Resumo do tratado Sobre a Trindade de Santo Agostinho
SOBRE A TRINDADE, DE SANTO AGOSTINHO
A obra Sobre a Trindade (de Trinitate) foi escrita por Santo Agostinho entre os anos 399 e 420. Diz uma lenda bem conhecida que um anjo, na forma de um menino, apareceu a Santo Agostinho nesse período quando ele andava a passear pela praia de Hipona na África (sua terra natal) e, absorto em seus pensamentos, meditava a excelsa Trindade que é Deus. A criança havia cavado um buraco na areia e, com uma conchinha na mão, pretendia despejar dentro dele toda a água do mar. Com espanto, o Bispo de Hipona disse ao menino que aquilo era impossível, pois o buraco era pequenino, ao passo que as águas do mar se estendiam por uma vastidão imensurável. O menino revelou então ser um anjo de Deus, e respondeu:
Seria mais fácil para mim derramar com esta conchinha toda a água do oceano neste buraco, do que para ti decifrares, só com os recursos da tua razão, o augusto mistério da Trindade.
E, dizendo isto, desapareceu.
Apesar da bela expressão poética, essa história não é inteiramente exata, pois atribui ao Santo Filósofo uma intenção que jamais passou pela sua cabeça: a pretensão racionalista de compreender os mistérios da Trindade apenas com os instrumentos da razão natural. Santo Agostinho está ciente dos limites da filosofia, ele sabe que sua inteligência não é capaz de sondar em inteira profundidade o mistério trinitário, pois o buraco que nela existe não comporta as águas impenetráveis da fé. Para isso, a inteligência deve contar com o auxílio da razão sobrenatural.
A fórmula do método de Santo Agostinho é bem conhecida: “crê para entenderes, entende para creres” (crede ut intelligas, intellige ut credas), que pressupõe que razão e fé são complementares. A fé alimenta o entendimento na sua procura, e o entendimento dissipa as obscuridades da crença. Embora a cavidade na areia seja pequena, é possível nela derramar, pela fé, algumas gotas do oceano divino. A alma humana é intelectiva justamente para buscar a Deus. A alma sabe, conforme sua essência, que “desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras” (Rm. 1,20). Para o Santo Bispo, a fé busca, mas é o entendimento que encontra; conforme diz o profeta: “Se não crerdes, não subsistireis” (Is. 7,9).
No tratado, composto de quinze livros, busca-se conhecer a Trindade por três vias diferentes: (I) a partir das Sagradas Escrituras; (II) pela razão filosófica; por último (III) pelo amor (caritas), que supera as outras vias, porque constitui o eco da vida divina: “se vês o amor, vês a Trindade” (uides trinitatem si caritatem uides, De Trin., VIII, 8, 12).
Os primeiros quatro livros são de exegese bíblica. Santo Agostinho compila os textos das Escrituras que atestam a unidade de essência entre o Pai e o Filho, investigando as aparições a Adão, Abraão, Lot, Moisés e Daniel. Para o Bispo de Hipona, o plural majestático de Gn. 1,26 “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” pode ser interpretado como uma referência à Trindade. Semelhantemente, a aparição de Deus a Abraão junto ao carvalho de Mambré em Gn. 18,1-5 (onde se lê que Abraão “levantou os olhos e viu três homens de pé diante dele”) leva a refletir sobre o significado das epifanias trinitárias, na medida em que elas refletem a unidade da Trindade, assim como a trindade da Unidade.
No Livro I, apoiado na autoridade das Sagradas Escrituras, Santo Agostinho demonstra a igualdade suprema da Trindade. Nos Livros II, III e IV, por sua vez, ele disserta com diligência sobre a missão do Filho e do Espírito Santo, baseado em leitura de Jo 14,28 (“o Pai é maior do que eu” – por causa de sua submissão à Vontade do Pai na Encarnação) e Jo 10,30 (“Eu e o Pai somos um”). Ele demonstra que Deus, Aquele que enviou, não é maior do que o Filho e o Espírito Santo, que foram enviados, pois a Trindade é essencialmente igual sob todos os aspectos, imutável, invisível, e opera de modo inseparável, estando onipresente.
A interpretação filosófica predomina nos próximos três livros. Santo Agostinho combate a doutrina modalista e a doutrina ariana, ambas heréticas. Sabélio preconiza que Deus-Pai é uma Unidade Absoluta, e que o Filho e o Espírito Santo são apenas modos dessa unidade. Ário, por sua vez, prega que há uma diferença radical entre as Três Pessoas. Na heresia modalista, a Unidade absorve e suprime a Trindade; enquanto que, na heresia ariana, a diferença entre as três pessoas é tão intensa que ela fratura a unidade real das Três Pessoas.
Agostinho entende que é preciso conciliar as duas posições para alcançar a verdade. Contra Sabélio, seria preciso defender a diferença real do Pai, do Filho e do Espírito Santo, sem fragmentar Deus e assim esvaziar sua Unidade. E, ao mesmo tempo, contra Ário, seria preciso defender a unidade da substância de Deus, sem compactá-lo e, destarte, expulsar a Alteridade.
Para Santo Agostinho, na expressão de Jo 10,30 “Eu e o Pai somos um”, o “um” refuta a heresia ariana, e o “somos” refuta a heresia modalista. Porém, como compreender filosoficamente essa expressão? Na tentativa de encontrar a linguagem mais apropriada para exprimir o excelso mistério, Santo Agostinho vai na linha dos Padres Capadócios que tinham se orientado pela categoria da relação de Aristóteles. Na filosofia aristotélica, tudo aquilo que existe na realidade existe justamente como substância, como indivíduo, ou então existe como um acidente contido na substância. Mas seria preciso modificar essa filosofia internamente para torná-la capaz de exprimir a essência da Trindade.
Santo Agostinho promove essa modificação mediante o conceito de relação. Ele introduz uma mudança nuclear, em que há identidade substancial nas Três Pessoas, que implica essencial igualdade, mas sem haver qualquer distinção hierárquica entre elas. Deus em sentido absoluto é tanto Pai, como Filho e Espírito Santo, e Eles são inseparáveis tanto no Ser quanto na operação. As três Pessoas são distintas, mas não são diversas em se tratando de seu Ser. Daí, pode-se dizer que o Pai tem o filho, mas não é o Filho, e o Filho tem o Pai, mas não é o Pai, o Filho é consubstancial ao Pai, e o mesmo acontece com o Espírito Santo. Os atributos pertencem à relação, sem ser acidentais, porque são imutáveis e se colocam na dimensão da eternidade.
O cardeal Ratzinger (1970, pp. 82-83) diz a respeito: “Está latente aí uma revolução da imagem do mundo: está quebrada a soberania única do conceito de substância, descoberta a relação como modalidade original, equivalente da realidade”. Santo Agostinho, com efeito, abre caminho para uma verdadeira transformação na ontologia: uma vez que nada se predica de Deus segundo o acidente, Ele é totalmente absoluto, mas, simultaneamente, nem tudo se predica de Deus segundo a substância. O que não é dito nem segundo o acidente nem segundo a substância é dito conforme a relação, que é reinterpretada segundo a concepção de consubstancialidade, e modifica radicalmente o esquema aristotélico substância e acidentes. “Resta, portanto, que o Filho é dito essência relativamente ao Pai. Com isso produz-se um sentido completamente inesperado (...) a correlação” (De Trin.,VII, 1, 2). A ontologia das relações trinitárias absolutas afirma no mesmo movimento a unidade e a diferença em Deus.
Mas essas duas vias, das Escrituras e da Razão Filosófica, são superadas pela via do Amor, que o Santo Bispo busca aprofundar na sequência, do livro VIII até o XIV. Só a caritas em sua plenitude é dotada do poder de desvelar a Trindade e iluminá-la para o entendimento. A vida trinitária exprime-se como uma comunhão de amor entre as três pessoas divinas. Esta comunhão inefável é o próprio Deus. E ele convoca São João para corroborar a validade desse dogma: “Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1 Jo 4,8). O amor possui uma estrutura radicalmente trinitária naquele que ama, no amado e no amor que liga os dois: “(...) quando se chegou ao amor que é dito Deus na Sagrada Escritura, brilhou um pouco [para nós] uma trindade, isto é, aquele que ama, aquilo que é amado e o amor” (De Trin., XV, 6, 10). Aí então o espírito se volta para si mesmo e procura encontrar em si próprio uma imagem da Trindade, já que fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Para Agostinho, encontram-se afinidades em nós que refletem analogicamente a Trindade, como num espelho. É assim que a tríade amor, amante e amado dá lugar à tríade da mente, do conhecimento de si e do amor que os unifica. E em seguida a tríade da memória, da inteligência e da vontade.
A questão do Cogito no Capítulo 10 do tratado sobre a Trindade (analogia do existir, do viver e o entender e antecipação do cogito cartesiano)
A partir da frase “A alma sabe com certeza que existe, vive e entende”, Santo Agostinho trata da natureza racional da alma humana, considerando que a capacidade de saber ou conhecer constitui o seu traço distintivo.
Para Santo Agostinho, a alma intui imediatamente a si quando responde à ordem que lhe é dirigida de “conhecer-se a si mesma”. Isso porque ela está imediatamente presente a si mesma. No entanto, a alma não acrescenta nada ao conhecimento que tem de si através desse ato. Por exemplo, quando ela julga ser ar ou fogo ou cérebro, tende a pensar que o ar, o fogo ou o cérebro entendem, mas, na verdade, ela sabe que é ela própria quem entende.
Desse modo, a alma sabe que existe, que vive e entende. Diz Santo Agostinho que o cadáver, decerto, também existe e o animal, com certeza, também vive. No entanto, nenhum deles é capaz de entender. Pois, do fato de existir, como o cadáver, não se segue necessariamente a capacidade de entender, nem o fato de viver, como o animal, implica necessariamente o entendimento. Mas o ser que entende, como a alma, necessariamente também existe e vive. A alma, portanto, de modo nobre e peculiar, existe, vive e entende.
Santo Agostinho trata em seguida da faculdade da vontade. Ele salienta que toda alma humana, na medida em que quer, sabe que quer e que, para querer e saber que quer, é preciso existir e viver. Assim, a alma humana refere a sua vontade ao objeto que ela quer. O mesmo argumento se aplica à recordação: a alma, quando recorda, sabe que para recordar é preciso ser e viver. Assim, ela refere a sua memória ao objeto recordado.
Santo Agostinho observa que nas faculdades da memória e da inteligência está contido o conhecimento de muitas coisas. A faculdade da vontade, por sua vez, cumpre o papel de tornar possível à alma beneficiar-se do uso e deleite das coisas que são por ela conhecidas.
Santo Agostinho deixa de lado em sua consideração o saber das coisas exteriores, obtido pelos sentidos do corpo, e chama maior atenção para a certeza absoluta que a alma possui de si mesma ao exercer as suas faculdades de viver, recordar, entender, querer, pensar, saber e julgar. Diz o filósofo que a alma não pode duvidar da existência dessas faculdades, porque, se ela duvidar, mesmo assim ela sabe que precisa viver para duvidar. O mesmo acontece com a recordação e demais faculdades: se ela duvida, lembra-se de que há um motivo para sua dúvida; de que duvidar pressupõe o querer estar certo; pressupõe o pensar, o julgar, etc. Além disso, não é possível que ela duvide de sua dúvida, visto que, para duvidar, é preciso antes existir, sendo impossível que algo inexistente duvide.
Santo Agostinho, por conseguinte, se posiciona contra os que acreditam que a alma é um corpo, tendo ela a natureza do ar ou do fogo. Nessa concepção, a alma seria o sujeito, a substância primeira, e a inteligência seria apenas uma qualidade ou acidente contido nessa substância. O filósofo também se posiciona contra os que acreditam que a alma é a constituição interna ou estrutura do corpo, estando presente neste como uma qualidade ou acidente.
Para Santo Agostinho, as duas crenças acima são impugnadas pelo fato de que a alma tem um conhecimento evidente de si mesma, e que esse conhecimento é encontrado imediatamente toda vez que ela se procura. Segue-se com necessidade disso que a alma conhece a sua substância, e conhece com plena certeza. Ora, ela não pode saber com certeza ser constituída de ar, fogo ou algo corporal, pois tudo isso é vago e incerto. O conhecimento só pode ser dito certo e evidente quando nada há nele que seja incerto. Assim, a existência e a vida da alma consistem em entender que ela existe e vive, e disso ela está absolutamente certa.
A alma é capaz de representar para si, na imaginação, o ar, o fogo e o corpo, mas não pode dizer que ela própria é constituída desses elementos, pois estes não estão presentes a ela de maneira evidente e imediata. Se a substância da alma fosse ar, fogo ou corpo, estes elementos compareceriam diante dela como uma presença interior, real e não imaginária. A presença da alma a si mesma é a única que é absolutamente certa e evidente.
Santo Agostinho, portanto, conclui que a alma só pode ser definida por essa presença, estando excluído que ela seja alguns daqueles elementos que ela, às vezes, imagina ser.
No Livro XV, de conclusão, Agostinho tenta enfim passar da imagem trinitária em nós para a Trindade Divina em si mesma, investigando as “realidades eternas, incorpóreas e imutáveis, cuja perfeita contemplação será a vida bem-aventurada que não pode ser senão eterna, e que nos é prometida” (De Trin., XV, 4, 6).
Edição Resenhada:
SANTO AGOSTINHO, De Trinitate / Trindade, Paulinas Editora, Prior Velho, 2007.
Referências:
RATZINGER, Joseph. Introdução ao Cristianismo. Preleções sobre o Símbolo Apostólico. São Paulo: Editora Herder, 1970.
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