, “a criatura elevar-se-ia acima do Criador e formularia um juízo acerca do Criador. Coisa extremamente absurda”.

Mas, se o insensato disse em seu coração que Deus não existe, como isso foi possível? Não é verdade que, para dizê-lo no coração, é preciso primeiro pensá-lo? Para Santo Anselmo, o dizer aqui comporta dois sentidos que devem ser distinguidos entre si: um é um dizer meramente verbal, o outro é um dizer com compreensão do que foi dito. No dizer simplesmente verbal, a existência de Deus pode ser negada, mas essa negação não passaria de “palavras ao vento”, quer dizer, “palavras insensatas”, desprovidas de razão. No dizer com compreensão, ao contrário, a existência de Deus não admite negação possível, pois o conceito do “maior ser concebível” já inclui lógica e necessariamente a existência, que não pode ser separada dele sem que ele deixe de ser o maior.

Na história da filosofia, a prova de Santo Anselmo de Cantuária recebeu o nome de prova ontológica ou prova a simultaneo. Ontológica, porque deduz a existência extra-mental de Deus a partir da análise do Seu conceito na mente. A simultaneo, porque mostra que é simultaneamente uma e a mesma coisa pensar Deus como ideia e considerá-lo como ser realmente existente.

No entanto, o argumento não convenceu a todos. Um monge de Marmoutier chamado Gaunilo, que era discípulo do próprio Anselmo, levantou uma objeção contra a licitude dessa passagem do ideal para o real: se basta pensar uma coisa como sumamente perfeita para considerá-la existente, então teríamos que admitir que as fábulas que se narram a respeito das Ilhas Afortunadas, de estarem repletas de riquezas, delícias e fertilidade, são histórias necessariamente verídicas, e não simples fantasia. Enfim, basta formar uma ideia clara dessa ilha na mente para que ela exista efetivamente, pois, “como é melhor que uma coisa exista na inteligência e na realidade do que apenas na inteligência, ela necessariamente existe, porque, se não existisse, qualquer outra terra existente na realidade seria melhor do que ela (…)”.

A resposta de Santo Anselmo, porém, fez notar a Gaunilo que o exemplo da ilha perfeita não é adequado, porque uma ilha é mais ou menos perfeita sempre em relação a outra ilha, sendo uma perfeição ou grandeza relativa. O ser perfeitíssimo, que é Deus, do qual não se pode pensar nada de maior, não é perfeito relativamente a outra coisa, e sim perfeito absolutamente.

Posteriormente, a prova ontológica passou a constituir um verdadeiro divisor de águas na história da filosofia, sendo acolhida por muitos filósofos e rejeitada por outros. Entre filósofos católicos, ela sofreu uma reação crítica por parte de Santo Tomás de Aquino, nas suas “cinco vias”, mas, ao mesmo tempo, foi bem recebida pelo beato São João Duns Scoto em seu De primo principio. Entre filósofos da Idade Moderna, tanto cristãos quanto não-cristãos, a prova anselmiana foi bastante discutida, sendo criticada por Kant, mas acolhida positivamente por autores como Descartes e Leibniz, que a reformularam e utilizaram dentro de sua própria filosofia, e por Hegel, que a defendeu. Na filosofia contemporânea, ela é ainda objeto de discussão, principalmente, entre filósofos da escola analítica, como Plantinga, Hintikka, Knuuttilla, que tentaram provar sua validade sob a base da lógica modal, que trata das modalidades de possibilidade, realidade e necessidade.

Em suma, a fortuna crítica da prova anselmiana basta para mostrar a sua força lógica e a sua importância para a teologia racional. Cabe notar que o argumento, embora seja simples, é de uma inegável profundidade, e ele ajuda, inclusive, a corroborar e fortalecer as quatro provas a posteriori. Pois os diferentes graus de bondade, grandeza e perfeição já pressupõem uma bondade, uma grandeza e uma perfeição absolutamente infinitas, das quais aquelas participam. E esse ser infinito deve existir necessariamente, caso contrário, o homem, que é finito, não seria capaz de pensá-lo. Se não existisse, ele não seria infinitamente perfeito, nem a bondade, grandeza e perfeição relativas teriam um ser a partir do qual existem por participação.

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