Resumo do Tratado da Natureza Humana de Hume

 

Para Hume, todos os conteúdos que se encontram na mente humana não passam de percepções, que admitem ser divididas em “impressões” e “ideias”. A diferença entre os dois tipos de percepção reside no grau de intensidade com que eles atingem a mente. A impressão possui uma força ou vivacidade mais intensa, ao passo que a ideia, que outra coisa não é senão uma cópia de impressões, é uma percepção mais lânguida ou fraca. Essa distinção, em outras palavras, é a mesma que existe entre sentir, que consiste em ter percepções vívidas (sensações, paixões, emoções), e pensar, que consiste em ter percepções fracas (ideias).


Mas existe também uma outra divisão que pode ser efetuada entre as percepções, que tanto se aplica às impressões quanto às ideias. É a divisão entre percepções SIMPLES e COMPLEXAS. As simples não são suscetíveis a nenhuma divisão ou distinção, ao passo que as complexas admitem ser divididas e distinguidas. As ideias são, sob muitos aspectos, semelhantes às impressões, exceto no grau de força e vivacidade. Elas parecem corresponder-se mutuamente.

No entanto, no que diz respeito à complexidade, essa semelhança é atenuada, pois nunca uma ideia complexa, como, por exemplo, a ideia de Jerusalém, Paris, reproduz em todos os detalhes a impressão que lhe é correspondente. Agora, no que diz respeito às ideias simples, como de vermelho, de luz do sol, parece evidente que todas elas são semelhantes às impressões de que são derivadas. Esse último caso parece não comportar exceção. Assim, Hume pode estabecer como proposição geral que “todas as nossas ideias simples, em sua primeira aparição, derivam de impressões simples, que lhes correspondem e que elas representam com exatidão”.

Do fato de que toda ideia simples acompanha sua impressão correspondente, e vice-versa, será possível concluir que há uma forte conexão que liga as percepções entre si. Hume descobriu pela experiência que as impressões sempre precedem as ideias que lhes correspondem. A impressão é seguida pela ideia que se lhe assemelha, e essa ordem nunca pode ser invertida. Segue, portanto, a conclusão de que as impressões são a causa do surgimento das ideias.

Ao examinar primeiro as impressões, vemos que elas podem ser divididas em duas espécies: de SENSAÇÃO e de REFLEXÃO. Para fazer notar sua diferença, Hume ilustra a tese com a seguinte descrição: uma impressão de frio atinge os sentidos, em seguida a mente faz uma cópia dela, a qual permanece mesmo depois de a outra desaparecer. Assim, sob a forma de ideia, essa impressão inicial de frio volta a aparecer na mente, provocando novas impressões (desejo, aversão, esperança, medo). Esses afetos constituem, assim, impressões de reflexão. Quando surgem, eles convertem-se igualmente em ideias (a ideia do desejo do frio, por exemplo), que podem, por sua vez, produzir novas impressões e ideias a partir delas.

A retenção de tais impressões na mente, sob a forma de ideias, ocorre de duas maneiras diferentes: pela faculdade denominada MEMÓRIA, ou por aquela denominada IMAGINAÇÃO. Para Hume, as ideias que pertencem à memória são muito mais vivas e fortes que as da imaginação. A outra diferença que pode ser destacada entre as duas faculdades reside no seu nível de semelhança em relação à impressão original. A memória retém a impressão primeira sem nenhuma variação, preservando o aspecto original, ao passo que a imaginação, por ser livre, mistura, transpõe e transforma as ideias adquiridas pelas impressões, embaralhando-as. Assim, ela é capaz de criar ficções como centauros, dragões, montanhas de ouro, etc. Isso ela faz ao separar as ideias simples e tornar a uni-las como bem quiser.

Isso torna manifesto um dado que importa muito assinalar: supondo que fosse verdade que as ideias aparecem aleatoriamente, soltas e desconexas, resultaria que nada poderia reuni-las a não ser o acaso. Desse modo, a mente já não seria capaz de ligar ideias simples em uma única ideia complexa, formando um objeto. Resulta, então, que deve haver um princípio de união entre as ideias, algum laço pelo qual são associadas, gerando uma regularidade, de maneira que, ao aparecer uma ideia, ela naturalmente introduz outra, que lhe está conectada. Hume apresenta a tese de que não existe apenas uma qualidade associativa entre as ideias, mas três, que são as seguintes: SEMELHANÇA, CONTIGUIDADE e CAUSA E EFEITO.

Com base em alguma dessas qualidades, a mente associa as ideias, ou seja, o aparecimento de uma ideia introduz naturalmente outra ideia. Assim a imaginação, ao notar a semelhança entre certas ideias, tende a passar facilmente de uma para outra, estabelecendo um vínculo entre elas. Com a qualidade da contiguidade no tempo e no espaço, ocorre o mesmo: a ideia de determinado lugar introduz a ideia de outro lugar que lhe é contíguo, a de determinado acontecimento na história introduz a ideia de outro acontecimento que lhe é simultâneo. Mas, para Hume, o princípio de associação de maior extensão e que mais atua sobre a mente é o da causalidade. Veremos por que razão.

A respeito das relações, Hume salienta que há dois sentidos pelos quais podem ser designadas: primeiro, que elas se apresentam como a qualidade que assegura a conexão entre as ideias na imaginação. Segundo, que elas remetem à “circunstância particular na qual, ainda que a união de duas ideias na fantasia seja meramente arbitrária, podemos considerar apropriado compará-las”. As relações que tornam possíveis todas as comparações entre objetos se reduzem a sete classes gerais:

1 – Semelhança.

2 – Identidade.

3 – Espaço e tempo.

4 – Quantidade ou número.

5 – Qualidade.

6 – Contrariedade.

7 – Causa e efeito.

Contra a tradição filosófica, Hume defende que a ideia de substância não pode ter sido derivada de nenhuma impressão, nem simples nem complexa. A ideia de substância, ao fim das contas, não se distingue da de uma coleção de qualidades particulares, assim ela não passa de uma coleção de ideias simples que foram ligadas pela imaginação e subsumidas a uma designação particular, ou seja: um nome.

Nesse sentido, Hume considera uma das maiores descobertas da filosofia, com relação às ideias abstratas, a de Locke, que dizia que “as ideias gerais não passam de ideias particulares que vinculamos a um certo termo, termo este que lhes dá um significado mais extenso e que, quando a ocasião o exige, faz com que evoquem outros indivíduos semelhantes a elas”. Hume, no entanto, acrescenta que a abstração da qualidade e da quantidade em um particular não é completa, que ela não as elimina completamente. Há dois argumentos que falam a favor disso: primeiro, que a noção de quantidade e de qualidade só é adquirida através da noção de seus graus. Em segundo lugar, que a mente, embora não tenha uma capacidade infinita, apreende imperfeitamente, mas de uma só vez, todos os graus possíveis de quantidade e qualidade, e que se serve deles para os propósitos da reflexão e do diálogo.

Demonstra-o suficientemente o fato de que “todos os objetos diferentes são distinguíveis, e que esses são separáveis pela imaginação (...) e que essa verdade vale também para a proposição inversa: todos os objetos separáveis são distinguíveis, e portanto diferentes’. Assim, não podemos separar o comprimento (qualidade) de uma linha, justamente porque a ideia de linha e a ideia de comprimento não são diferentes nem distinguíveis, não admitindo, por isso, separação. Como todas as ideias, portanto, são derivadas de impressões originais, cada uma deve incluir a quantidade e a qualidade que estiveram, de início, presentes na impressão correspondente.

As ideias não são senão cópias de impressões, daí que tudo que se fala de uma deve ser admitido como verdade a respeito da outra. A ideia é uma impressão fraca, lânguida, em relação à impressão forte que surge na experiência. Da verdade, então, de que não existe nenhuma ideia que não possua um grau preciso de quantidade e qualidade, pode-se extrair a outra verdade que diz que até mesmo as ideias mais abstratas são limitadas e determinadas nesse aspecto. Hume, enfim, resolve o paradoxo dizendo que as “ideias abstratas são, portanto, individuais em si mesmas, embora possam se tornar gerais pelo que representam”. A imagem que surge na mente é sempre particular, nós é que aplicamos a ela, no raciocínio, o caráter do universal, tal como se ela efetivamente o fosse.

A partir dessas proposições, Hume trata então do problema do conhecimento e da probabilidade. Para acompanhá-lo na tarefa, importa reter os sete tipos de relação filosófica que foram listados acima. O foco agora deve ser na relação de causa e efeito, que ocupa a posição central no conjunto das relações que constituem o conhecimento. Hume já deixa claro, de saída, sua posição: que é manifesto que todas as relações causais só podem ser conhecidas pela experiência, e não por raciocínios abstratos.

Todos os raciocínios, sem exceção, são feitos por comparação, a qual pode se dar quando os objetos comparados estão presentes na percepção, ou quando só um deles está presente, ou até mesmo quando nenhum deles está. Quando os objetos estão presentes, a percepção dispensa o exercício do pensamento, mostrando diretamente a relação pela qual comparamo-los entre si. Quando os objetos estão ausentes, o pensamento deve raciocinar de maneira abstrata. Nesse caso, será lícito dizer que somente a causalidade “produz uma conexão capaz de nos proporcionar uma convicção sobre a existência ou ação de um objeto que foi seguido ou precedido por outra existência ou ação”.

Mas se toda ideia de causação é adquirida de uma impressão, pela qual o pensamento é afetado numa experiência, o primeiro passo será examinar as impressões a fim de encontrar aquela que a produz. Essa ideia deve ser derivada de alguma relação mantida entre dois objetos. Hume admite que o fato da contiguidade é essencial para a ideia de causa e efeito, mas que a ênfase deve ser posta, antes, na PRIORIDADE temporal que a causa possui em relação ao efeito. De onde chegamos à ideia de sucessão, que constitui, junto com a contiguidade, as duas espécies de relação que se mostram essenciais à causalidade. Mas não é suficiente apontar apenas a sucessão, pois um objeto pode ser anterior a outro sem ser sua causa. Assim, diz Hume que “há uma CONEXÃO NECESSÁRIA a ser levada em consideração”.

O filosofo, porém, coloca em questão a necessidade que julgamos pertencer à relação entre as causas e seus efeitos. Essa relação será mesmo necessária? Será que os objetos devem necessariamente estar unidos? Por que nossa decisão sempre é concluir a favor da necessidade? Qual a razão dessa crença que depositamos na causalidade?

Ora, a tendência que predomina entre os filósofos é admitir que tudo que começa a existir deve possuir uma causa para tanto, o que eles assumem simplesmente, sem demais considerações e sem exigir uma prova. Mas assim que examinamos a questão mais atentamente, vemos logo que não logramos descobrir nada parecido com necessidade em nenhuma das relações de causa e efeito dadas na intuição. Nenhuma delas comporta essa marca, pelo contrário, é bastante alheia a ela. Para Hume, só pelo fato de não ser possível provar que tudo que começa a existir tem que ter uma causa já mostra suficientemente que não é possível provar também que a conexão entre determinada causa e seu efeito é necessária. A imaginação é perfeitamente capaz de separar a ideia de uma causa da ideia de um começo qualquer de existência, sem incorrer com isso em contradição ou absurdo. Portanto, a ideia de causa necessária, por esse caminho, não recebe prova demonstrativa.

Assim, como o fundamento da proposição de que todo efeito é precedido de uma causa não é intuitiva nem demonstrativamente certo, segue-se então que essa opinião só pode ter sido derivada da experiência. Para Hume, há uma impressão original que antecede a transição da mente da causa para o efeito ou do efeito para a causa. Aqui o filósofo deve introduzir sua tese de que é o costume ou o hábito que fixa a ideia com força e vigor. Assim, será fácil observar que é apenas a experiência de casos repetidos, com frequência, que fixa na mente a conexão que determinado objeto tem com outro, ao suceder a ele no tempo. “Lembramo-nos de ter tido exemplos frequentes da existência de objetos de uma certa espécie; e também nos lembramos que os indivíduos de uma outra espécie de objetos sempre acompanharam os primeiros, existindo em uma ordem regular de contiguidade e sucessão em relação a eles”. É desse modo que a conexão entre neve – frio, fogo – quente, foi inferida pela mente, após ter tido várias experiências de sua conjunção em casos passados.

Aqui Hume chega à concepção de CONJUNÇÃO CONSTANTE, que implica simplesmente que certos objetos semelhantes têm se mostrado, em todos os casos observados até agora, em relações semelhantes de contiguidade e sucessão. Mas algumas dúvidas podem ser logo colocadas: tratar-se-ia de uma conjunção necessária? Que faculdade, afinal, produz essa ideia da conjunção: a imaginação ou o entendimento? Seria a razão que determina a inferência? Para Hume, trata-se apenas de uma associação entre ideias feita pela imaginação, depois de ter experiência de vários casos semelhantes.

Ora, certamente que, “se fosse a razão, ela o faria com base no princípio de que os casos de que não tivemos experiência devem se assemelhar aos casos de que tivemos experiência, e de que o curso da natureza continua sempre uniformemente o mesmo”. Mas só a capacidade que a mente tem de conceber uma mudança no curso natural das coisas mostra que essa mudança não é logicamente impossível. “Ser capaz de formar uma ideia clara de alguma coisa é um argumento inegável a favor da possibilidade dessa coisa”. Nos casos passados, determinado objeto esteve em conjunção constante com outro, mas isso não constitui prova de que continuará a ser assim no futuro. O que temos é só uma probabilidade – escreve Hume –, a qual se funda na suposição de uma semelhança entre tais casos.

A experiência é um princípio que me instrui sobre as diversas conjunções de objetos no passado. O hábito é um outro princípio, que me determina a esperar o mesmo para o futuro; e ambos, atuando conjuntamente sobre a imaginação, levam-me a formar certas ideias de uma maneira mais intensa e vívida que outras que não se fazem acompanhar das mesmas”. É através dessa qualidade que a mente aviva certas ideias mais do que outras.

Quando se trata, pois, da demonstração, a necessidade da conclusão impõe-se à mente de tal modo que é impossível que ela conceba algo diferente.

Mas quando se trata de questões de fato (matters of fact), a imaginação fica livre para conceber ambas as possibilidades, de existência ou de inexistência.

O único modo em que a ideia de um objeto se altera é em relação à sua força e vivacidade. Assim, tudo indica que a crença em uma ideia se deve ao fato de que a ideia possui uma força tão viva que somos levados a acreditar nela, por uma inclinação natural. Para Hume, “a crença é somente a concepção forte e firme de uma ideia”. Damos nosso assentimento a uma ideia no momento em que somos como que persuadidos a crer nela, pelo poder de sedução que ela possui. Assim, como nas questões de fato nenhum objeto dado implica a existência de outro, não é nossa razão que determina a conexão que estabelecemos entre eles, e sim o costume ou um princípio de associação.

Hume tem dificuldade em encontrar uma palavra apropriada para exprimir o fato que gera a crença. Então, ele acaba por concluir que a ideia recebe o nosso assentimento pelo fato simples fato de que a sentimos (feeling) de maneira diferente. É esse sentimento em relação a ela que a distingue de uma ficção ou fantasia. Para ele, portanto, o que foi até agora denominado força, vivacidade da ideia, não passa de um SENTIMENTO manifestado por nós em relação a essa ideia. Sentimento que nos faz atribuir a ela uma realidade, distinguindo-a das ficções. A imaginação não pode contrair a crença por si só, mas é levada a senti-la por força do hábito, pela experiência repetida de vários casos semelhantes. Uma vez adquirida, como algo sentido, a crença “permite distinguir as ideias do juízo das ficções da imaginação. A crença dá a essas ideias mais força e influência; faz que pareçam mais importantes, fixa-as na mente; e as torna os princípios reguladores de todas as nossas ações”.

Agora, quando propomos tratar das causas da crença, notamos já que todas as operações efetuadas pela mente dependem, em grande parte, da disposição em que ela se encontra no momento. Ela forma, portanto, uma ideia mais viva e violenta daqueles objetos que a afetam de maneira mais intensa, determinando sua disposição e fazendo com que ela dirija a eles seus pensamentos com maior frequência. Hume diz que os espíritos animais são estimulados, levando a mente a pensar na ideia, assim como na ideia que está habitualmente conectada a ela. Por exemplo, o retrato de um amigo querido conduz o pensamento à ideia do amigo real, de quem não temos notícia há muito tempo.

Fica evidente então que o que produz a crença é uma impressão original que, por um determinado número de vezes, surgiu acompanhada de outra impressão, levando a mente a uni-las, sob a ideia de causa e efeito. Para isso, a mente foi determinada pelo COSTUME, de modo que toda vez que lhe ocorrer posteriormente a ideia de uma dessas impressões, a ideia da outra surgirá em seguida, devido à conjunção habitual entre elas. “Quando estamos acostumados a ver duas impressões em conjunção, o aparecimento ou a ideia de uma nos leva imediatamente à ideia da outra”.

No sistema elaborado acima, todo raciocínio é apenas efeito do costume, e o único efeito do costume é avivar a imaginação, produzindo em nós uma concepção forte de um determinado objeto.

Hume é levado assim a tirar a conclusão de que todo raciocício provável é admitido não pela razão, e sim pela sensação que o acompanha. É pelo fato de que sua evidência exerce uma espécie de sedução sobre nossa mente, não passa de uma ideia que atinge a mente com mais força, levando-nos a preferi-la em lugar de outra. Assim, quando nos persuadimos da verdade de uma argumentação, partimos daquilo que sentimos por ela, pela influência que ela exerceu sobre nosso sentimento. “Não é somente na música e na poesia que devemos seguir nosso gosto e sentimento, mas também na filosofia”.

Logo, a posição geral assumida é a de que “uma opinião ou crença não é senão uma ideia forte e vívida derivada de uma impressão presente a ela relacionada”. Assim, nossos raciocínios acerca de causas e efeitos derivam unicamente do costume, e a crença, neles depositada, consiste mais propriamente num ato do sentimento do que num ato da razão. A definição mais exata a ser feita da causalidade é, então, a que segue: “Uma CAUSA é um objeto anterior e contíguo a outro, e unido a ele de tal forma que a ideia de um determina a mente a formar a ideia do outro, e a impressão de um a formar uma ideia mais vívida do outro”.

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