Resumo do artigo Sobre o Sentido e a Referência de Gottlob Frege

 

Para Frege, as questões sobre a igualdade não são fáceis de responder, muito desafiando a reflexão quando colocadas. Trata-se de saber se ela é uma relação, uma relação entre objetos ou entre nomes e símbolos referentes a objetos. Frege, na Conceitografia, havia se decidido a favor da última alternativa, ao fazer notar que:

1) a proposição analítica a = a

2) e a proposição a = b (que nem sempre é analítica, podendo ampliar nossos conhecimentos, como diz Kant)

3) possuem valores cognitivos diferentes.

Assim, se a identidade (=) for uma relação estabelecida entre os nomes a e b, e se a = b for verdadeiro, então parece que não é possível diferenciar as duas proposições acima. Mas Frege, ao concluir o artigo, irá encontrar uma diferença no valor cognitivo de ambas. Ele explica que essa diferença se dá porque o sentido (pensamento) de uma frase deve ser levado em conta tanto quanto a sua referência. Porque o sentido de b pode ser diferente do de a, embora os dois possuam a mesma referência e o mesmo valor de verdade.

Parece que, nas proposições acima, é admitido que os nomes a e b têm a mesma referência, e esse fato é que constitui sua relação.

Contudo, só é possível falar de relação entre eles sob a condição de que eles nomeiem ou designem algo, quer dizer, que se refiram a uma única coisa. Assim, a relação seria uma associação dos dois símbolos, a e b, mantida através da referência à mesma coisa por eles designada.

O problema que surge é que não é necessário, diz Frege, que os nomes a e b tenham os mesmos valores cognitivos, uma vez que a associação é arbitrária.

Formulado nesses termos, o problema proposto é conhecido como “Enigma de Frege”. Ele consiste em entender como os dois enunciados, que pareciam, de início, constituir uma mesma proposição, podem no entanto ser diferentes no que concerne aos valores cognitivos. Ou seja, as frases, nesse caso, não diriam mais respeito à mesma coisa, introduzindo-se uma diferença no modo de apresentação daquilo que foi designado. Frege pretende resolver isso a partir de sua teoria sobre a distinção entre sentido e referência.

A respeito dos enunciados de identidade, Frege defendia na sua Conceitografia uma concepção metalinguística. Um enunciado de identidade, por exemplo, “João é Joca”, teria como pressuposto que os dois nomes significam a mesma coisa. O enunciado, porém, estaria a falar dos nomes, João = Joca, e não sobre João e Joca. A diferença aqui é que os nomes estão sendo somente mencionados, do mesmo modo que a frase: “Casa tem quatro letras” não diz nada sobre uma casa real, e sim sobre a própria palavra casa.

Os nomes, portanto, são suscetíveis de serem usados ambiguamente. Por um lado, em enunciados de identidade, em que entra em questão o próprio nome. Por outro, em enunciados predicativos singulares, em que se diz algo sobre o sujeito nomeado, por exemplo: a casa é bonita.

Os enunciados de identidade – como Frege assinalou – são arbitrários, quer dizer, contingentes: é perfeitamente possível que João e Joca não designem a mesma coisa. Mas, como se trata de enunciados de identidade, parece que surge um problema: como uma coisa que é idêntica a si mesma, ao ser contingente, poderia ser diferente de si? Mas a concepção metalinguística não implica nisso, na medida em que os enunciados de identidade não dizem nada sobre a coisa (a=a). Parece ser preciso então que tais enunciados sejam necessários, e não contingentes. Mas aí é que reside o problema, pois, para estar de acordo com a concepção metalinguística, os enunciados de identidade parecem não ser de identidade. Frege abandonou essa concepção ao depara-se com tal dificuldade.

Voltando à questão inicial. Parece haver mais de um modo de se dizer a mesma coisa. Aquilo que é enunciado na expressão "João é Joca", aparentemente, é idêntico ao que é enunciado na expressão "João é João". Ou seja, a=a e a=b. Só que a primeira frase é analítica, ao passo que a outra, em alguns casos, pode requerer a experiência para ser conhecida, sendo sintética. Mas se há identidade entre as frases, como pode ocorrer de uma ser analítica, e a outra não?

Para começar a tratar do enigma, Frege diz então que parece ser evidente que a associação feita pelo símbolo (nome próprio, caractere, expressão linguística) passa pelo que se pode chamar de “sentido do símbolo” antes de chegar à coisa designada, que se pode chamar de “referência do símbolo”. Sentido e referência são os componentes de todo conteúdo de uma expressão linguística. O “sentido” contém o modo de apresentação. Tomemos como exemplo um triângulo de lados a, b e c, ligado pelos pontos de intersecção a-b e b-c. O ponto, nas duas intersecções, é o mesmo, mas o seu sentido é diferente, ou seja, sob um sentido, ele é a-b, sob outro, ele é b-c. De igual modo, as expressões “estrela da manhã” e “estrela da tarde” possuem a mesma referência, na medida em que a estrela é a mesma, só que o sentido é diferente.

Assim, um nome próprio - Aristóteles - tem uma única referência, mas permite inúmeras variações de sentido: Estagirita, aluno de Platão, preceptor de Alexandre, etc. Existe uma conexão regular entre nome próprio, sentido e referência. Ela determina que haja correspondência entre eles: uma correspondência entre o nome e o sentido, e entre nome-sentido em relação à referência. Mas o comportamento regular entre eles admite exceções. A linguagem comum, muitas das vezes, não satisfaz a exigência dessa correspondência entre expressão e sentido, visto que as palavras são ambíguas.

Além disso, há expressões, tais como “o corpo celeste mais afastado da Terra” e “a série menos convergente”, que têm um sentido determinado, mas cuja referência pode não existir.

Acontece, na fala cotidiana, de ser a referência da fala aquilo sobre o que falamos. Mas, no caso do discurso indireto, falamos sobre palavras pronunciadas por terceiros. Estas aparecem então como símbolos de símbolos, sendo colocadas entre aspas e não tendo, por conseguinte, a sua referência usual. Porém, mesmo nesse caso, as palavras continuam a comportar o seu sentido usual, embora a referência não. O que entra em questão aqui, para Frege, é o seguinte: “Distinguimos, pois, a referência usual de uma palavra da sua referência indireta e o seu sentido usual do seu sentido indireto. A referência indireta de uma palavra é assim o seu sentido usual”.

De onde surge uma diferença: os nomes não precisam de complemento (de serem saturados na realidade), ao passo que expressões funcionais (o pai de ...; ... é branco, etc) precisam de um complemento, adquirido por argumentos, por exemplo: Sócrates é branco. Nesse caso, as expressões podem passar a designar algo verdadeiro ou falso. Frege refere-se às funções concernentes a este tipo de expressão funcional 'apofântico' sob o título de conceitos. Funções, para ele, podem em alguns casos, portanto, ser o mesmo que conceitos.

Cabe observar que, na concepção de Frege, não são apenas os nomes próprios que possuem referência. A regra vale também para frases indicativas completas ou expressões linguísticas. Frege chama de pensamentos o sentido de frases completas, mas não designando os atos psicológicos de pensar. Os pensamentos podem ser tomados segundo um valor de verdade, uma vez que constituem entidades abstratas e objetivas, não "subjetivas". O que Frege chama de pensamento, a tradição chama mais usualmente de proposição.

Há três argumentos que falam a favor da objetividade do pensamento:

1) Argumento da unicidade: o conteúdo de uma frase é apreendido por muitas pessoas como sendo único, por exemplo: Sócrates é sábio. A unicidade desse conteúdo não é comprometida pelo fato de que ele é apreendido por várias pessoas.

2) Argumento da comunicação: o pensamento pode ser comunicado, o que pressupõe que o conteúdo seja conhecido pelos interlocutores.

3) Argumento da necessidade: 2 + 2 é quatro é verdadeiro em todos os mundos possíveis.

Por outro lado, deve ser diferenciada do sentido e da referência a representação subjetiva, que está associada ao nome. A representação subjetiva de um objeto é aquela que resulta das impressões sensíveis obtidas dele por meio da experiência, e está, por consequência, toda permeada de sentimentos. Surge, então, uma multiplicidade de representações associadas a um único sentido. O nome próprio recebe sua referência do próprio objeto que ele designa. A representação desse objeto, porém, não comporta objetividade, ela é totalmente subjetiva. Entre o nome e a referência, reside o sentido, que, decerto, não é subjetivo que nem a representação, mas tampouco é o próprio objeto, que é percebido empiricamente.

Depois de isso ficar estabelecido, será possível reconhecer que palavras, expressões e frases completas admitem três níveis de diferenciação:

1) Diferença no que concerne às representações. Pode haver uma diferença irreconhecível do ponto de vista de outra pessoa, devido à ligação incerta entre palavras e representação. É muito comum na tradução, na retórica, na poesia, em que o leitor pode não dar-se conta do tom ou da atmosfera afetiva que o autor conferiu à obra, cabendo ao leitor forjá-los por conta própria. Isso supõe, não obstante, uma afinidade entre as representações humanas, embora nunca seja exata.

2) Diferença no sentido, mas não na referência.

3) Diferença no sentido e também na referência.

A teoria da referência das frases indicativas, de Frege, está baseada no princípio da composicionalidade, que diz que há uma composicionalidade:

1) do sentido, ou seja, em uma expressão complexa o sentido é FORMADO pelo sentido de suas partes.

2) da referência, que diz que a referência de uma expressão complexa é DETERMINADA pela referência das suas partes.

Ela é determinada, enfim, "de tal forma que a substituição de uma parte de uma expressão complexa por outra que possua a mesma referência (co-referencial)" não implica em nenhuma alteração do todo da referência, "mesmo que o sentido da parte substituta seja diferente do sentido da parte substituída". "A referência de uma frase indicativa permanece a mesma quando partes da frase são substituídas por expressões co-referenciais". O que permanece o mesmo é o valor de verdade, ao que parece. Assim, o mais certo é que “a identidade de sentido implica identidade de referência".

Mas a referência pode ser a mesma sem que o sentido o seja. O sentido de 3+1 é diferente do de 2+2, mas a sua referência é a mesma.

Agora cabe perguntar sobre o sentido e a referência que uma frase declarativa completa comporta. Fica decidido já que essa frase contém um pensamento (conteúdo objetivo suscetível de ser compartilhado entre pessoas, como uma propriedade comum). Frege quer saber então se tal pensamento é um sentido ou uma referência.

Um teste: uma frase tem uma referência. Então, caso for substituído nela uma palavra por outra, que tenha a mesma referência, mas um sentido diferente, isso não pode comprometer em nada a referência que a frase completa tem. Admitamos, porém, que o pensamento se modifica em determinada situação, por exemplo:

1) A estrela da manhã é um corpo iluminado pelo sol.

2) A estrela da tarde é um corpo iluminado pelo sol.

Uma pessoa que ignora que a estrela, nas duas frases, é a mesma, poderia tomar um desses pensamentos por verdadeiro e o outro por falso. Nesse caso, o pensamento é o sentido da frase, e não a sua referência. Aliás, existem várias frases que possuem sentido, mas sem referência alguma, como é possível notar em “Ulisses desembarcou em Ítaca dormindo profundamente” – frase completa cuja referência é bastante duvidosa. Mas o pensamento dessa frase é o mesmo, tenha ela uma referência ou não. Na verdade, talvez não seja preciso se preocupar com a referência, como o próprio Frege sugere: “Ora, se queremos parar no pensamento, este avanço até a referência do nome seria desnecessário; poderíamos ficar satisfeitos com o sentido”.

Contudo, num contexto científico, é manifesto que o que mais interessa é o valor de verdade da frase. Assim, o valor de verdade ganha o estatuto de referência da frase completa.

A relação do pensamento com o verdadeiro deve ser encarada como a mesma que há entre sentido e referência. No entanto, pode haver a inclinação de considerar essa relação do ponto de vista do sujeito e do predicado, quando, ao invés de dizer “5 é um número primo”, dizemos que “o pensamento de que o número 5 é primo é verdadeiro”. Notar que, neste último caso, o dito “5 é um número primo” é reduzido a conteúdo do pensamento, a este sendo atribuído o valor de verdade, na medida em que é o portador do conteúdo.

Para Frege, no entanto, a relação que o pensamento mantém com o verdadeiro não deve ser comparada com a da predicação lógica, tendo em vista que a junção entre sujeito e predicado fica só no âmbito do pensamento, ao passo que a relação entre pensamento e verdade passa do sentido para a referência. No sentido lógico, nós “nos movimentamos no mesmo nível, mas não passamos de um nível para o próximo”, mas um “valor de verdade não pode ser parte de um pensamento”, ele solicita passar para o nível da referência. Julgar pode ser entendido assim: passar de um pensamento para a sua referência ou valor de verdade.

Se for verdadeiro que a referência de uma frase constitui o seu valor de verdade, então é certo que este valor deve se manter inalterado quando uma das partes da frase que o contém é substituída por outra com a mesma referência, mas com um novo sentido. Frege lembra aqui a proposição de Leibniz que diz: “Eadem sunt, quae sibi, mutuo substitui possunt, salva veritate”. "Two terms are the same (eadem) if one can be substituted for the other without altering the truth of any statement (salva veritate)." “Dois termos são o mesmo, se qualquer deles pode ser substituído pelo outro sem modificar a verdade de nenhuma das sentenças”.

Frege descobre assim que o valor de verdade de uma frase permanece intacto quando ela tem uma expressão substituída por outra com a mesma referência. O mesmo deve ocorrer quando uma parte inteira da frase é trocada, com a condição de que tenha idêntica referência. Mas há exceções quando a parte está no discurso direto ou indireto, pois, neste último caso (indireto), a expressão não tem uma referência usual.

Frege propõe então considerar o caso das orações subordinadas, que são complementos de uma frase, exercendo a função de substitutas de partes da frase e podendo ser divididas em substantivas, adjetivas e adverbiais. Convém examinar para elas se é igualmente válido que sua referência seja um valor de verdade. Isso introduz a questão sobre se a referência da oração subordinada, ao ser análoga a um substantivo, adjetivo ou advérbio, não é portadora de um valor de verdade, sendo, antes, somente a parte de um pensamento.

As orações subordinadas introduzidas pela conjunção “que” incluem o discurso indireto, que possui referência indireta, mas corresponde ao sentido usual. Elas acontecem após verbos como “dizer que”, “ouvir que”, “acreditar que”, “estar convencido que”, “concluir que”, etc. A referência aqui será um pensamento, não um valor de verdade. Isso recebe confirmação do fato de que é “indiferente para a verdade do todo se esse pensamento é verdadeiro ou falso”.

Frege apresenta as frases: “Copérnico acreditou que as órbitas dos planetas eram circulares” e “Copérnico acreditou que o movimento aparente do Sol era causado pelo movimento real da Terra”. Ele observa que, entre as duas frases, a oração subordinada de uma pode ser trocada pela da outra sem que isso redunde em prejuízo para a verdade de ambas. Resta sublinhar que as duas orações, principal e subordinada, são portadoras de um único pensamento, que é seu sentido, e a verdade que emerge do todo não implica na verdade ou na falsidade da oração subordinada.

O mesmo caso se aplica sem modificações essenciais em relação às expressões “parece-me que”, “acredito que”, etc. que denotam uma crença, uma convicção ou impressão, sendo motivo para um sentimento. O sentimento, aliás, é produzido mesmo que a crença seja uma ilusão. Frege apresenta a frase: “Colombo inferiu a partir da forma esférica da Terra que ele poderia atingir a Índia viajando para o oeste” a fim de mostrar que Colombo fez uma inferência a partir de uma crença. No presente caso, assim como no passado, mostra-se irrelevante para a verdade da sentença que a crença de Colombo seja verdadeira ou não. A referência, de todo modo, é indireta.

Orações adverbiais finais: introduzidas por “a fim de que”, “para que”, comportam-se do mesmo modo, tendo também referência indireta (num pensamento).

Orações que introduzem “pediu que”, “ordenou que”, “proibiu que”, que trazem a forma do imperativo, não possuem referência, mas apenas sentido.

Outras que devem ser tomadas como tendo referência indireta são as orações que complementam locuções, introduzidas por “duvidar que”, “saber que”.

A referência indireta, considerada nesses casos, consiste não num valor de verdade, mas num pensamento, ordem, pedido ou numa interrogação.

Existem casos de oração subordinada cuja expressão tem referência usual, mas sem que o pensamento figure como sentido, e sem que o valor de verdade figure como referência. Basta notar o exemplo:

Quem descobriu a forma elíptica da órbita dos planetas morreu na miséria”.

O sujeito gramatical “quem” não tem um sentido independente, na medida em que está ligado com “morreu na miséria”. Assim, o seu sentido não constitui um pensamento completo, ele não pode ser exprimido na oração principal, ao que se junta o fato de que sua referência não é um valor de verdade, e sim Kepler.

Frege aponta uma imperfeição nas linguagens em geral: expressões de tal tipo são possíveis que “parecem destinadas a designar um objeto”, mas que, em certos casos, não cumprem tal função, na medida em que o fim para o qual estão destinadas é dependente da verdade de outra frase. Assim, o “quem descobriu a forma elíptica da órbita dos planetas”, aludido acima, depende de que seja verdadeira a frase “existe alguém que descobriu a forma elíptica da órbita dos planetas”.

Existem casos em que:

1) a oração subordinada detém um pensamento completo que é seu sentido.

2) a oração subordinada é um valor de verdade.

Frege exemplifica com a frase:

O próprio Napoleão, que reconheceu o perigo para o seu flanco direito, conduziu os seus soldados ao encontro da posição inimiga”

Que ele desmembra da seguinte maneira, mostrando que são dois pensamentos exprimidos:

1. Napoleão reconheceu o perigo para o seu flanco direito;

2. O próprio Napoleão conduziu os seus soldados ao encontro da posição inimiga.

É possível então substituir uma frase nela por outra oração portadora do mesmo valor de verdade sem que isso redunde em prejuízo para a verdade do todo.

Agora, há casos em que uma frase exprime mais do que exprimiria por si mesma quando está ligada a outra. Por exemplo:

1. “Bebel tem a ilusão de que o desejo de vingança da França pode ser aplacado pela devolução da Alsácia-Lorena”.

Os dois pensamentos que são exprimidos nesta frase são:

1.a Bebel acredita que o desejo de vingança da França pode ser aplacado pela devolução da Alsácia-Lorena (a oração subordinada têm referências indiretas: a referência é um pensamento).

1.b O desejo de vingança da França não pode ser aplacado pela devolução da Alsácia-Lorena (a oração subordinada têm referências usuais: a referência é um valor de verdade).

A oração subordinada acima pode ser considerada dupla, uma vez que sua referência, no caso 1.a, é um pensamento, ao passo que no caso 1.b, sua referência é um valor de verdade.

Uma oração subordinada causal exprime vários pensamentos que não são expressos por cada oração tomada isoladamente. Por exemplo:

Porque o gelo é mais leve do que a água, ele boia na água”, que , sendo desmembrada, fica:

1. o gelo é mais leve do que a água;

2. se algo é mais leve do que a água, ele boia na água;

3. o gelo boia na água.

Temos, então, as seguintes ocorrências:

O pensamento 3 não está necessariamente contido em 1 e 2.

A frase completa não adquire o sentido acima pela junção de 1 e 3, nem pela junção de 2 e 3 (minha suposição: por causa do porquê que introduz uma pretensão explicatória).

E na oração subordinada "porque o gelo é mais leve do que a água" estão expressos 1 e parte de 2.

Frege salienta: “Disso decorre que não podemos simplesmente substituir a nossa oração subordinada por outra com o mesmo valor de verdade; pois então o nosso segundo pensamento também se modificaria, e com isso também o seu valor de verdade poderia ser atingido”.

São apresentados por ele dois motivos que impedem essa substituição, para que ela não comprometa a verdade do conjunto da frase complexa. Os dois motivos são:

1. que a oração subordinada não se refere a um valor de verdade e só exprime apenas uma parte do pensamento (1.a em relação à referência indireta das expressões, por um lado, e, por outro, 1.b se uma parte da frase indica só indeterminadamente, em vez de ser um nome próprio);

2. que a oração subordinada se refere a um valor de verdade, mas não se limita a tanto, à medida que seu sentido compreende, além de um pensamento, ainda uma parte de outro pensamento (é o caso duplo descrito acima sobre a ilusão de Bebel).

Mas a opinião de Frege de que o valor da verdade constitui a referência da frase, e seu sentido um pensamento, ainda se sustenta, mesmo com a emergência de ocorrências em que uma oração subordinada não é passível de substituição por outra com o mesmo valor de verdade.

SÍNTESE:

A maioria das frases subordinadas não tem como sentido um pensamento, mas só uma parte disso e, consequentemente, não tem como referência um valor de verdade. Isso é assim ou porque na oração subordinada as palavras têm a sua referência indireta, de tal modo que a referência, não o sentido da oração subordinada, é um pensamento, ou porque a oração subordinada é incompleta pelo fato de que uma das suas partes componentes que serve de indicador é indeterminada, de tal modo que ela exprime um pensamento só quando associada à oração principal. Existem também casos nos quais o sentido da oração subordinada é um pensamento completo, e assim ela pode ser substituída por outra com o mesmo valor de verdade sem prejuízo para a verdade do todo, pelo menos enquanto não existirem dificuldades gramaticais.

Atenção: quando o sentido da oração subordinada é um pensamento completo, ela pode ser substituída por outra com o mesmo valor de verdade.

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