Resumo do Discurso de Metafísica de Leibniz
RESUMO DO DISCURSO DE METAFÍSICA DE LEIBNIZ
O Discurso de Metafísica de Leibniz é dividido em quatro partes.
O assunto da primeira parte é a perfeição divina.
A segunda parte, por sua vez, trata da noção de substância individual.
Na terceira parte, por seu turno, Leibniz ocupa-se do restabelecimento das formas substanciais.
A quarta parte é dedicada à questão do entendimento e da vontade.
O texto é construído de forma ordenada e todas as partes encontram-se relacionadas entre si num único e grande sistema metafísico.
1º Parte
Leibniz trata na primeira parte do discurso da perfeição divina, que é absoluta.
Na natureza existem muitas perfeições, mas Deus as possui a todas no mais sumo grau.
Existem formas ou essências que não são suscetíveis de perfeição, como número, figura, movimento, etc. Existem, por outro lado, formas ou naturezas que são suscetíveis do máximo grau, como o poder e a ciência, e estas são possuídas por Deus infinitamente, sem achar limites que as contenham.
Deus, portanto, ao agir, só pode fazer as Suas obras do modo mais desejável, porque ele tem o poder e a ciência na mais alta gradação.
Em seguida, Leibniz se posiciona contra os que sustentam que não existe bondade nas operações de Deus, contra os que defendem que as regras do bem, da beleza e da verdade são arbitrárias (a posição é contrária aos nominalistas e, particularmente, à teoria da livre criação das verdades eternas formulada por Descartes e defendida pelos inovadores, os cartesianos).
Esta teoria tem como consequência que Deus, após a criação, teria apenas que olhar Sua criatura e achá-la boa, como é dito nas Escrituras. Na opinião de Leibniz, a concepção de que Deus age apenas pela vontade, sem obedecer a regras (voluntarismo), destrói o amor e a glória divinas. Deus agiria, neste caso, como um tirano, e não haveria razão para louvá-Lo, já que, por Sua Vontade, ele poderia ter feito o oposto do que fez ao criar nosso mundo. Parece a Leibniz que, pelo contrário, as verdades eternas da matemática, da lógica e da moral são frutos do entendimento divino, e não de seu puro arbítrio.
Na sequência, Leibniz se posiciona contra os modernos que acreditam que Deus poderia ter feito melhor. As consequências dessa visão parecem-lhe absurdas, pois infringem o princípio “uti minus malum habet rationem boni, ita minus bonum habet rationem mali” (assim como um menor mal tem alguma razão boa, assim um menor bem possui alguma razão má). Deus, se tivesse feito um menor bem do que poderia tê-lo de fato feito, introduziria na sua obra alguma razão má, e isso é contraditório com Sua bondade absoluta, que exclui todo mal.
Assim, Leibniz conclui que o amor a Deus traz como exigência a plena satisfação e a inteira aquiescência a tudo o que Ele faz. Querer o que Ele quer e odiar aquilo que Ele odeia constituem o fundamento do amor que devotamos a Ele (Idem velle et idem nolle vera amiticia est). Mas Leibniz avisa que essa atitude não redunda num quietismo. Quer dizer: não devemos ficar de braços cruzados esperando o futuro, e sim agir conforme a vontade presuntiva de Deus, presumir o maior bem que Deus deseja providenciar no mundo, e cooperar com sua realização.
Leibniz passa em seguida a definir as regras da conduta divina. Para ele, tais regras são simples, mas a simplicidade das vias está em relação direta com a grande riqueza dos efeitos. Deus age como um excelente geômetra ou arquiteto que dispõe dos meios menos complicados para chegar a um maravilhoso resultado na construção final do edifício, ou como um sábio autor que faz plena economia de palavras para dizer o mais importante e o mais essencial no menor volume possível. Logo, podemos depositar inteira confiança na Providência divina porque ela tem como principal objetivo nossa felicidade. Deus cria o melhor dos mundos possíveis e só age em função da obtenção do maior bem.
Conclui-se então que Deus nada faz fora da ordem. Leibniz acrescenta que nem é possível simular acontecimentos que não sejam dispostos na natureza com regularidade. Se nada é feito fora da ordem, tudo procede ordinariamente e conforme uma constância e uniformidade; aquilo, portanto, que do nosso ponto de vista é extraordinário, como os milagres, é-o apenas sob algum plano particular relativo às criaturas, e não sob o ponto de vista absoluto de Deus. De qualquer maneira que Deus tivesse criado o mundo, Ele o teria criado segundo uma ordenação, e não é possível sequer fingir que não há ordem, pois as leis da matemática, da lógica e da moral impõem limites à nossa imaginação, fazendo-a conceber coisas diversas, mas sempre segundo a disposição racional com que foram criadas. Não é possível fingir, por exemplo, que 2 mais 2 não é igual a 4, ou que o bem é mal ou vice-versa.
Os milagres, embora pareçam fugir da ordem geral, procedem de Deus, na verdade, conforme alguma máxima subalterna estabelecida por Ele, e esta máxima não constitui uma exceção às leis gerais que regulam toda série do universo. A série geral não possui exceção, quer dizer, não pode ser violada. Com relação, porém, à ação livre das criaturas, pode-se dizer que, se for boa, Deus concorre com ela, que a quer e que até mesmo a ordena, mas, se a ação for má, pode-se dizer que Deus a permite porque ela concorre no final para a produção de algo mais perfeito. Tudo resulta no final em algo melhor.
2º Parte
Leibniz trata na segunda parte do discurso da noção de substância individual. Ele visa com isso distinguir as ações de Deus e das criaturas. Vamos ver que a filosofia de Leibniz busca sempre uma conciliação entre posições adversas, assim, ele busca mostrar que a posição daqueles que acreditam que Deus faz tudo e a posição daqueles que imaginam que Deus só faz conservar a força que imprimiu nas criaturas estão ambas corretas. Corretas, porém, sob certo aspecto e em certa medida, podendo assim ser conciliadas.
Para isso, cumpre definir precisamente o que é uma substância individual. Uma tese clássica diz que ações e paixões pertencem aos indivíduos (actiones sunt suppositorum) e que quando se atribuem vários predicados a um único sujeito e este não é atribuído a nenhum outro (ele é o receptáculo último dos predicados), diz-se que tal sujeito é a substância individual. Para Leibniz, essa definição é insuficiente, já que é apenas nominal.
Uma noção mais correta teria que contemplar, além dos predicados que estão contidos expressamente no sujeito, também os predicados que estão contidos virtualmente (todo predicado que é possível de se atribuir a ele). Os escolásticos chamam a este de predicado in esse, que pertence ao sujeito por natureza.
O número das predicações que podem aplicar-se a um indivíduo é, naturalmente, infinito. Deus, no entanto, que tudo vê, pode extrair da noção de um indivíduo qualquer tudo que é possível de lhe suceder no tempo. Por exemplo, Ele é capaz de extrair da noção individual de Alexandre Magno, chamada de hacceidade, a visão a priori de que Alexandre venceria Dario e Poro. Assim como a essência geral do triângulo contém todos os predicados que são possíveis de se atribuir ao triângulo (ter a soma de seus dois ângulos internos igual a dois retos, por exemplo), assim a essência de Alexandre, que é individual (hacceitas), já contém do ponto de vista onisciente de Deus todas as predicações que podem ser-lhe atribuídas (tanto as virtuais quanto as factuais, por exemplo: o fato de que ascenderia ao trono da Macedônia com 20 anos, que morreria em 323 a.C., etc.).
Leibniz enfrenta neste ínterim o problema que é conciliar a liberdade humana com a vontade e o pré-conhecimento de Deus. Se estamos submetidos à vontade divina, nosso destino seria uma fatalidade absoluta? Absolutamente. Para demonstrar como uma coisa e outra são compatíveis, Leibniz distingue entre o necessário e o certo. As verdades necessárias são verdades de razão, elas não admitem contradição, é impossível que não produzam o resultado já implícito na sua essência (leis da matemática, da lógica, da moral). As verdades de fato, pelo contrário, são contingentes, elas estão lançadas no tempo como futuros contingentes. Isso significa que o contrário delas não implica contradição (amanhã pode acontecer ou não uma batalha em Salamina). Só que as verdades de fato são certas, porque são decretos livres de Deus e, assim sendo, pode-se dizer que elas são necessárias ex hypothesi, já que Deus decreta sempre em conformidade com a maior perfeição.
A tese não fere a liberdade de arbítrio. Se eu tenho uma bola de cristal e sei previamente que a escolha de Alexandre será X e não Y, isso não fere a liberdade de Alexandre de optar por X ao invés de Y. Mas e se eu objetar a esse argumento que Deus, além de prever, determina a decisão em favor de X antes de ela ocorrer, efetivamente, isso não muda em nada no fato de que a liberdade de Alexandre é justamente a possibilidade de escolher X ou Y. Na verdade, é a liberdade de escolha entre X e Y que é determinada por Deus. Um mundo onde há liberdade de escolha dos seres racionais é mais perfeito do que um mundo onde não há, por isso Deus decide-se por esse mundo, em vista do maior bem. A liberdade é determinada por Deus, assim como o fato de que Alexandre tem dois olhos, dois ouvidos, duas pernas e dois braços fora determinada biologicamente antes do seu nascimento, e que a própria biologia segue leis determinadas da natureza, e que a própria natureza segue leis determinadas em última instância por Deus. Ora, poder-se-ia dizer que muito menor liberdade teria Alexandre se não lhe fosse possível escolher nem entre X ou Y, nem entre A ou B, do que sendo-lhe possível escolher, efetivamente, entre X, Y, A ou B. O fato de Deus saber a priori do resultado da escolha antes de ela acontecer não muda nada, afinal de contas, pois a mesma questão poderia ser colocada independentemente da escolha ser X ou Y. Seria sempre uma questão ex post facto.
Assim, Leibniz pode argumentar que a substância é singular e que possui na sua singularidade um retrato em miniatura do universo (com o conjunto de todas as predicações possíveis virtuais e factuais). A substância, na sua hecceidade (termo cunhado por Duns Scoto), exprime todo o universo à sua maneira, assim sendo, todas as coisas e acontecimentos estão contemplados na sua noção individual. O universo é multiplicado tantas vezes quantas forem as perspectivas individuais e os pontos de vista possíveis lançados sobre ele. A alma, nos diz o filósofo, é como um espelho vivo que reflete o mundo, é um microcosmo que reproduz em menor escala a fisionomia do macrocosmo. É nesse sentido em que se diz que o homem imita Deus: ele exprime todo universo, mas de modo confuso, e guarda em si mesmo o fundamento do que ele é enquanto substância.
3º Parte
Na terceira parte, Leibniz reabilita a tese escolástica das formas substanciais (noção que remonta a Aristóteles) e concilia essa tese com a causa mecânica e com a física matemática fundada pelos modernos. A parte traz os cálculos elaborados por Leibniz para demonstrar a existência de uma força que move os corpos e, consequentemente, as contribuições do próprio Leibniz para o desenvolvimento da física moderna.
Leibniz é da opinião de que as formas substanciais contêm algo de sólido, mas ele é contra a opinião dos inovadores de que estas formas não alteram em nada os fenômenos e não devem ser empregadas para explicar os efeitos particulares. Para Leibniz, as meditações dos teólogos e dos filósofos conhecidos por escolásticos não são desprezíveis. Você pode perfeitamente dedicar-se ao estudo e ao desenvolvimento da nova ciência moderna, determinando geometricamente as causas mecânicas e eficientes dos corpos, sem ter por isso que eliminar tudo o que escreveram os aristotélicos sobre as formas substanciais. Do mesmo modo, você pode explicar os eventos naturais como transmissão e conservação de movimento entre os corpos sem ter por isso que descartar a visão de que Deus planejou a natureza rumo a uma finalidade (causa final), e que o movimento mecânico é imprimido nos corpos justamente para atender a essa finalidade. Uma coisa não exclui a outra e elas são perfeitamente harmonizáveis.
A filosofia de Leibniz harmoniza perfeitamente a ciência antiga e a moderna, por isso, pode ser dita uma metafísica conciliadora.
Leibniz, porém, não é a favor de tudo. Ele refuta a posição defendida pelos cartesianos de que há um movimento mecânico perpétuo. A saber, de que a força se reduz à quantidade de movimento (a velocidade multiplicada pela grandeza do movente é equivalente à força motriz, ou seja, que as forças estão na razão composta das velocidades e dos corpos). Leibniz considera que é a força e não o movimento que corresponde a algo de real nos fenômenos. É a força o único elemento que se conserva constante na natureza. Ele substitui assim a fórmula cartesiana da quantidade de movimento (mv) pela noção de força viva, que é a força que produz um determinado efeito. Isso se traduz na seguinte fórmula: (½ mv²) que diz que a força é igual ao produto da metade da massa pelo quadrado da velocidade.
4º Parte
Por último, Leibniz trata da vontade e do entendimento e formula uma teoria geral do conhecimento.
Os assuntos abordados são: natureza e origem das ideias; os graus de distinção: distinção adequada, distinção intuitiva; as formas de definição: definição nominal, real, só real, real causal e real perfeita essencial. Ele aborda também a questão do inatismo e do realismo, das potências ativas e passivas, da vontade e suas inclinações. Há também nesta última parte um esboço de teodiceia, na explicação que Leibniz dá para a existência do mal, e um esboço da noção leibniziana de mônada. Com relação a isso, a questão da união entre a alma e o corpo é trazida igualmente para discussão.
(Mais detalhes com relação a isso serão acrescentados posteriormente no Blog).

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