O Cordel Fantasma
Lampião desceu a serra,
Deu um baile em Cajazeira
Botou as moças donzelas
Prá cantá mulé rendeira
Xaxado Popular
O sertão, menino, já levou bastante chumbo e estilhaço na cacunda. Mesmo dei eu, o próprio, testemunho: se não tivesse esta carapuça de rocha espessa, este tapete estendido de pedras brutas, já teria há tempos se arrebentado. O que te conto é história passada de antiga, a quando se foi que impunha o cangaço a sua lei violenta, selvagem, pra essas léguas de largo, em arrebandas afora. Dias daqueles quandoque pra se viver do tiquinho que só de do básico natural, sujeito precisava mesmo era de um quinhão deveras precioso de sorte, de cautela, de proteção de reza. Brabeza de macho se curava a sangue frio, bala propositada, gratuita, de desta a uma que desgracêia, sô, na pura banalidade. O que os matutos prezavam de bem fazer então era vadiar pelas veredas e trilhas do sertão afora, ora na folga de extorquir e saquear os pertences alheios, as demais propriedades, povoados, palhoças. Ah que baita estrago que fez no mundo a arruaça daqueles doidos!
Oxênte que era a rapina assim, no descaramento! Um diabo de ruindade que alastrou, que pegou que nem maleita das grave, contagiosa! E de repente o cabra, sem mais sozinho, de pura opinião, escapole pra guerra tresloucado, vai se meter com bandoleiro jagunço, na espera de engrandecer ou o quê, desafiar a autoridade, complicar a vida? O cangaço tinha lá os seus feitiços, menino, era o mito que a boca inventava pra mor de entreter a imaginação, era a lenda contada, cantada fabulosa, folclórica. Muito moleque vi eu com o brilho nos olhos, rendido de encantos pelo Lampião.
A cabeça tem razões consigo, e imagina o normal de herói e vilão misturado, estúrdio, sem conflitar a ideia. Tempo contribui para tanto, que o personagem cangaceiro é velho na história do Nordeste, remonta da época antiga das sesmarias, tem origem se diz nos bandos remanescentes da milícia paraibana, em jagunço pau-mandado de coronel, em os bugres que na rebelia com o sistema de latifúndio, de colônia, mas sobre o tudo, é feito resultado da seca, da fome e da miséria sertaneja – nossa desgraça centenária. Vosmecê tem a experiência da coisa: o se prolonga a aridez do mundo e é sinal de pobreza certa, pobreza demasiada, periódica, triste de se ver. Vixe que nas estradas só espiando o estrupício de gente faminta, esqueleto de pessoa humana, que o osso e a adiposidade arruinada da carne. Região é ponto e ponto final no mapa: sem remédio senão debandar, vosmecê sabe e o próprio sol aconselha, sojigando feroz cada bicho vivo alevantado da terra. Raiva de jagunço significa: é a deserção sofrida destes os esquecidos do Senhor, a massa proscrita de dos retirantes, de dos malempregados, ruminando vivos o seu gosto de sede na língua, sem ter para onde, vez senão que a sua jornada incerta para o Sul. É de situação como esta que medra a bandidagem – alternativa que sobra pra mão-de-obra largada às tantas assim, à toa, sem rumo ociosa, no árido deserto.
Desespero faz com a gente que nem espelho partido: de repente ele devolve ao mundo as mil faces secretas, escondidas, a mesmíssima verdade multiplicada. Sujeito se desconhece na dor: ara que animal homem tem esperança, coisa que não se perde por aí de graça, de graça, feito moeda na algibeira de tonto. O que é o sentimento então de quem vê seca de perto? De quem tem plantação perdida, família desfeita? De quem cheira a carcaça de criação morta e ouve no céu o tatalar de asa de urubu? A razão arrefece, por fim, e a opção é se bandear caatinga adentro, saltear nas estradas, mendigar, roubar. A família, desconjuntada, já não é mais o esteio. Sangue, quando ferve desesperançado, seca que nem o sertão impiedoso, seca o coração da gente, menino. Não justifica, mas o homem sabe que a natureza não pede desculpa depois de nos trucidar. O homem se faz outro assim feito uma coisa a mais na delinquência da terra: perigoso, inconsequente, torna-se mais um dos decretos infernais da vida.
Caboclo assenta na profissão de cangaceiro pra ter o que de comer e, súbito, deixa a fera desembestar, pouco prazo e já é bandido graduado, cabeça-a-prêmio por assalto, sequestro de fazendeiro, homicídio e outros desmandos. O sucesso deu de em Juazinda aportar um dia a tropa cambada dos tais, dos de fama mais suja, que exato justo em data de celebração. O arraial era que só a alegria linda efusiva da festa: domingo de santo padroeiro, capelinha enfeitada pra romaria, as barraquinhas armadas na rua principal. Os cabras chegaram logo cedinho, e era um danado dum comboio numeroso, armas à vista, carranca nada amistosa, desaforada. O resto, só artista saltimbanco mesmo pra arremedar a cara de susto do pessoal do lugarejo. Vosmecê ponha tento: a aparição funesta na horinha sagrada do desjejum, com café ainda fumegando na fornalha.
Diantava de não de tomar providência na surpresa geral que foi; passado-da-hora assim sábio é atinar com os nervos: coitado do povo teve intuição do perigo, e se mexeu com o lábio foi só no palavreado formal, constrangido, de frase que trepida receosa de desagradar. O querer se apressar pra longe, dar sumiço de si, era coisa arriscada de morte: restava senão de conter as pernas espavoridas, evitar ação precipitada, esperar o menos pior. Os mandriões tocaram direto pra feira. Pistoleiros, vinham que vinham cansados de léguas no trote compassado das bestas, careciam de comida, água, provisão pra viagem, necessidades de gente itinerante. Comércio dos tais com freguês jagunço não vinga, moço, lucro mesmo é só a sobrevivência. Olha que o bando fez logo a coleta da mercadoria variada: queijo, rapadura, farinha, iguaria a cambuquira, quibebe, quiçamã, carne de sol, linguiça, chouriço, a umbuzada e os quitutes de milho, pé-de-moleque, doce de leite, cuscuz, tapioca, óleo de catulé. Enchero o pandú, menino, de fartar-se a si do bão, assim caprichado. Ademais, curto prazo e a invição dos sujeitos dera cabo de tudo, no todo do prejuízo ora deixando os ambulantes ciganos, os camelôs de feira. Desde a sua flagelância exerceram os pândegos, prestimosos: uns, que insolentes, de bulir cuidaram na tenda de quinquilharias, com os bibelôs engraçando, com os artefatos: cristinhos e santos de barro, cerâmica, cruzes, amuletos; outros arribaram pra bodega beber a sua aguardente.
Autoridade da vila julgou mais sensato exemplar de humilde, manter prudente o silêncio obsequioso, obedecer a vontade dos bandidos sem pôr objeções. Assim resolvido, resignou de entregar o valor de comida, vestuário, animal de carga, munição, capital moeda economizada – garantia pra ocasião. A condição que era veio por enunciado do pároco, homem moço competente, qual exortou aos temíveis cangaceiros que, por gentileza, dessem licença imediata da cidade, afinal, já tinham próprio de seu com o que prosseguir, nômades, caminho em diante pelo mundo. Situação arrochada das tais que indivíduo presta conta de si, topetêia a atitude que tem: onde foi que desengatou um tanto de atrevido o padre, sujeito no comum pacato, de juízo. O receio veio de pronto da reação: destratados daquele jeito, quase que expulsos, aqueles homens perigosos, matadores. A audácia, porém, repercutiu sem efeito, não produziu comoção alguma na quadrilha ali apeada no meio da rua – anos a fio na baderna da guerra, fartos de sertão no lombo, rudes, ríspidos, os brutos já haviam esquecido há muito o de ser de educação.
Ao chefão criminoso sucedeu de assentir com a exigência dada: refletiu de si que, bolso cheio, barriga satisfeita, não havia mais mesmo que fazer no arraial. Reparo dera, entretanto, na formosura de festa que ali prometia: os adereços de cor nas casinhas e sobrados, a vilazinha trajada domingueira, paramentada de alegre, boniteza feito de noiva no altar. O ocorreu foi que o cabra quedou embasbacado, o de repente nem cuidou de montar na cavalgadura nem nada, deu, decerto, com as ideias avessas: pelo que disse aos seus de vontade repentina de ficar, apreciar, um dia que fosse, os folguedos e danças, os violeiros cantadores, o divertido que há, de súbita inspiração. Alfredo, que era a graça de seu vigário, cogitou de dissuadi-lo na mesma da hora, astuto, cancelando os preparativos do evento. Não tinha mais mesmo o que comemorar, pensou, com a indesejável presença daqueles ladrões estraga-prazeres, o que valia melhor zelar pela segurança de mulher, criança, ancião, o tanto de gente de bem residente em Juazinda.
O resolvido então, infeliz, surtiu foi de dar zanga real nos malfeitores, quais que trataram de sacar de toda parafernália bélica que ali dispunham: revólver, carabina, facão e lâmina peixeira, mais a careta de quem não gostou nada do que ouviu. O chefe deles lá se teve de caluniado, bravejou que havia por que havia de ter festança, quermesse e até baile; ora que o mando da decisão se constituía assim: dedo no gatilho para matar, seu argumento definitivo. Situação que ia, piorava: era das tais de beata benzer enganosa, de mão esquerda, o seu cristo-santinho! Seu vigário não cuidou de recorrer a tanto, o arrepio percorreu-lhe de fora a fora a espinha, mas soube que se conteve: sua voz tensa, embargada, custou de sair, assoprada, cuspida, na afobação:
– Vossemecê nos perdoe a aporrinhação, senhor, por favor, que carecemos de recursos para realizar a dita, ainda mais convosco, convidados que sois de honra. Não arrepare não, jamais que com arbítrio próprio procedemos de cancelar, de celebrar festa pro nosso padrinho do céu, protetor de gente oprimida, no seu dia tão benfazejo, a nós abençoado. Não é de feitio nosso cometer heresia assim pagã – Deus que nos livre disso. Os festeiros estão aí, de aguardo na capelinha modesta de pobre, todavia decorada bonita pra novena. Mas o que sucede do fato é que ficamos desprovidos de fundo pra custear com as despesas, vossemecê imagine, coisa desagradável, de vexar de verdade, principal minha pessoa, representante que sou de nossa santa Igreja Católica.
Discussão ia que ia mais longe no gogó, povo pressentiu tranquilizado, que o esperto Alfredo dotava de psicologia, mostrava-se raposo velho no negociar. Mas a história que se conta afamada por aí não é exatamente esta, menino. Vosmecê se alerte que no meio dos cangaceiros havia unzinho lá de intenção pior de patifaria. O cheiro de fêmea mulher nas redondezas, ali perto dele, acabou por atiçar-lhe imenso a safadeza. Ora, pronto, que o sujeito farejou ensandecido o rocio que vinha vindo, perfumoso, no vento. Era, para ele, odor de carne lisa, apetitosa. Daí qu’inhantes mesmo do prestes acordo que estava por se estabelecer na discórdia, atroou no outro canto da vila o tiroteio: estava feito.
O disgramado respondia por Geôrgiano de nome, e era dos pestes, vil salafrário, um traquinas dado à bandidagem de jagunço apenas por cumprir impune a sua covardia, por de quem ele abusava mesmo era em cima dos velhos e dos mais fracos. Ao de chegar de vez na cidade, Geôrgiano arrastou consigo mais dois companheiros de bando pro botequim: vinham eles com uma danada duma sede viril, aumentada de viagem, mesmo que não arredaram pé do balcão até esgotar a sua primeira garrafa de cachaça amarela, alambicada, diluída em casco de cascavel. O figura bebia, cêbesta, e, cheio de panca, danava o ato de vantajar ficção de acontecido, blasonava o quê de aventuras, de valentias passadas, desfiava lorota, o fajuto, besteirava, de brinco pueril com a língua, convertia, desde, nos seus possíveis atantão de ser. O boato crescia de sua boca, tomava reputação, a qual é que os demais jagunços fiavam na falácia dita, creditavam ao mentiroso a fama de matador perverso, consumado, ele que, no fácil-comum dos dizeres, já tombou tumbou centenas de almas, tinha enchido de próprio punho um cemitério.
O coisa-ruim era que só a doideira: a aguardência na boca e o desatino no cérebro. Ora que Geôrgiano se assuntou com os outros dois se haviam reparado, na vila, o eflúvio gostoso de flor – presença certa que certa de mulher. Do cabra a intenção se via pelo olhar lascivo luxurioso, ali dirigido, a voz que usava para reclamar de forte precisão, a urgência braba, animal, “que esta sina de ir-se-com-Deus trechar estrada, meses a rodo sem ver mulher, deixa a gente na necessidade tremenda”, e isto – contava – saía-lhe não da cabeça, obsessão que nada remedeia a não ser um corpinho gracioso de fêmea, nuazinha na cama, pra acarinhar. Ara, sô, que se não aguentava mais de vontade, confessava, vixe que sozinho no mato de noite, às vezes, caçava o jeito de se satisfazer. Mas o enquanto que dava relato de sua situação privada, o falso cangaceiro fazia registro sutil de o seu querer, oportuno, sugestionava a ação escabrosa que tinha matutado, em segredo, na ideia. Os companheiros de gole, já ébrios desajuizados, consentiram de prestar ajuda na coisa: Geôrgiano haveria, em indo, a casa invadir de família adentro, armado, periculoso, e ali mesmo possuir moça virgem inocente, qual o desejo manda. Com o plano em mente estabelecido, determinaram de ir arrematá-lo, os três, de porta em porta nas imediações.
O menino não há de crer, porém, que a gente roceira de lá primava, por Deus, de precaução, de velhaca e suspeitosa de tudo, ao ponto de adivinhar a imundície capaz de suceder. De jeito que eles, os pais de rapariga donzela, bonita, cuidaram de as filhas ocultar em debaixo das camas, dos armários, moço, mudados, de caseira improvisação, em sutis esconderijos: quintais, grotas, porões, os mais remotos possíveis, mas no lar ali mesmo, à vista dos olhos, vigiadas. Foi a prestes prevenção mal a notícia de bandoleiro correu célere, avisada de espanto em espanto na cidade. O fato se deve que Geôrgiano teve a decepção tamanha, inesperada, de topar senão com casal de pessoa adulta, amadurecida, de detrás da soleira da porta, a primeira e a segunda que arrombou. O assim se repetiu em seguida, tal que o bandido, enfezado, pirraçou de cometer a dita criminosa a qualquer-um dos jeitos, em esposa dona doméstica mesmo, datada de mais velha experiente, mas a qual que servisse pro seu apetite insano, apressado. Decisão tomada, ocorreu de lhe dar agrado na vista uma senhorazinha de lá, bem-apessoada, que estava na companhia do filho, moço novo adolescente. O peste a mulher então encantoou nos fundos do tabique, desde o passo de tempo que os comparsas, acorridos, sovaram a pancada no rapazinho, sem modo de resistir.
Era o escândalo, o despeito, ôxe, de doer nos ouvidos da vizinhança, vosmecê imagine. Eu podia que queria estar lá na maldita da hora: humor da gente sabe se irrita indignado, inda mais que o caso deveria ainda de piorar. A mulher teve, súplice chorosa, de implorar que não machucassem o seu garoto, que ela, de pronto, intercedia de se entregar sem protesto, sem lamúria, calada renunciada da vida. O brutamontes estuprador não se fez, modo assim, de rogado, que sem-vergonhou de agarrar a vítima indefesa, foi fungando excitado e porco no cangote dela, babando de satisfeito, jubiloso. Em no momento de antes, porém, do crápula arriar as calças, folgar de indecência ali na frente dos outros, a menina filha da mulher deu presença repentina no recinto, desesperou de surgir aparecer assim, sem mais nem menos, de onde que estava escondida. Judiação, sinhô. A pobrezinha que podia fazer senão chorar e gritar? Veio de bem-intencionada, verdade, mas na pura aflição, admitiu de si com o que lhe ia ao pensamento impotente: o de talvez poder de socorrer sua mãe. A pequena mal sabia, coitadinha, que a mulher se tinha de disposta a doar o corpo, e de bom grado até a alma, para protegê-la.
Geôrgiano pôs reparo na rapariga, a vista dirigida até seu corpinho moreno mirrado, um diminuto de gente, mas que aprazia de formosa delicada, os olhos verdinhos que nem vidraça de catedral. Surtou então de proferir nova sentença, cedendo a mãe em troca da filha aos dois parceiros: “Opa que desta quiserem se esbaldar, meus chapas, que eu procedo de ficar é com a virgem cabritinha aqui, deliciosa que só!” Mas homem que é homem não permite que crime do tipo destes se assim perpetre, feito gratuito, fácil, igual de indiferença que tem por nós a natureza. Sucedeu que, sorrateiro, tratou de se organizar às pressas o motim de valentes que havia no vilarejo: uma turma de cabras arretados, de boa índole, pacíficos mas a mais com coragem de sobra de não afinar na hora da briga. Resumidos de ação, os sujeitos assomaram heróicos às portas e janelas da casa invadida: garrucha na mão, a pontaria encaminhada pra testa dos bandidos, advertiram ordem de soltar de imediato cada refém, sem as prévias condições. Mas cangaceiro de si por si não é de acatar ameaça, menino; dito pinguço, então, o diabo atenta que o dedo lhe coça de vontade de romper, de vez, a artilharia. O estrondo que se ouviu de longe, na turbamulta da negociação na rua, era tiro disparado ali para matar.
Caso extremo precipitado, mas olha que um dos safados estupradores ensaiou de sacar rápido da pistola, dar pronta reação ao cerco que tinha em volta de si. Este encerrou alvejado direto no pescoço – estava feito. O outro, aturdido de susto, deu bandeira de socar na frente de novo projétil, o qual outro que vinha vindo danoso, daninho, sem pedir licença. O Geôrgiano maluco ainda meteu mão de faca pra esgoelar a pequena, quando em fé que recebeu disparo certeiro bem no arrebito que exibia por dentro das calças, o cafajeste. Estava feito, meu Deus! A família, salva, se abraçou, junta, lacrimosa, soluçando, serenada de alívio, que apertura de morte dessas, cruz-credo, abala com a ansiedade na gente. Foi por bem que ninguém pisou no chão encharcado de sangue dos bandidos, o que é de mau agouro e sério desrespeito aos mortos, nosso Padim Cisso vele por nós: que defunto é defunto não importa o tipo de vida que levou. Entretanto, cabia aos salvadores alertar o aviso de o novo perigo, iminente, que a circunstância pesava que recrudescia de grave, pro donde que devia vir pela rua, sem demora, o restante da tropa criminosa. Isto que os homens, uns dez, assentaram de entrar no refúgio completo da casa, taramelar de tranca as portas e janelas, dar com o tombo na mobília, que de nela entrincheirar-se, e desde, dali, na trincheira, com as armas com a munição, recarregadas, esperar e rezar.
– As senhoras, o menino, é bom que se aviem depressa pros fundos do terreno, prudenciados, que será proveito de fugir pelo muro, oportuno, o Senhor esteje, que os demônios jagunços não hão de deixar barato o desfalque no seu bando.
Mal que falou um dos mais assisados, choveu bala pra dentro pra confirmar: a mulher e as crianças, desde de onde, depressa correram, sofrendo, do alto, o precipitar dos estilhaços de vidro, de alvenaria, em meio à fumaça, à chama, à poeira, que das quais os trovões se despediam, em quanto que delas caíam, polvorosas, lascas e lascas de madeira da sala atingida.
Do em diante do abrigo veio a tonitruância de galope rouco, furioso, de dezenas de cavalos: convergia de comparecer em massa a guarnição inteira dos jagunços, tomando posição, mira, estratagema de guerra, descarregando no alvo o completo de suas carabinas, revólveres, espingardas: a munição recém-adquirida no próprio arraial. Deveras que no cangaço o negócio se resolve decisivo, menino, arrenega de saber o faro que os bandidos tinham pra pólvora e pra sangue, donde foi que acudiram rápidos ao local, sentenciosos de morte, empós da sua vingança. A fuzilaria deles lá concluiu de derrubar num átimo as toscas paredinhas da casa, fissurando, ferindo, reduzindo fatal o mísero número de homens ali sitiados, sem chance de defesa, réplica ou fuga, na bela da enrascada onde foram se meter. A imagem que era era de puro pó, destruição, fumaça preto-cinzenta alevantada: o diacho que os canalhas pistoleiros aprouveram de cometer. O telhado da casa assim foi que ruiu abaixo feito sepultura de gente viva – logo por riba daqueles heróis, daqueles mártires. O resto, vide consulte talvez – determinação do destino: fez o rombo devastador a quantidade de balas disparadas, estourando, explodindo, enterrando os de dentro num só monturo de escombros e destroços. Até eis em suma que, afinal, deram pausa de silêncio os canudos de ferro para o alvo dali apontados. Às ordens do chefe cangaceiro, o fogo apagou da fuzilaria. Os carrascos então que viram a barafunda que haviam aprontado. Tinham humilhado que bastava, chega, aquela derrota.
Luz do céu conduza doravante as almas daqueles bravos da cidade, que metade deles era ido, pois, no derradeiro dos jaz, que sangue vital, sabe, a gente verte é uma só vez. Contudo ilesos, sobrevividos do ataque, escaparam ainda o Chico, o Pedro Simões, o Malazarte, o Raul Monjolinho, logo salvo-soterrados debaixo da pedra desabada. Pesar de favor da sorte, ôa que padeciam da complicada da situação: na estreiteza de espaço entre os entulhos, padeciam de respirar a custo a rala porção de ar que entrava poluída pelos orifícios; do lugar que estavam mal-a-mal que podiam se aluir, aprisionados detidos no sufoco, na ruína, incapazes de prestar a si mesmos o socorro que tinham outrora planejado. Este, o retardo de tempo, dera suficiente pra salvação da família, a qual há de crer que se escafedeu, esgueirada fugida pro meio do mato. O povoado Juazinda, porém, não usufruiu do mesmo benefício, que pagou com juro abundante de alto o serviço obrado pelos salvadores. Atende na escuta, menino, que dou notícia do fato passado posterior, em depois que os biltres bandoleiros concordaram de promover, que provocar de mais intensa aquela fuzarca. Que provocar digo em esta das acepções – canalha, de ferir com o amor-próprio da gente. Modo vulgar, qual foi, de sujeito desfeitear, com o menor apreço, o acinte de ofensa com a dignidade dos outros:
– Odônde então que se acovardou o resto de frouxos natais desta terra? Ara que deram de galudos, no então? Empina a testa, que sim, que vos obrigo é de arcar com as consequências!
Isso gritado, mão furtiva de perversa acendeu, abrupta, o incêndio nas barraquinhas de câmbio, no que a faísca de fogo alastrou-se feroz pelas casas e sobrados de madeira em redor.
Ordem proferida pelo próprio chefe, insolente, que com voz de desafio profanava, de vez, a paz no arraial, dava a amostra de sua imponência, licencioso de não poupar, sequer, cidadão humilde inocente que ali vivia. A multidão de povo, apavorada, concorreu de fugir em meio das chamas, tossindo de fumaça preta, o lambido de fogo que cangaceiro cruel, cada vez mais, inflamava. De zombar da desgraceira dos outros, o bando ainda que empinava relinchava os cavalos, urra-vaiava pela rua, ria de capricho, exagero, estralava pro céu o berreiro da sua artilharia. Na mão de bandido daqueles, arma que é arma beligera, regurgita, dispara, disparatada, moço, essa brasa de morte, assassina. O escarcéu realizado de pronto, tarefa cumprida feita satisfeia, hora foram debandando pro norte, aos poucos, a manada ruim daqueles predadores nocivos: praga proliferada pelo sertão.
Galoparam velozes os danados em volta de sua jornada sem rumo, marginais esquecidos, foras-da-lei, em fora pros campos ermos longínquos, quiçá lá perto de lá do horizonte. O rasto o de sempre deixado lembrava, também, que o inferno existe é aqui cá na terra. Sei não, sinhô. Mas assim o sentiu a população assustada, acoitada escondida. Êta trem aborrecido! Que danação que foi, então, é que ainda hoje repercute de trauma, de tristeza, no pensamento de aquelas gentes de lá. Tio-avô meu Laurêncio o diga, que no tempo lá tava, coitado, e taí dito, de confirmo, que morrera lelé, estrumbicado das ideias. Pudera senão, assim, dia desses, regatar sua história, ó em juízo da família. O povoado cerimoniou o seu feriado, aflito, no velório em memória dos mortos daquele atentado, debulhou seu ramalhal de flores, chorou copiosamente a sua dor. Jagunço o que faz, faz, que ruimpiora as coisas, querela à toa, com pouco; é dele mesmo que procede esse flagelo; homem desse não soma cum nada, sô. Da mísera Juazinda, pobre, aquela perrengueza de gente, se conta que suou que trabalhou duro pra se recuperar, levantar das cinzas a cidade queimada que cremada, à força, naquele dia.
Valença, porém, de ir-se adiante de continuar, na consolação, esse remorso de vida. Fazer onde o quê? Desta maneira de jeito é que se redigia, menino, a biografia dita, viva, do sertão do nordeste. Caso que narrei era o comum corriqueiro da terra, gente agreste costumada que nem nós com as agruras de ser, digo, espécie humana de diversa, diferente de bicho. Oxênte que se aplicou aqui o castigo dissabor do mundo, que quando homem, animal, dá a sua ingrisia de maldade, prima mesmo de ruim, de egoísta feito criança mutilando cabeça de inseto, ateando fogo em cachorro vira-lata, na brincadeira na rua, se divertir de morte – anomalia talvez do mundo. Lamento de dizer da tristeza que nos espreita, ora tragédia que tutela, maliciosa, a existência. De anjo da guarda desses, cruzes, que me dispenso de companhia e trato, a vida urge, vosmecê entende, e dianta de nada esperançar no além, que sujeito quer mesmo é ser inquilino demorado, eterno, na coisa conhecida que existe – matéria de se pegar. Cuida não de não vexar de apreço, de apego no corpo: este sim que sente, autoriza de vida, instintivo, é com ele que a gente constrói, porventura, a felicidade.
Cangaceiro bandido, por sua vez, ocorreu foi de dar a toliça danada, demasiada da conta, com seu adrede de vontade, que deliberou de escolher pelo mal, o mal lhe foi igualmente a quantia paga recebida. Ora, pois, a troco de quê, bobo? Alhures de lá, que de lá, há o quê, não sei, nunca se sabe. Defere atenção no seguinte, menino, o de cena acontecida, rústica, no deserto baldio das caatingas – endereço agreste do jagunço, do abutre, do caracará, onde então que existe o capiau cabeça-chata, êta danado de homem que sobrevive, cabra da molesta, no desvelo cultivo de si, prestimoso, forte, estóico: contra as rudezas do clima o que mitiga a sede em água de macambira, ipueira, cacimba, o que faz repasto de charque, farofa, macaxeira, ou tapeia a fome no broto dos cactos, dos juás, situado mesmo no rincão inóspito das chapadas sertanejas. Perambulando por aí, lá em ia de jornada pelas bandas outra quadrilha dos tais desordeiros, de perfil semelhante, de cidade em cidade arrecadando volume – ilícito – de patrimônio alheio. A caravana prorrompia de surgir do meio do nada, o de repente chegava, poeirenta, famélica, em município, fazenda, aldeola, e tinha o tutano de afrontar desde até a polícia do lugar, de cumprir lei, sim, de sua jurisdição. Era um suplício de expedição que, por onde passava, forasteira, atentava de bulir com o sossego das pessoas, de efetuar pilhagem, assalto, incêndio, o ato brabo desonesto típico dos sujeitos.
O quando se deu o fato a tropa campeava à ourela do Itapicuruaçu, coincidia de cavalgo nas proximidades do rio flexuoso, sem pressa de tranquila, que lucrava proveito da paisagem bucólica dali, rente o leito de águas correntes, frescas, à sombra dos ouricurizeiros. A vista bel-prazia-se de deleite, menino, com o mato recém-florido nas cercanias, ora de profusão de árvores e plantas: mandacarus, bromélias, araticuns, caititus, bignônias, urucuriibas, alecrim do tabuleiro, oiticica, catingueira, canudos de pito, cereus, xiquexiques, cabeças-de-frade, quipás, caatanduvas. Tá que o sertão requintava de esmero, esculpia sua elegância de fértil primavera frondosa: mulungu, caraíba, baraúna, marizeiro, quixabeira, icozeiro, umburana, o pomar umbu umbuzeiro, carnaúba, jurema, o angico, o ananás, o pau de aroeira, o barbatimão de folha miúda. O bando era que percorria essa lindeza toda dadivosa de terra ornamentada, vasta nutrida de raiz e fibra. Mas ara que baixava uma sombra ainda maior de pôr do sol – pôr do céu que vosmecê se diz – em o azul se despedindo do mundo. Pro donde que sucedeu ao punhado de cavaleiros pousarem ali para o pernoite, perto nas redondezas, agora que contavam com a grata presença suspirosa dos jacarandás, dos aricuris. Hora em amanhecendo, procederiam de encher seus cantis e continuar viagem, o que de estrada de quilômetro havia ainda por torar.
O se ocupava da chefatura da tropa um de batismo Marciano Pedrosa (doradê pormenor de percepção neste um; vosmecê há de crer, pois, que figura importância central no caso acontecido): homem danado de durão, perigoso, tratado na lida, o mui muito que fazia as vezes de coronel dos jagunços, perito em arte de vilania, estrategista de cuidado pronto meticuloso, de vero que calculava frio seus misteres, seu plano de ação era nascido sempre racional, pensado na ponta do lápis, paciencioso. O chefe cangaceiro, assim absorto meditabundo, ordenava impunha sua liderança, confiante, seguro de si, a bem que malgrado de sua aparência: que aliasmente o caboclo era dado de franzino, baixote, arredio, ao primeiro través d’olhos, no soslaio. A atenção apurada, porém, via nele o tino correto nato de mandar, a aptidão pra exercer de firme grandeza, autoridade. Somado também que Marciano gozava de culto versado em leitura de jornal, almanaque, enciclopédia, possuía papo de informação, era sujeito instruído de esperto experiente, opa que havia andado de viver inté em cidade grande capital, rodado o seu trajeto longo na juventude. Assim de maneira que entabulava conversa bonita, persuasiva, resumia palavra de veredicto: o fato por só que os outros ignorantes, coitados, diminuíam intento, desde em sua presença que os demais jagunços piavam fino, não falavam – gungunavam de respeito, obedientes. O coronel Pedrosa, outrossim, punha predileção pelo silêncio deles, ora distanciava ausentava pra mor de se preservar, tinha zelo por si que era homem que se banhava, trajava limpo, tiposo, dava desagrado do macuco de orelha dos demais do bando, do jeito grosso talaveiro deles lá, da morrinha catinga que tresandava, vez em quando, daquela quiçaça de gente, do entressi em viagem debaixo de sol.
O velho chefe cangaceiro, quando rapazote, teve de amargar vicissitude, a bronca da situação desesperada, menino, mercê de seca que, cê sabe, faz o arraso bruto por este sertão afora. Ora daí que viu seu irmãozinho caçula morrer de fome: o anjinho esquálido definhando, miúdo, nos braços da mãe. Pobre que deu por si de testemunhar o açude vazio, a plantação arruinada, a agonia lenta dos bois, das bestas, o de criação mugidora pelos pastos desnudos, estéreis, arrastando seu quê de caveiras vivo-mortas, suas carcaças ainda de pé, cambaleantes, no destino. O moço viu o todo tudo Deus feito surpreendido, então, na fragilidade da vida: a quentura de tanta terra seca, inútil, desidratada, torrada de pelar, de sapecar o lombo, quente feito febre em testa de criança, o donde deslizava a aragem pelas roças, roçados, poeirenta de cisco, como se soprasse mesmo pra aliviar o fogo que ali teimava de queimar. O cenário desolador, o sertão a pino e a família Pedrosa – painho, mãeinha, dez irmãos, fora as moçoilas casadas casadouras, genros, netos – ai que tiveram o obrigado de arribar daquele deserto xucro, sofrer exílio êxodo da terrinha querida, sofrida que nem ela. O próprio do Marciano imponente era, então rapazito, aquela alma penada no clarão cáustico do dia: o descalço dos pés ardidos, esfolados, em no embora sobre a urtiga espinhosa das caatingas, a roupa um baixeiro de imunda, andrajosa e, por baixo dela, a nódoa nódea na carne e no sangue. Esta Pedrosa mais uma família que soverteu no mundo, esfomeada severina de mendigar pelas veredas, retirante, despedinte de seu torrão natal, rumo sem rumo pra essa coisa de cidade que tem lá no Sul.
Desde de direção tomada, a custo custo palmilhada percorrida, era que deram sina na metrópole aquela estirpe de trastes lázaro-molambentos, indigentes, em frangalhos, miseráveis, sobra-farrapo de pessoa, mas já que de reivindico mesmo do seu direito de viver. Ói que o trem não é fácil de tocar, menino, nem nenhum se exclui da dura da peleja, o que nós cansamos de aprender ora gente humana cheia de tanta precisança, tanta da muita necessidade. Vixe que, do nada, sujeito retirante tá na arapuca babel de pessoa junta, sujeito desse fulanêia no meio da multidão, anonima, insignifica, experimenta de qualquer, zé-mais-um, pinguço, trem-bobo-à-toa largado no mundo. Foi à vista de olhar indiferente humano que o dito pirralho Marciano, os velhos senhor e senhora mais um monte de menino birrento desnutrido, vieram de sofrer que nem sovaco de aleijado. Digo de bastante da privação que os Pedrosa amarguraram nas ruas da capital, ara que na extrema da miséria, na pindaíba, moço, de doer compaixão na gente. Mas daí que acontecia de ser de raça dura, obstinada, os membros daquela família, a ponto, caramba, de tolerar firmemente os safanões do destino, a falta carência do básico de comida, moradia, vestuário pra se viver. Eram os Pedrosa povo que se esperta no arranjo, no improviso, ora aí que se safaram daquela cruz de situação, o pai arrumando bico de serviço em obra, e pouco de pouco levando os filhos pra profissão digna de construtor. O coisinha menino Marciano, entanto, deu de sonhar ambição mais alta, o foi com o deslumbro da cidade grande que invocou de querer mais, muito, de se saciar no desfrute de tentação, prazer, poder, que ali houvesse chance de possuir. Assim é que o futuro chefe cangaceiro se revelava no rapazito pobre, então um humilde peão de obra que ralava, de sol a sol, na pena na labuta pra se sustentar. Mas opa que era um jovem magrelo mas que primava de inteligente, consertado de ideia, de juízo, o curto prazo que aprendeu leitura, escrita, operação com número, estudou de se virar, sozinho, na didática, onde que deu destaque de sucesso na família, afamou como o de mente mais melhor de capacitada, habilidosa.
– O talzinho moleque é ativo, ôxe, que tem gana pra vencer na vida.
Disso diziam dele os colegas de trabalho.
– Tem futuro. – Vaticinavam.
E verdade que fez boa proeza, que o sujeitinho não era de frustrar as esperanças de ninguém, tinha seu objetivo real, sério, pela sua teimosia tava de certo que havia de por a mão, mesmo, no tal “futuro”. Marciano tinha tempo, era moço novo, mas não tardou pra se fardar engatar carreira no pelotão de cavalaria do exército, o orgulho que sucedeu de ele dar pra sua velha mãe. Como elevado de militar, soldado raso, de uniforme, o garoto Pedrosa devia de ter dado o passo especial de sua vida, um triunfo de verdade praqueles matutos costumados com os nãos da sorte, tal afeitos com o pouco irrisório de ganho, de aquisição. Toleima: que o soldado era entestado de se apoderar, mesmo, era do mundo inteiro, porque que veio de ser promovido comandante, tenente, general, em com o tempo se passando de pronto, dando a sua devida transformação nas coisas. Marciano Pedrosa tornou-se de maduro velhaco na experiência militar, ardiloso, teve conseguido galgar a posição desejada, a hierarquia – uma perfeita proba duma carreira, de afetar com a inveja dos outros. O tal de partir pra bandidagem ocorreu ao General Pedrosa depois e no despropósito, o quando que ele sucumbiu à própria ganura, surtou de cobiçar demais, ter em conta por demais sua autoridade de pessoa. O permitiu-se então cometer o seu desacato ao sistema, coisa que se meteu em encrenca braba, grave, agiu por manchar macular, definitivo, seu mando de influência no exercício militar. O caso foi que Pedrosa teve-se de inspirado em revolução acontecida num país estrangeiro, em esquisitice de gringo, no que deu com a cabeça na doidura da ideia fatal. Vixe senhora que o homem se fez, decerto, de louco atrevido, se envolveu em conspiração política, armou encetou um plano danado de calamitoso, importante: tal de golpe de estado, menino, que é quando sujeito toma posse à força de posição maior no governo, a soberania. Ara da muita artimanha que existe ali dentro do quartel, o próprio exército no efeito de jogo de poder, interesse, corrupção, cabotinagem. Cêbesta que é negócio difícil complicado de se entender, o que o próprio Marciano sentiu de sua decepção tamanha, que foi traído por companheiro desleal, ali próximo dele, de sua confiança, pouco antes de levar a cabo o seu desígnio, aquele tremendo de projeto arriscado, temeroso. O plano descoberto, foi o alvoroço de confusão, a balbúrdia toda na cidade capital, com o unânime de pronta condenação dos conspiradores, hora culpados de crime, perfídia calúnia contra a pátria. O General Pedrosa, apontado falado de traidor, não concluiu senão de fugir, desertar pra sempre de seu posto, no mais que teve decretada voz de cárcere prisão, era agora procurado fugitivo do estado.
Ê nem que num havia o mais de alternativa, então, o a num ser prestar de escapula no mundo, bater de retirada no urgente da circunstância. O anterior havendo, porém, era a vingança de morte do Marciano, o qual até que era já bandido frio, matador de sangue nato correndo na veia: pro tempo que invadiu condomínio de seu inimigo, o serpe traíra, o timbete excomungado – responsável pela denúncia e pela acusação. Dentro ali no interior do casarão, não susteve bala não que descarregou completa a parabélum no cabra, sem mochibagem de pólvora, que tencionou serviço caprichado de bem feito. Tava possuído de fúria, de ira o demônio do general, que procedeu de matar mesmo quem sabe a alma do sujeito, o assim porquê de gastar, dispendioso, o seu cartucho inteiro nele. Obra executada, foi que o homicida aplacou ensejo de seguir viagem, precaviu de desaparecer escapulir rápido da cidade, ora cortando volta de perseguição da polícia e do exército. De deveras que sabia que seu esconderijo mais-a-salvo, seu canto onde ninguém que daria menção de ir, nem sonhando, era pros lados do sertão agreste, ops que a opção era se bandear de novo pro deserto, correr estrada desabitada afora adentro, se ocultar de refúgio na caatinga, nos cafundós do Ceará, da Paraíba. Cabia distância do bafafá que propagava mundo com o seu nome, já julgado criminoso, culpado, sem meios de se defender.
Êta assim é que veio ter novamente na sua terra natal o mesmo retirante faminto esfarrapado de antes, o mesmo menino Marciano, agora barbudo foragido procurado da lei. Viver, no afinal, é essa treta de ciclo e de travessia, moço, o que que a gente repete de atitude e quase que num se apercebe. Dá de vistoria pelo fato: o unzinho sujeito nosso conterrâneo: ele é quem vai carregando o destino na cacunda ou é o destino que, por fim, dá cabo de escolher o seu caminho? Canso canso de matutar conjetura, ô na questão, mas é resposta difícil complicada de se achar, menino, cruz-credo que esquenta o neurônio na cuca. Mas tal aparece o dia que cabra fulano põe tento assim, diretão de olho, na coisa: que destino mesmo é só mais um nome que a gente coloca, senão mera somente por hábito, por sestro, por mania; que a gente ensaia de botar palavra no mundo pra mor de entender e a palavra, no fim, é que acaba complicando tudo, dando o embaralho que barulho de confusão na ideia. Fácil, pois, que a gente se livra do bicho palavra e fica vendo, simplesmente, o um que é. Nem não existe destino assim ara porque num tem mesmo precisão de falar palavra odônde a coisa é clara de esclarecida, evidente por si só: o Marciano Pedrosa é ele Marciano Pedrosa sempremente, nem nada importa o local, o lugar, pro donde que ele vai expulso por força maior das circunstâncias. Deste modo de fincar pé na existência o homem se vale: amém que o danado deu pra riba seu topo de general, enquanto na cidade, agora no sertão o dado nem não haveria de poder ser diferente: porquanto tanto que, uma vez no mando, sempre no mando, diria o ex-general Pedrosa que, logo de chego naquela terra esturricada de bendita, logo empanou com quadrilha de jagunço, dos tais famigerados, de má ruim reputação. O Marciano viu na sua frente senão o mesmo exército de homens que antes um dia comandara, tão só de semelhante, por isso planejou, jogou, articulou, mexeu sua estratégia, onde enfim que ajuntou a próprio soldo seus capangas soldados, impôs medo, respeito, assentou praça na profissão de cangaceiro chefe, coronel de verdade, o bruto real, na tora.
Taí o retrato tirado daquele principal de homem, o que tocava de líder jagunço do comboio ali adormecido, acampado nos arrebaldes do Itapicuruaçu. Era que se tratava duma tropa veterana, destarte dotada de experiência, de prática de delito e vilanagem, moço, os muitos anos seguidos na estrada, na brutalidade da guerra. O coronel Pedrosa havia já de adquirido conceito e fama na região, o tal que o seu nome tinha a presença notável nos ditirambos populares, ora figurava no verso dos cordéis, dos repentistas. Pra isso o mor de ser assim, vixe que o sujeito padeceu suas estripulias, ôxe que teve de longo penar na adversidade: o de escapar de emboscada, cilada, confronto de tiroteio com batalhão de polícia, duelo de faca, a insolação no meio do deserto, o se arrastar sobre espinho de mofungo, o perigo demasiado de ex tar vivo no mundo. No acerto da compensação, porém, felicitou de granjear fortuna, havia faturado alto em saque que roubo de propriedade. Assim, foi que arregimentou os melhores piores bandidos pro seu bando.
Agora sim, o oportuno, que é de tempo que queria assuntar com vosmecê, menino, o sobre o restante de jagunços que havia a mando preceito do senhor coronel. Sê paciente, que não me demoro muito. A tanto que cedinho se pôs de pé, antes mesmo do amanhecer, aquele baita ajuntamento de soldados, se espreguiçando de sono, dando o limpo na remela dos olhos, ara que na ablução, no calçar das botas e das alpercatas, no arrumo ligeiro da trenhêra, armas, mantimentos, apetrechos, que eis que tinham pra carregar. O depressa que se aprumaram, selaram os cavalos, os burricos de carga, hora deviam de efetuar seu continuo de viagem, trincar estrada adiante, longe, no encalço de cidade, povoação ou fazenda que houvesse pra espoliar no furto, no despojo. Corre revista de olhos nesta massa de tropeiros, de alto a baixo, e vosmecê há de conferir toda a truculência de criatura nascida no sertão, vai turiando com cuidado enquanto que eles dão rumo às suas montarias, o então que vêm de socar no dédalo de espinhos da caatinga, ora providenciando de esconder que mocar seus rastos da polícia. Tudo de cabra vivido doutrinado na labuta, na dureza, tudo sujeito que petecou a vida na bandidagem, que espritou de mau, sem juízo, descabeçado, e decidiu de empanar com cangaceiro, de se bandear pro lado de assaltante fora da lei, a alma pechinchada vendida, por ninharia, ao diabo.
O vão estrada afora na empreitada os jagunços, como então discorrendo sobre patifarias passadas, causos de matança, má conduta, ladroagem. Os abestados que invinham de rasurar seu destino, como, matreiros, definiam de compor tradição, lenda: a cara crivada, que nem, de baforada de pó, o olhar afogueado gasto de tanto ver, a fala presta de dizer da vida própria sertaneja, a boca tartamudeia o seu dialeto, urde seu linguajar, inventa, próprio, o nheengatu mavioso que da província. Os caboclos assim trigueiros, barbados queimados de sol: era o cortejo daqueles indivíduos ameaçadores, trajados de chapéu de couro e gibão que mor de se proteger do clarão do céu que reverbera sobre nós, impiedoso. Esses tinham de compartilhada a experiência amarga sofrida, seu olhar percorreu de audiência a aspereza pungência da terra ressecada, o adeus dos irmãos escorraçados pela seca; ara, por isso, que procederam de ter o seu aprendizado, deram de se instruir com a lida braba, o seu trato diário com a vida, com o mundo nefasto, hostil, a sempre, sim, em pé de guerra. O sobre o tudo, eram sujeitos fortes, valentes, os típicos de perfil, com seu sistema de ser: ariscos, evasivos, atrabiliários – o corpo cicatrizado de raspão de bala, de briga de faca, a munheca enrijecida por conta de tanto coice de revólver – dá trela que tal que sujeito desses, de ruim, consolida o ato, ói que de ignorante afronta o perigo de perdição, arrogou uma vez e é sem remédio.
Assim o parecer daqueles os tais: o Bento Caipora, o Laurindo, o Iolando, o Raimundo Nonato, o Gideão Simas, o Evandro Calisto, o Nego Casimira, o Frojoca, o Calango, o Deusdário, o Damião, o Zeferino, o Mané, o Expedito, o Virgulino, o Pisquila, que os muitos da Silva que se reuniam de congrego no bando. Cada um dali ao outro outro familiar, concebido de sangue, irmanado. Aquele um deu vista de morte gratuita na família, o pai beberrão matando a facada a coitada da mãe; outro amargou seus anos de xilindró por assassinato; mais outro que tal que serviu de pau mandado de fazendeiro, fez o seu serviçinho sujo por meter a mão na bufunfa, na grana; o de si, seguinte, invocou de ser justiceiro matador; mais um igualmente geringonçava, trôpego, por conta de tiro que levara às ilhargas: os todos no modo e com a morte perto, carregada doída nas costas, na lembrança. Perfil feito, é desde assim. Membrou com os-tais deve que só de amostrar ter membrura de homem, que por de a prova da sua membridade. Um deles lá, porém, assoma de pior: um negro pulha de maldoso, o Jasão. Este que digo o inveterado de perverso, que um danado que se praz na malfeitoria, ameaça, intimida; o porém, porém, é a coragem que demonstra na refrega: destemeroso de nome, música de tiroteio soa-lhe ao ouvido feito aplauso de torcida, dá-lhe sustância de ânimo no apuro, coisa que o facínora se sente o anfitrião na violência bruta, se esbalda, festeja o seu melhor momento, que periclita afoito natural, no aperto de morte assim, entusiasmado, ele ousadia inté de dar negaça em bala inimiga.
Consta de fato então que no trafego empós daquela lonjura de légua, o depois de horas de cavalgada, moço, num fôlego só de trote, adiante, depressa, os caboclos deram de enveredar por trilha desconhecida, ignota, de muita estrada que labirinta por aí, desencontrada do mundo. O quando em fé que a tropa, meio perdida, sucedeu de topar com uma cidade estranha, uma aparição de sombra, assombrosa, ali de estadia no ermo do sertão agreste, escondida entre os morros, amoitada na fundura do barranco que nem devota ajoelhada ao pé de seu santinho protetor. Era o tamanho de cidadezinha que dava pra bisbilhotar, inteira, num só relance de olhos; era um paradão no tempo, um ramerrão de fim de mundo que aquele ali onde a quadrilha Pedrosa, sem querer, veio aportar.
– Oxênte, coronel, que num contava de encontrar habitação de homem, assim, a dar de existir nesses lugares, com toda essa distância de chão pra percorrer.
– Deusolivre que nem por decreto eu procedia de morar nesse cu-de-judas, vixe sinhô coronel, mais que lugar de criar lobo esses coitados escolheram pra viver, bem nas vizinhança do deserto. Mais num é cabeça ruim de ignorante, que não?
– Ara ... só ... mas que diabo de cidade acontece de ser essa? Se informe com algum dos jagunços, Calango, se tem conhecimento, pelo mapa, dessazinha onde acabamos de chegar.
Isto que deu ordem o coronel Pedrosa ao seu mais achegado capanga, o Calango, um a que aludi de ser capenga, manquitola, por causa de ferimento antigo de bala. O Marciano não dirigia palavra ao bando senão pela porta-voz desse tal Calango, o qual se tinha de satisfeito de poder mandar, sentir o gostinho de ser chefe, ainda que fosse dessa maneira indireta de papagaio, proferindo ordem repetida, de segunda mão.
Cangaceiro nenhum, porém, soube dar o exato de certeza, ninguém atinou com o nome da cidade onde eles então se encontravam. Tal só que palpitaram seu talvez: de ser Itanhanhém, Pitiguacacuruíba ou outra qualquer, desimportante de nem haver de seu registro no mapa.
– Tô abestado, moço, que presto de saber dessa região, de alto a baixo, mas nunca que tive notícia de cidade construída nestas quebradas.
– Esquisito por demais.
– Arrenego, que isto é ponto de tocaia, valho por mim que cheira que nem emboscada perigosa, malsã, suspeita.
– Para por que do arreceio, meu rei? Simbora tratar de descobrir.
O coronel Pedrosa, todavia, susteve seu prazo pra mor de raciocinar, pesar os contras, que tava mesmo ressabiado com aquela aparência desolada, aquela ausência de vida que emanava dali, menino, onde que até os bichos tinham dado sumiço, ninguém que via viv’alma no dito lugarejo. Foi então que decidiu, o coronel, de conferir presença lá de dentro da cidade, agarantir que nem num havia o motivo de temer ameaça, que era só uma paz sossegada, uma quietude, nada senão o sopro monótono da brisa alevantando aluvião de pó. De jeito que os cangaceiros adentraram cautelosos no local, armas em punho, ora na espera de qualquer imprevisto, logro, trama de armadilha. A cidade inteira, cruzes, assentava de prestar escuta no silêncio daqueles confins, havia de ter o de suas mansardas, casarões, biroscas, sobrado, Igreja, mas vestígio algum de pessoa, habitante nenhum, nada, em tudo só o ponto final de uma solidão imensa, um abandono total. Era de arrepiar aquele arreda-mundo esquecido ali por distração de Deus.
No paradeiro, os jagunços foi que fadaram, o só, no desamparo de ser daquela cidade despovoada, desabitada, vazia, que não ocorria de haver um único cidadão vivente no danado do lugar. O passo daquela legião de cavalos fazia o seu eco solitário, tamborilava em vão, sem resposta nenhuma de gente humana que ali morasse. O Calango, sobressaltado, equiparou sua montaria de parelha do lado da do coronel, no que foi de sentar advertência séria:
– Êta sinhô coronel, que o que que vossa senhoria acha? Dito isto que tem mais parecença aqui é com terra amaldiçoada, agourenta, a donde que todo mundo morreu ê no efeito de peste, moléstia braba. Carece de explicação?
– Com pouco que é, senão, coronel?
– Se avie então de elucidar, homem, ôxe, ajunta co’s cabra e obra vasculho dentro daí das residências, donde vamos saber agorinha mesmo o que se passa nesse cafundó.
Deram na telha, assim, de efetuar investigação mais inteirada nos arredores e no de dentro das habitações, menino, mas opa que não encontraram nada de pessoa real, ara senão a mobília que havia, intacta, no seu devido lugar de estar. Em chegando de entrar na sala de um casarão daqueles, o coronel Pedrosa deu vista do todo de tudo arrumado, asseado, limpo: o estofado, a mesa, as cadeiras, os tamboretes, a cozinha um brinco de capricho, a prataria luzindo no armário, os artefatos domésticos nas prateleiras. Era o completo no alinho, refinado, o Marciano pensou, como se a própria cidade fantasma tivesse se aprontado para receber a visita ilustre dos bandidos.
Daí, né, que sucedia de ser o caso misterioso, o da gente estranhar encabular, de vez, a cabeça. O propriamente que os jagunços já intuíam de apostar o mais provável que era, de possível, no evento:
– O pode de ser de ter acontecido, moço, que pessoal do daqui fugiu mal sabido que nós, cangaceiro, invinha de chegar uma hora ou outra.
– Tu tá caducando, nego, pensa melhor de concluir, ué: por que infernos dariam no pé assim, largando tudo quanto é valor de posse abandonado desdeixado aí, pra qualquer um proceder de pegar?
– Negócio esquisito à beça, oxênte, que parece de semelhante com artes de feitiçaria.
– Olha o disparate! Não superstiça, larga mão de ser jeca, rapaz, que o povo deve de ter desaparecido mesmo é de previdente, o no susto, no afobamento, que nem adiaram tempo pra carregar suas coisas.
O coronel, de si, era de longe o mais aporrinhado com aquela situação bizarra, fora do comum. Nem não tinha cabimento, que nenhum sujeito são do juízo haveria de ganhar estrada sem se valer de suas provisões, ora senão, que é mesmo de imaginar a procissão de gente a picar a mula pelo sertão afora: mãos vazias, desprovidas de recurso, de comida. Só a não ser que tivesse dado o surto coletivo, epidemia de todo mundo endoidar junto, lesado da ideia. Poderia de ser? O de ver que os bandidos fuçaram, procuraram, fizeram o seu fuzuê com a tralha trenhêra toda deixada ali ao deus-dará, no desprezo, mas nada que não deram de encontrar pista alguma dos proprietários da cidade, êta que tinham sovertido mesmo pra longe, sem se importar com os haveres, o de seu patrimônio.
Os cabras viram vieram de reparar, porém, na quantidade de retrato que havia ali exposto, pendurado nas paredes, em toda casa o mesmo estar de fotografia de gente, na pose, menino, o assim de dar amostra de importância, de imponência: homem, mulher, velho, criança, o busto estufado, na parede da sala feito no próprio pedestal, na moldura da imagem: naquela vigia perpétua, sentinela, olhando, olhando, espiando pro lado de cá do mundo.
– Vixe senhora, que saravá brabo! Digo, sim, que arrepio de mau presságio só de olhar pra essas figuras de retrato, credo em cruz, que parece que acompanha a gente co’s olhos, censurando, reprovando, arreda de mim, diacho!
– Deixa de besteiragem, Mané, que esses daí deve de ser o pessoal sumido, morador da casa. O que que deve de ter sucedido para com esse povo? Que estranheza, sô, de bulir com a curiosidade da gente. Uma coisa, porém, não me sai da cuca: que pode de tar tudo, esta hora, servindo de comida de verme, que os tais retratos dão de parecer mais é com pessoa cadáver. Que branquidão na fronte, essa palidez!
– Né que é mesmo. Espia só o amarelão nos beiços daquele velho. Em tá sustando, Mané, cum esse homem sem-graça, desincha-a-vida?
– Não sei não, que a cara desse um me é um tanto familiar. Oxênte, bichim, que me acontece de conhecer o tal de algum lugar, só num alembro de quando é que foi.
– Ara, sô, num tem precisão de esquentar desse jeito a moringa. Pouco prazo e a gente bota no saco tudinho de valor que os besta deixou pra trás. Daí, logo logo coronel decide de cascar fora desta maldita desta cidade.
O mistério inda que agravava por demais, cravando o de seu assombro naquele ambiente pesado, carregado de sinistro. Os rostos na parede, mudos, continuavam a sua vigília eterna, mas vosmecê adivinha o sucedido – que cangaceiro, brioso, havia de por cobro do de seu, refestelar-se, nessa abastança de bem, meter a mão mesmo nos objetos caros, de validade, apanhar tudo na cara dura, sem respeito pelos ausentes. Pegaram neste serviço de pilhagem até a calada da noite, quando a treva, atrevida, deu de tocar o completo breu por aquelas bandas. Os homens, já fatigados, acenderam as lamparinas pra mor de forrar o bucho com carne seca e farinha, o sortilégio, que assim que ingeriram o grosso da refeição, acomodaram de dormir sob lençol de cama, de verdade, o que era o baita conforto pras cadeira daqueles brutos, costumados a dormir adormecer em riba de pedra, ao relento, na friagem.
No deste modo é que a jagunçada do coronel Pedrosa ficou, naquela noite, sob a custódia da cidade fantasma, menino, sumidos de tudo da vida, no extravio de tanta rota que há sertão adentro. Mal baixou o sereno da madrugada, porém, um dos sujeitos do bando, o tal de Mané, se levantou, atônito, atarantado, que tivera um sonho danado de ruim. Coitado do homem, que logo então deu por si que o pesadelo, mesmo, tava de existir era no mundo real: o estranho haver daquele lugar abandonado, perdido. Este foi justo de ficar o mais apoquentado ainda com aquela situação misteriosa, desconcertante, que o caboclo assumia maior crendice, superstição, punha fé nos segredos do além, em reza braba, macumba, magia negra, a coisa secreta, oculta, que nem doutor da cidade é capaz de explicar. Quando os demais despertaram, vieram de topar com ele na sala, mirando, estupefato, os retratos na parede. Olha que o Mané exercia de estar assim, bocó, passa-quatro, que nem deu pela presença dos companheiros.
– Mas que que surtiu com vassuncê, bichim? Tá lelé da cabeça, é? Pro donde parece que viu assombração.
– Êta não, larga de implicância, que a quase da certeza que eu conheço esse sujeito do quadro. Nem nunca que esqueci fisionomia de rosto em toda minha vida.
O teimoso, naquela cisma, naquele aperreio, porfiava de crer na sua memória, mas ninguém que veio de por crédito na dita idiotice: justo o simplório boiota do Mané, que assim impressionava à toa, delirava, desbaratado dos miolos. O Calango, enquanto isso, cedo foi se assuntar com coronel sobre o destino seguinte da tropa, o se queria mais para breve, para logo, já pisar prosseguimento de viagem.
– Agora que o sol tá baixo, melhor. Apressa os jagunços, Calango, no apronto da carga, arruma a coiseira toda nos alforjes, sela os cavalos, que num tem por que de nós ficarmos inzonando nesta cidade.
Ora deste modo, com palavra resumida, direta, é que a quadrilha decidiu de ir-se embora de vez do lugarejo, usufruindo ainda proveito do tantão de coisa roubada, desapropriada da terra.
Logo montados nas selas, encetaram saída ligeira do pé de morro em que ficava a cidadezinha: uma última olhadela para as casinhas distantes naquele buraco, e o Mané pôde enfim folgar aliviado, que num tinha dado ainda com a lembrança exata do velho que lá vira, fixo parado para sempre no retrato, preso na imagem da fotografia. Os cangaceiros procederam, então, de torar o trecho pelas veredas adiante, no galope corrido, rápido, tal como se estivessem fugindo de afasto, mesmo, do ar sombrio de morte que haviam respirado naquele grotão. Ocorriam de partir, de novo, pro mundo, a degustar a sua saliva de viageiros errantes, nômades. O mais no entanto, menino, que apareceu no seu caminho a coisa pior de preta, mórbida – a galinha degolada, o litro de cachaça, as velas – que tinha que havia o despacho tinhoso, sinistro, de oferenda ali na cruz das estradas. Com um gesto de braço, repentino, coronel deu ordem de parada aos jagunços, no que foi que alguns deles eriçaram pêlo, na repulsa do que viam:
– Curuiz-do-céu! Que eu bem que suspeitava, de antemão, que o negócio aqui não haveria de prestar. Êta culpa dessa cidade maligna, amaldiçoada!
O Mané, dos demais, era que tava convencido de fatalidade próxima, iminente, prestes de recair sobre o bando. Mas mais que tinha também sujeito zombeteiro, cabra macho, incréu, que danou de rir seu sarcasmo daquela crendice própria de beata.
– Se avie se avexe, homem. Tu um marmanjo hirsuto sofrendo susto com essas histórias. Olha daqui, que eu acho, de fato, que os Orixás não iriam de chiar se importar de dividir comigo sua pinga.
O assim retrucou o Virgulino – pra acirrar ofensa – que foi logo apeando pra mexer fuçar nos fetiches da macumba, o malgrado de nem ouvir os protestos do outro:
– Tu tá zoroca perdido da ideia, moço? Num procede de se engraçar assim com espírito da treva. Olha que te cai o mau-olhado, o praguejo de feitiçaria. O Cabeça de Bode que te pega, Virgulino, hora em véspera de lua cheia.
Daí então que o sujeito estralou suas gaitadas de riso, o promovendo, sim, seu sarro escárnio daquilo:
– Ora que venha o próprio chifrudo, que esta eu beberico em sua honra.
E assim que disse o travesso, emborcou gargalo adentro um trago da birita.
– Que despropósito! Não desavença com coisa que tu não conhece, seu gambá pau d’água, que tu pode pagar de se arrepender.
Mas a quando daí que a arrelia dos dois encerrou na bruta, na ignorância, com rajada de tiro estourando, certeira, a garrafa na mão do Virgulino – o boboca que se molhou todo no espirro de pinga e pedaço de vidro.
– Ih, se estrepou! – alguém murmurou sua mofa do ridículo que fez o figura – surdo confuso, banhado de cana na roupa. Outros disparos se seguiram de destruir arrasar com o resto da oferenda, o que foi de interromper a graça da circunstância, que quem tinha atirado era o Jasão pistoleiro, a mando direto de seu coronel Pedrosa. O silêncio pairou que calou aquele momento, grave, respeitoso, até que o coxo do Calango tomou sua palavra de chefia:
– Que desvario trata de ser este?! Vassuncês piraram, foi, de dar ingrisia de rixa, assim, bem em frente de sinhô Coronel? Olha os modos, por gentileza. Ara tal que nós, jagunços, não temos nada que ver com religião de baiano, preto velho, pai de santo, curandeiro e essas demais crendeirices. Determinado que vamos, o só, passar ao largo do terreiro e compensar de seguir trajeto, sem comentário nenhum sobre o incidente.
O porta-voz do Marciano, contudo, não iria de concluir, por inteiro, o seu comando, que arribou no vento o disperso de fumaça, de nuvem de cinza, alevantando, de repente, de detrás do monte. A coisa proveio de denunciar presença de fogareiro de fornalha, fumarada acesa, fogosa fugidia, fumegando perto dali. Mal os cangaceiros avistaram o dito fumaréu, deram com o fato: que havia presença clandestina de gente viva, moradora da região.
– Por de que, afinal, que não acontece de estarmos sozinhos, compadres. Espia só que existe o algum sujeito, dessabido de nós, logo na traseira do morro, cozinhando refeição.
– Capaz que é mesmo, ô Expedito. Taí no tempo, oportuno, mor de nós saber, na certa, o que diabo que se passa nesse fim de mundo.
– Ara, sô, que deve de ser mesmo a baiúca dos macumbeiros. Os tais infelizes que nos pregaram peça, embuste, desde que chegamos neste torrão despovoado, vazio.
– Ôxe, que tô com uma gana lascada de sentar a lenha nesses poltrões desgraçados!
– Sossega o facho, pessoal, que é o coronel quem cuida de decidir o desfecho disso.
Proferiu voz alta de novo o Calango: tava na espera de solução mais demorada, racional, silenciosa, que seu chefe, ele sabia, nunca que precipitava ação, intuía de consultar, primeiro, o pensamento. O porém que, desta vez, o Pedrosa arrojou ligeiro sua decisão, que consentiu de adiar um pouco a viagem pra mor de sanar aquele caso, aquela dúvida, que tava mesmo aperreado de acabar com o mistério daquilo tudo. Onde assim que ele deu de iniciativa, menino, de disparar seu alazão corpulento na direção do morro, saindo da estrada principal. Os cangaceiros, gostando ou não, tiveram de segui-lo, pressurosos.
O que havia ali era a fratura da terra – a grota, a gruta, a ladeira, o penhasco, a garganta funda – mas cêbesta que numa dessas crateras se assentava, firme, uma biboca tapera de casa, uma ruína asquerrorosa, horripilante, a mostrar a careta feia pro resto do mundo. O vento sibilava nas fendas da pedra – uma melodia medonha, gelada – naquelas sumidades. Este o recanto mais esquecido, inóspito, que o coronel Pedrosa topou de encontrar, ignorado ali, no vasto de chão daquelas serras. A fumaça que rebentava, que levantava voo na altura, sucedia de surgir de uma greta estranha, escura, um fosso cavoucado nos arredores da casa. Deusolivre, menino, que parecia de chamar fogo era das profundezas negras! O de jeito que até o galhofeiro insolente do Virgulino emudeceu, engolindo seco, ê nem que nenhum do bando deu de soberbo gaiato, que quedaram todos silenciosos, aterrorizados. Só apenas o coronel que queria atiçar aquela desgraceira, o possuído de raiva:
– Ô quem é fraco do juízo de sobreviver nesse ninho de carcará? Arreda, pois, da sua loca, ô víbora suja, traiçoeira, que vamos acertar direito esse negócio.
Isto que cuspiu o veneno grosso, o palavrão imundo, o Marciano Pedrosa, êta homem porreta, arretado, o cujo valoroso, que ê no efeito de bravura, sungou ainda mais o seu rifle no ar, desembestado, e tratou de ruidar mor ameaça, o estampido brabo de chumbo. Do de dentro do barraco procedeu de aparecer, então, um vulto humano, um espectro sorrateiro, assim, a resmungar de incômodo com o barulho feito pelos cangaceiros. A dita sombra bisolhou de esguelha pela janela, o vendo na sua porta o batalhão, a visita de tanto homem armado, rude raivoso, de cenho franzido. Não ocorreu, entretanto, do tal fantasma vivo se intimidar, que logo foi que escancarou a entrada do casebre para os jagunços. O coronel teve-se de intrigado com a recepção, mas não abrandou de atitude, que retorquiu ríspido:
– Solicito falar, de imediato, com o qual fulano que presta de viver nessa pocilga. O covarde cavernoso que é, desentoca daí pra mor de eu acabar de conferir, face a face, o parecer de gente que tu tem nas fuças.
Menino de Deus, que mal findou discurso o cangaceiro, lá de dentro não soou senão o estralo de uma gargalhada estridente, fatídica, desafiadora, como se pusesse, mesmo, o menosprezo por todo aquele exército de bandidos perigosos. Aquela voz endemoninhada, de gelar a epiderme, menino, no que veio assim de articular a palavra, por sua vez:
– Pois se aconchegue casa adentro, coronel. Se vexe não nem põe arreparo na bagunça. Drumo aqui sob teto de pobre, na penúria, mas cá me entendo de receber, hospitaleira, a nobre visita dos senhores. Istrudia mesmo que tive aviso que vassuncês, meus filhos, tavam no caso de chegar.
A voz rouquenha devia de pertencer a mulher idosa, antiga, os jagunços o tal percebiam, mas fato que era por demais esquisito, escabroso, que a dita cuja revelava de saber notícia da vinda deles, nem se tinha de temerosa aflita com a desfeita do coronel. Antes, ela foi que reiterou ainda seu convite prazenteiro, induzindo os sujeitos a entrar na tapera velha que lhe servia de domicílio.
– Como, então, que a senhora tinha, já de antes, conhecimento de nossa chegada à cidade?
– Vassuncê o deveria melhor de saber, coronel general Marciano Pedrosa, que o destino, por só, não descuida nunca de falhar, de esquecer, e que na ocasião propiciada, certa, a gente nós, junto, sucedia de se deparar.
Escuta e tira da sua conclusão, moço, que o coronel Pedrosa foi de empalidecer até a cor do sangue, arregalar os olhos de espanto, admirado, que havia o bastante de tempo, a longa data remota, passada, que ninguém que o tratava de general, ninguém do sertão que sabia de seu posto militar, em desde que ele fugira pra cá, uma trinca de décadas atrás. Era daí, deste modo, que o velho chefe proferiu a ordem nova, inesperada, ao seu lacaio:
– Capaz que nós vamos entrar, sim, agora mesmo, nesse buraco, Calango. Seleciona alguns dos jagunços pra apear com nós, de garantia, caso isto toque de ser cilada. Ora que vamos decifrar apurar o que há, de verdade, nesse treco misterioso.
– Não é melhor meter logo a metralha de bala nesse trem? Acabar de vez com o negócio?
– Não intromete palpite, parvo, e faz já o que eu digo.
Nem não havia que discutir, que o coronel encasquetava de conhecer o segredo da mulher, o dito que ela sabia sobre sua vida. O no ato de poucos minutos, os cangaceiros cruzaram o limiar da porta, engolfaram de sumir na escuridão pavorosa, lancinante, que procedia dali de dentro. A casa, onde então que era o pedaço escroto do mundo, recendia a sua atmosfera enfumaçada, encardida de sombra, nevoeiro, treva. Ali no meio do mofo, da teia de aranha, danava de existir a assombração decrépita, pesteada, daquela velha. Ela ali velava, sozinha, o próprio funeral, cultivava o seu inferno particular – a morta-viva. Donde sucedeu que os homens desceram um lanço de escadaria, o caminho que levava a uma galeria funda, subterrânea, o lá embaixo que a dona da casa estava esperando.
Imagina, então, o momento de topar os olhos com aquela “monstra”: que aquilo era, oxênte, a figura tremenda, grotesca, da bruxa maligna, era que nem a imagem da morte, prestes pronta de nos colher na ceifa, a coisa tal sinistra, hedionda, de arrepiar os ossos. A pele verruguenta cobria-lhe, como máscara, o rosto; os trajes andrajosos; o olhar fulminante; a cachopa esgandeada grisalha na cabeça; os dentes cariados, podres. A criatura facerrugava o seu sorriso cínico, e era a aversão, o calafrio, de retesar os pêlos, de tungar o cuspe pra goela adentro, aquela mochiba de carne a arrastar-se viva, tesa, putrefata, sobre a terra. Era o espírito mal reencarnado, a coruja corcunda, a morcega tenebrosa, que parecia que nem o escarro do demônio, um esputo no mundo, uma aberração.
– T’esconjuro! Donde dos quintos que saiu essa besta renegada, coronel? Ave mãe!
A feiticeira expelia da boca o seu bafo de palavra, saudando as boas vindas ao bando de jagunços:
– Ara, sinhô general, que devo honra demais de vossa senhoria em aqui sob meu teto, mor de consultar comigo essa importância inteira, de vosso interesse.
– Trata de dar na língua, velha, com a informação acertada, plausível, que não sou homem de desperdiçar o prazo com embromação. Desembucha, logo daí, o que vosmecê apraz acasa de saber disso tudo, em desde que chegamos nesse lugar deserto.
– Ora por que – em desde? Ói que o sinhô tira vantagem maior de porfiar no relato mais amiudado, o pormenor da coisa passada, distante.
– Quê que disse? Tu tá fingindo de sonsa? Arreta o papo, direitinho, no que eu desci aqui pra assuntar. Não desvia conversa, megera, que tu periga, de verdade, de levar o balaço grosso nas ventas.
– Que nem que vosmecê costuma de fazer – o de aprontar por aí o zetelo, a anarquia, qual a qual que, só, rende de ser solução mais fácil, mais cômoda, senão? Cuida agora de dar trégua, sinhô general, nesses seus arroubos assassinos!
– Olha o quê, disgreta, que desaforo?!
O coronel que suava frio, perplexo, o cadinho de vez que a mulher danava de chamá-lo de general. O prestes que quase pressionou seu gatilho, na nervosia. Mas o de mais intriga viria ainda de decorrer no próximo descrito da bruxa:
– Aplica reparo atento no caso, todos vancês, que ora irão de conferir de que laia é esse coronel chefe da quadrilha, a história comprida, que os senhores calham proveito de saber. Esse o tal Marciano Pedrosa que, vez na meninice, padeceu de ser retirante maltrapilho, esfomeado, vagabundando por aí, inté bem longe, na cidade grande. O arribado pra lá, concluiu carreira de recruta, sargento, general de farda, de estrela, desde então, o jagunço capacho do governo.
O de ver a cara espantada do senhor Pedrosa, menino, que a velha desfiava o relato acertado, real, de sua vida. Ao como que sabia, vero, do que lhe ia à reminiscência mais antiga, calada. Isto que continuou de distribuir, na sequência, os fatos:
– Oxalá que rompeu conquista de posição, o mérito, o prestígio maior de militância no exército. Tudo o correto bonito de procedência, quando assim que o danado inchou sua soberba, vaidoso, empertigado, de tramar traição contra seu próprio país.
– Fecha a matraca, pérfida mentirosa, que tu tá vacilando da cabeça! Nunca que perco de dar satisfação pra ninguém – o ato que fiz ou deixei de fazer. Ademais, espia só, que meu plano feito correto, consumado, muito melhor que estaria agora a situação dessa política.
A jabiraca, entre o tanto, continuou tacando pau na fogueira, atiçando a brabeza do homem:
– Alembra que coronel deu muita bandeira, sô, de por confiança em falcatrua de malandro, o mal intencionado, o desleal suspeito, que acabou que cabou com o plano de conspiração, farfalhando o futrico por lá, da armação todinha. Ixa, sinhô general, que veio tudo abaixo conta dos mexericos daquele paspalho impertinente, não foi? Desde então que Marciano Pedrosa, criminoso foragido, chegou de atentar importunar a paz por aqui, na região. O bandido tal, macaco velho, que logo aprontou de virar chefão cangaceiro, afamado, que assaltou, saqueou, matou, fez o diabo a quatro neste sertão de Deus.
Oxênte, que tava de pacto com o demo, talvez, a mandingueira bruaca daquela velha, o que que ela narrou seguro, de cabo a rabo, a história do coronel. Os demais jagunços silenciaram de ouvir, inteirinho, o relato, mas sem soltar a frase alguma de opinião, ara tal que punham respeito pela gravidade do caso, o olhar sério, estarrecido, do seu patrão. O homem, ele foi, que perguntou enfim:
– A como de haver que tu conhece mesmo essa memória toda do passado? Só a não ser que dispusesse dos ardis de investigar a vida da gente, senão?
– Ói sinhô, que sobrevivo aqui de praticar as artes de vidência, cartomancia, a coisita miúda, vosmecê percebe, de adivinhar o futuro, ler palma da mão, jogar as cartas, o tarô, consultar os espíritos. Vez ou outra uma benzição, uma reza. Nadinha de nada que aconsigo de ganhar minha merreca de tostão, sabe lá, o povo daqui, uma ridiqueza de doer ... mas cuido, sim, de ir tocando essa vida marvada, oxênte.
O Calango, ladino, inspirou daí de meter a súbita sugestão:
– Êta nóis, sinhô coronel, que se essa feiticeira acomete manha de saber da vida pra trás, nem não admira que ela pudesse destrinchar pra frente o destino nosso, do bando.
– O seu criado assuntou, justo, o ponto, general Pedrosa, que não sou de mermar serviço, e se vosmecê requisita de ter previsão do amanhã, me apraz muito de poder atendê-lo, sinhô.
O cangaceiro anuiu com a proposta, que assumia mesmo curiosidade de averiguar até onde iria aquele troço absurdo, farejava ali pilantragem, enganação.
– Mas imagino que vosmecê não objeta, não, de aguardar o diminuto de prazo, um momentinho só, pra mor de mim transmitir um recado, assim, de envio direto reto para a vossa senhoria.
– Qual ocorre que a senhora tergiversa conversa, não é não? Recado? Mas que porqueira essa de recado?
– O assim que não é mensagem de gente viva, aqui da Terra. Pois procede que tá nos casos de baixar um recado do mundo dos mortos, expedido lá de longe, do além, que um espírito, finado desencarnado, requer de ter palavrinha com o sinhô.
O Mané então que ouriçou peludo, no susto, na surpresa, o de ouvir notícia daquela assombração. Seu coronel, porém, frio impassível, assentiu de permitir a pajelança da velhota, ponto de evocar a coisa medonha, a fantasmagoria:
– É em neste corpo que invém, invocada, incorporada, a dita alma, a entidade. Favorece, então, de por tento no que o espírito enseja de comunicar, meus filhos.
O credo em cruz que aconteceu de haver naquela caverna, menino, à vista dos jagunços, foi a possessão demoníaca da maga urucaca, o transe, a feitiçaria, que logo a velha médium espritou, fora de si, acometida do paroxismo, da convulsão, de abalar a tremura insana por toda ela, aquele corpo. A espritada torcia a vista, zarolha, arreganhava a boca, babando, bufando, grunhindo, naquele sacolejo, naquele espasmo tenebroso, que era de tocar o terror no mundo. A endiabrada entrava, escura, trevosa, no seu colapso metafísico, quando de si que enfezou de despedir a ladainha, a algaravia, um frenesi de línguas desconhecidas, um atropelo demente de palavras. Os jagunços ali ficaram, na ojeriza, a encarar de longe o estardalhaço de ser daquele ritual, os nagôs, os exus de magia negra, que enquanto o espírito tomava o corpo da mulher. O instante longo que foi, a bicha atinou com a conversa inteligível – a voz gutural, fúnebre, emitida do lado de lá, do abismo profundo:
– Quede que de quem que me ouve ô lá de riba? Mais o mais que quem, cujo, me escuta, odônde daí na regalia da vida? Cospe, pronto, a vossa resposta, cabra, que tô de butuca aqui nessa querença de saber.
– Que espírito metido a besta!
Retrucou, de imediato, o coronel, cético, cobra criada, que desconfiava de ser, aquilo, a farsa, a engambelação:
– Ara, sô, olha a descompostura, que tu, intruso no mundo, é que deve de esmiuçar a informação acertada exata de sua graça, o ops que é feito de tu aí na morte.
– O vai de ser que não me atrapalha não, uai, de acatar vossa vontade. Não desaconchego não de obediência, imagina, que depois, na sepultura, a gente esmerila mesmo de baixo servil, sujeito macho aqui pia fino, humilda, é o destino! ... Outrora que foi – ô tempo feliz, sô – que igual que tive essa arrogância de homem, carne, osso, sangue nas veia. Eu respondia pelo chamo de nome, então, de Cassiano Aleixo, capiau do mato, pé rapado, que logo se viu moço novo, troncudo, entestou de se bandidar pro lado de jagunço, do bando de Lampião.
– Nem nunca que ouvi falar desse dito Cassiano na vida.
– Pois lhe asseguro consto, sinhô, que aprontei a riviria sim, fiz o pisêro doido nessa terra. Ara que punha gosto de beber as minha margaça, de foliar à larga, oxênte, nos puteiro arrasta-faca, bailados, catiras, que era dado chegado em saracoteio de dança, em rabo de saia. Pois onde nessas arruaças que cacei contenda, desavença, arrumei bastante briga, de esfaquear o zôto, engatilhar o fuzil à toinha à toinha, naquele poderio, na avacalhação. Porque a causa é que, nessas asneiras e encrencas, é que vim saldar os débitos aqui nesse fosso ardente – o inferno.
– Puxa coisa desgracenta, azaração, ôxe, que me lastimo por demais dessa tua sina. Pecado é senão, assim, essa dívida toda? Mas, ora pois, quê que sucedeu contigo pra mor de vacilar brabo, de bater as caçoletas duma hora pra outra?
– Ah que é história comprida ... uma besteiragem danada! Espia só, que me caí de chamego por uma mulatinha lá do Catimbau, mucama de família, a qual que conheci nessas andanças de cangaceiro fanfarrão, espevitado. Êta rapariga faceira, a Floripa, que era, só, aquele dengo, um pitéu, pêlo macio, moço, que deveria de ver como que ela dançava rebolava o maracatu, aquela bundinha de tanajura, uma provocação, que onde que eu queria me saciar morder, no regozijo, inté me engasgar. A bem que urdi meu galanteio, então, pra riba da pequena, ora de par com ela nos arrasta-pés, nas festanças que se fazia por lá, nos arraiais. Quês noites encantadoras que nós passemo, ido, naquele namorico, naquele idílio, sô, que nem que atinei de me vazar com o resto da tropa, no dia estipulado, que folguei permissão de ficar mais um breve de prazo, tardar de topar com eles depois, no adio de permanecer ali, sozinho, o bobo enamorado. Vixe, que a má da ideia, a teimosia, haveria de me custar caro – eu conto pro sinhô – que ceguei de parar desde toda aquela semana na modorra, na maciota, ói espichado na rede, de boa, levando cafuné de minha nega. Donde sucedeu, então, de aparecer no vilarejo outra quadrilha numerosa de bandido, de jagunço, tocando o comboio por aquelas quebradas. Na mansidão que tava, preferi de não me apresentar, que era tudo cabra meu desconhecido, vindo de outras fadigas, o tamanhão de longe.
– E vosmecê soube notícia, depois, de que tropa era essa?
O coronel, já de si impaciente com a lengalenga do espírito, fez questão de perguntar.
Dessa porção de tanto passado, menino, é que a velha arregalou os olhos e a boca, como se nauseasse de vomitar pra fora a dita entidade. O entanto que ocorreu, porém, é que o espírito prosseguiu relato, pausadamente:
– Ê que me recordo minucioso, dessa mixórdia toda, o nome do chefe cangaceiro. O já hei de nunca de me olvidar daquela danação de homem. Êta, tal, que quem punha o cabresto no bando, determinado, era um sujeitinho sisudo, rabugento, da linhagem dos Pedrosa – Marciano Pedrosa – o nome dele.
Dessa vez o silêncio, o pasmo, que muitos cangaceiros se lembraram, real, de ter tido pouso, vez atrás, no Catimbau.
– Mas não há de ver que foi justo esse Pedrosa, o parlapatão, que deu de se engraçar com a Floripa, minha flor? Desde assim foi, moço, que o coronel pôs reparo na pequena, o ó na formosura daquela mulata charmosa, sedutora, que cobiçou de tê-la como dama meretriz. Coitada da rapariga, que se viu cercada assediada na rua por tanto canalha pistoleiro, onde o tal Pedrosa que mandou ela se arrumasse cheirosa graciosa, que teria a honra de ser sua concubina, a escolhida. Vige santa, que eu então que fiquei, só, uma caninana, o cão raivoso, tomado de cólera, que jurei que acabava com a raça do vilão se ele beirasse perto da minha mulher. Que isso que nada! Que o tinhoso tava possesso lascivo de querer deitar com a Floripa, onde que nem que fosse na brusquidão, na violência. Para daí que eu armei, de pronto, o trabuco, sô, e precipitei pra rua, feroz, mor de dar cabo do bandido. A falta de sorte, que o coronel era que se precavia mesmo de emboscada, não dava as costas, andava cercado de jagunço, na prevenção. Rabeei de longe o bando, inté de me encontrar de face com o calhorda infame. Vontade que tinha era de investir pra riba do indecente, o individo frente ali, mas como?! O de fato que obriguei senão de optar por afrontá-lo direto, de homem pra homem, em briga de duelo, sinhô, que é, por demais, a rinha braba, perigosa, de derramar jorro de sangue. O cabra se possuiu de surpreso, que admirado de minha ousadia, da insolência; ora eu, daquele o de tanto transtornado, que chiei a zanga, o acesso de ira, de me vingar desforra da ofensa feita à Floripa, menina honesta, bondosa, que não merecia de se vitimar da agressão daquele bruto. O Pedrosa, com o desagravo, o insulto, poderia de ordenar a seus capangas que me executassem logo daí, mercê da desfeita que lhe arrojei na cara, que desferi impetuoso, naquela afronta. Mas não assim que se decidiu de covardia, de que treta dessa, por causa de mulher, jagunço se vira de resolver à moda antiga, na selvajaria, onde então que o coronel acordou de assentir com o confronto de macho, dois a dois, o qual exposto na rua, na troca mortal de tiro. Então que, pistoleiros, arrostamos a grossa carranca acolá, no centro do vilarejo, no embora de acertar as contas de homem, na ignorância. Espingardas em punho, opa senão que foi a escaramuça feia danada, de pisotear poeira – o fogo de disparo que comeu solto, passarinho doido fora da gaiola. Assobiando no vento, o canhão de bala zuniu de lado a lado, o estrondo, o solapo, e de mim comigo que arredei ligeiro do alvo, arrastei o canudo na mira, despedi o estribilho de chumbo, moço, mas pois que, infeliz, não logrei de acertar o dito sujeito, astuto, no depressa que se moveu. O desde num repente, então, que senti um solavanco do nada, um cutucão do ar, a clandestina abelhuda da bala, ôxe, que me atingiu de mancha de sangue no peito, o onde que fui ferido, fatal, na fatalidade. Sei somente o daí, seguinte, que caí de comprido rijo no chão, espichado, pé junto, defunto, na despedida do mundo. O assim de ver, sinhô, é que o tanto de tanto que folguei em vida, vim de gemer nesse caldeirão escaldante, o tormento eterno das almas. O pode que me canso de falar, porém, que agorinha é ocasião de vosmecê conceder de apresentar, moço, por favor, vossa graça e condição aí na Terra.
– A bem daí que igualmente que conheço essa história do Cassiano Aleixo, esse jagunço que tu foi em vida, espírito. Mais o é que tu coincide de contar o milagre pro próprio santo: o coronel Marciano Pedrosa, esse mesmo que te expediu de morto, baleado, naquela surra.
– Ói de o quê, seu sacripantas! Que é justo tu que invém de me escutar essa triste descrição?! Êta mundo pequeno, sô! Olha cretinice, que eu presto de tar no confabulo com meu próprio assassino?! Valença, porém, é que de há muito que tive essa manifestança de querer notícia do sinhô. Pois de vez na morte, nem coronel nem general que escapa de aportar nesse covil de demônios. Rénn que aí, sim, que homem brabo aprende o que que é bão pra tosse!
– Vai tombando, sô, que tu, escória, não me assusta!
– Nem não carece de pressa, que vingança a gente come depois que esfriou. Espera quietinho aí, na mansidão, que teu lugar tá reservado aqui conosco. Bem de inhantes, porém, que gostaria de saber o quê que tu aprontou com a Floripa aquele dia.
– Quer dita essa, a safadinha, interesseira, que se trovou direitinho comigo, na prazerança, que nem que lembrou de vosmecê depois de morto, enterrado. O assim que virou uma relança, um entojo no meu pé, aquela ciumeira de sempre, providenciei de me livrar da bichinha.
– Ô sujo excomungado! Que vosmecê ri, agorinha, o luxo de estar vivo, saudoso, em riba da terra. Mas o coronel amarga feio um dia desses, paga tudo que fez, centavo por centavo, chamuscado carcomido nesse braseiro. Ouve daí, que meus amigos saúdam daqui de baixo: o Urubu-Rei, o Tõe Felpudo, o Cão Custoso, o Tinhorão Sarnento, o Barraboso, a Cornicha, a Carabandela, o Cachaço, o Carna-Créu, o Berno da Terra, o Cramanchão, o Salamargo, o Chupa-Corno, o Brucutu. Eles, a horda de animais graúdos, chifrudos, que invêm pajeando o coronel desde todo mau passo que ele dá, quando periga de morte. Pega de reza de terço, sinhô, que o que te aguarda, tententoso, é bicho capeta de tocaia aqui no inferno!
O macabro, que o espírito desandou daí de soltar a gargalhada estridente, credo em cruz que a mais sinistra, que parecia que a legião de vozes cavernosas, por trás, procediam de rir junto, esganadas, na espera, turiando a gente. Deusolivre!
Por essas alturas, menino, a velha veio de sossegar com os petelecos daquela bruxaria, ora que prostrou de chofre no chão, minguada, ofegante, de ter tido o recebido da alma das trevas. O coronel, pois então, via a não ser ali a maracutaia, o feitiço de araque, que tratou de duvidar, enraivecido, teimoso, com ganas de sair na testa com o próprio Satanás, o de meter-lhe o estouro de bala no bedelho. O que cumpriu dessa ameaça tamanha:
– Basta hoje de ser dessa palhaçada, bruxa, que tu é onde que deve de esclarecer melhor tudinho, sem fingir de evocar espírito morto.
– Sinhô general Pedrosa que reluta de crer nos vossos próprios olhos! O que não põe fiúza no relato não?! Pois lhe afianço seguro, ôxe, que vosmecê é quem peca de não escutar o aviso do além, o desse destino aziago nefando, que os voduns iiabás não procedem de fraudar, assim, mentira, enganação. Cuida de se compor feito gente, sinhô, que vossa senhoria, intimado, é que há de lamuriar lá nos quintos, rastejando rasteiro, humilhado, cuspido, mais baixo que verme, o escambau!
– Não latibóca besteira, sua lambisgóia, velha linguaruda! Que tu mesma é que vai de ficar me esperando nesse antro, inda agorinha.
E isto o coronel foi que endereçou pontaria pro crânio da coroca, farto daquela azucrinação:
– Murmura, daí, o seu aodemonho pra vida, criatura, que lhe esfolo já, num supetão, o couro hirsuto que te cobre essa carantonha, velha desgraçada!
– Não precipita de imolar, assim, mais uma inocente, pobre coitada, sinhô, que nem não tenho dedo de culpa nessa sina de futuro, a linha traçada marcada de ocorrer. O tampouco vem de xingar, de graça, esse nome da pelada! Se aconselhe coo mundo, digo, que esse presta de prover, copioso, a suma lição, a sabedoria, o que a gente aprende simples, no descomplico, que Deus, sim, cria a vida – e ao homem basta, por só, poupar, preservar essazinha vida na condição de feita. Que a tal tarefa senão mais fácil do que criar, né mesmo? Odônde, porém, que vosmecê determina de derramar sangue de gente, nessa carnificina de guerra, um dia sofre também de ser abocanhado no susto, o aviso sério. Medita consigo, sinhô, inhantes de me matar, que inda nem previ de coisa importante por suceder, hora em prestes chegando.
– É mesmo, que tu fica devendo inté agora a profecia do futuro, o da tropa inteira, conforme pedido anterior do Calango.
– O destino do bando, o comum, que nem o acontecido com todo cangaceiro que se preze nesse sertão. Agora com o coronel, atenta bastante nos sinais, que sinto presságio de grata surpresa, inda agorinha, nos casos de ocorrer.
– Ara de novo comigo, só, que invocação?! Sê direta, flagelo, de dizer esse destino oculto. A qual danada de surpresa é esta?
– Pois que, longo pra trás, vosmecê que teve folguedo nos braços de muita rapariga, se deleitou de soronga, na sem-vergonhagem, ora na cama de mulher da vida, pistoleira, fandanga, quando que era, sim, freguês velho sabido desses cabarés. Porque onde que o sinhô, nessas gandaias, sucedeu de embuchar nenê numa tal Josefa, do Arraial do Torto. De nem que adivinhou que a rameira, biscate, tava mojando, prenhe de mês, quando vosmecê deu com os cascos de novo na estrada, chispou o passo rumo sertão afora, nessa vida forasteira. Trem ingrato que esse, senão coronel, que foi justo o sinhô que, no meio da fuzarca da zona, acasou de por barriga na quenga, abandonou por lá a Josefa grávida, mamãe solteira. A assanhada, que parecia que tinha fogo no rabo, ora donde que veio purgar sozinha seus pecados, o aperto pior de cruz, que essa veio de inchar o ventre lá dentro da espelunca do bordel, e lá mesmo pariu o pivetinho.
– Ora taí, que tu esgravata passado de que não me acordo de recordar. Isso, sim, é a pilhéria, o despautério: de que como tu vem de saber uma coisa dessa?!
– Na qual da sorte que tá escrita, sinhô, ói que Orixá Oxalufan presta dote de por conhecimento … essas daí, as divindades, o que que vigiam cuidam do passo nosso aqui na terra. Não se admire, ademais, desse branco de lembrança, que foi do caso que se passou bem pra trás, o muito de quase seus trinta anos.
– Pois quão, conforme foi assim, descreve de contar daí, pois, o que e quem que veio de ser do dito fedelho, esse rebento de puta: a que anda hoje de fazer no mundo?
– O pequerrucho, que nasceu o querubim, uma lindeza! A Jozefa, nem conto, que se redimiu de cuidar direitinho da criança, o devia de ver o seu instinto de fêmea, mercê do qual a danada soube, o só, de desvelar-se inteira por ele, dando boa criação. Ora não há de ver que até batizou o menino, de nome Gamaliel.
– E deu desse menino Gamaliel vingar de crescer? De certo que tá hoje homem feito, adulto. O que de vida que sucedeu com esse meu filho, depois que se pelou de barba na cara?
– Ara, isso, sinhô, que eu prefiro de deixar façanha do próprio destino te responder. Não acometo de enfiar o bico em negócio de família. Mas nem carece não de se urgir de curioso, general, que há escrito que jazinho, o brevemente, logo, que vosmecê vem de trombar com o rapaz. Espere só.
– Mais e quando? Onde? Não enrola, mulher, que pra mor de acontecer assim é preciso que um de nós reconheça o outro. Desengole direito essa informação.
– Na cidade fantasma, coronel Pedrosa. Não há de crer que o sinhô tá justamente nesse lugarzinho perdido volta donde o seu filho invém de chegar, num breve miúdo de prazo.
– Qual tu disse, o garantido, que é em naquele arraial abandonado que meu filho pousa pausa de viagem?
– Assim, sim, que coincide de vosmecês topar caminho lá – o encontro de pai e filho – o bem de acordo com o fadário de ambos. As divindades não mentem.
O cru cruento do coronel Pedrosa que dissimulou de acreditar, até ali, na narrativa, menino, cedendo que a coitada da velha prolongasse o assunto. No entanto, logo impacientou de resumir grunhido: “Baboseiras, tudo tapeação dessa charlatã!” De onde que, num safanão, deu com a coronha na moleira da mulher, derrubando-a no chão, já desmaiada. O passado da conta, que desde encaminhou pontaria pra aquela cabeça grisalha, o tiro lhe escapuliu de espedaçar o crânio da bruxa – mísera criatura – que sobrou, só, a cabaça esmagada, o de dentro da qual que supitou os miolos, aquela sangreira. O de pasmar de horroroso, isto, que os próprios capangas do homem que ficaram, desde de ver, cabanados com aquela frieza, a pura ruindade. O Marciano, assassim, que ordenou aos cangaceiros retirada imediata daquele buraco fundo, secreto, que haviam perdido tempo, por demais, sem lograr resposta alguma do mistério que rondava a cidade fantasma. Daí a decisão, que suspenderam o prestes de passo na escadaria, deveras de escafeder-se daquela furna macabra, odienta. O Mané, principalmente, era que suspirava seu alívio: com a morte da feiticeira, concluiu que não tinha mais perigo de rogo de praga, mau-olhado, alma penada e essas demais macumbarias. No entanto, o jagunço foi que arrepiou de receio, temeroso, com o abate violento da mulher, o que nem de animal sangrado frio, na brutalidade. O além do mais que estivera matutando, preocupado, naquele riso bestial da cuja, o descarrego de profecias, premonições, maldições, o espírito encapetado que baixara ali, dentro do corpo dela. E isto o pobre, supersticioso, pegava de rezar ao seu padim, pedindo por proteção. No grave silêncio que se fez, os jagunços cuidaram de descer daquelas grimpas de monte, das escarpas donde se equilibrava a choça antiga da velha, a defunta acolá, sepultada na sua cova. Tocaram galope rápido os cavaleiros, sem soltar ruído, no caminho pra longe dali, quando então que o coronel Pedrosa deu na veneta, de repente, de desviar pra trás sua montaria, ora no rumo de volta pra cidade.
– Vixe, Calango, que me cumpro de mostrar pra vassuncês que é tudo falso, que tem mesmo a maracutaia grossa nesse troço. Simbora retornar pro arraial, passar por lá a noite, que me juro do juízo que não existe filho nenhum chegando, o qual de todo mentira braba, safadeza.
Mas mais não é que o jagunço chefe queria era provar pra si mesmo o engano, o fiasco, que sendo o negócio do menino Gamaliel invenção da bruxa, decerto que a história da condenação ao inferno acometeria também de ser a coisa impostora, fraudulenta. O enquanto desse pensamento, de confortar a ideia, a tropa trotou correria pra trás de novo, num só embalo, até topar vista com a cidade ainda estando lá, sozinhazinha, a quietude no pé do morro, desabitada de homem vivente.
Verdade de ver que os cabras contrariaram pra burro a decisão de pernoitar no povoado, donde o seguinte que todos resmungaram contra, cabisbaixos, no sussurro que só, vez que, vassalos, costumavam de não de questionar ordem de seu coronel. Este, teimoso, entestado, julgou de melhor alvitre parar de permanecer ali, ora mercê de conferir até onde ia o dito previsto pela vidente. A cidade repercutia, ainda, o mesmo eco vindo do deserto, aquele abismo silencioso, solitário. O Calango, apeando do cavalo, encabulou de notar a coisa esquisita, desusada, aperreando seu chefe. Qual o quê que seu Marciano Pedrosa sofria o de seu abalo na consciência, que já dentro acomodado numa casa, pegou de amuo, descabriado, acabrunhado, penseroso, trancafiando-se, só, de aparto dos outros, mor de consultar consigo os raciocínios, a reflexão. Olha o sistema do sujeito, menino, que assumiu de sumir da vista de todos, até o anoitecer. Os jagunços, sem o jugo de mando, então, deixaram-se descansar, espalhados praqui prali, assuntando, discretos, as sucedências do dia. O Mané, aporrinhado de ter de tomar pousada ali novamente, reclamava da cabeça ruim do velho coronel, de não respeitar os augúrios da terra.
– Ara, sô, cuida de dar uma dormida, uma soneca boa, e tu esquece essa história de assombração.
– Esqueço mesmo, mas é o quando que nós vier de raspar o rumo pra longe desse lugar. Sinhô ajuda, moço, que é pra logo.
– Que desova de caraminhola na cuca! Tu só imagina o pior de acontecer.
Por sua vez, o coronel que também ruminava ideia, sojigado, de lembrança do Cassiano Aleixo, aquele espírito amaldiçoado, o qual previu de sua perdição de alma, a tortura do fogo, lá na eternidade. Ôxe que agora, pensando melhor, o cangaceiro cismava de ter ouvido vero, real, a própria voz do falecido, vez que esse descrevera o papo detalhado, o pormenor, a cena fiel de sua morte. Como há de ser da velha ter sabido tanto daquilo, a circunstância inteira? Não entendia a patavina de nada! Por outro lado, porém, que sua fama de jagunço corria mundo, seu nome propalava de conhecido, reputado, de onde que a velha sabia mas de ter apurado lenda, boato, história que o povo conta. E o mocinho filho dele? Como que a tal iria de acertar fato com evento tão remoto, distante? Nunca que nunca, que a bruxa inventava lorota, fofoca, isso sim. “Seu filho Gamaliel viria logo de chegar nessa cidade.” Êta o desfrute gracejo com a cara dele, ora: como que foi pataca, passaroco, de acreditar numa coisa dessa? Mas mais não chegando o moleque seu primogênito, que confirmava de ser, tudo aquilo, o bufado de jegue, a conversinha mole, leviana, imprestável, da boca pra fora.
Ademais, vez em quando que o coronel surpreendia-se de tar variando, no desvario, com baita perrengue no pensamento. Que como ele, um homem feito, racional, cultivado do juízo, que punha crédito naquelas patacoadas?! A garantia que sob o efeito daquele sol brabo, ardente, os ares da região. Ele, cangaceiro: já tava velho para essas coisas. Daí, então, que começou a puxar memória: desde os meados de tempo, sô, que vinha mexendo de ser chefe coronel, dono de tropa. O executo, feroz, de exercer sua autoridade, impor sua própria lei. É mesmo, moço, o né que tinha de preservar sua imagem, bandido durão, de pedra, que não devia de se incomodar com crendeirice de religião, com mãe de santo, essas faroleiras todas, invenção do povo, da ralé. Ora, justo aquela corja, restolho, refugo de gente, a atazanar-lhe a vida? O entanto que a lembrança não lhe saía da cabeça, por mais que relutasse, assim, em uso desses artifícios: a imagem do espírito desencarnado, rosnando ameaça, continuava ali, remoendo, sojigando, feito o espinho de cruz, a piniqueira de urtiga. Ele, homem guerreiro, havia sido, sempre, o forte, o inquisidor, na sua bravura. De jeito que saíra primeiro de retirante, na pitimba, na miséria, e às próprias custas, procedeu de assenhorear-se daquela grandeza: general respeitado, temido, por todo o sertão. Esse o mérito somente dele, pois desde, superior, solene, que era o valor de sua vontade: de dominar os outros, arrogar, pra si, a alta distinção, o poder. O portanto que não compreendia, de repente, aquela fraqueza de consciência, aquela prostração de ânimo. O inferno, esse não, não existia. Somente, sim, para os frouxos, os retardados, os escravos, os párias, a escória da raça. Ó o palavrório dos sacerdotes que servia, só, para separar os homens verdadeiros dos covardes, dos fracos, o que estivesse acima daquele ranço, marasmo, aquela sujeição de ovelha. Paciência, que competia de ficar na cidade abandonada, por enquanto, que o mancebo seu filho em não chegando, revelava de ser tudo a armação, a tramóia trapaça daquela trambiqueira.
A sombra da Terra, porém, hora tardou de estender seu manto por aquelas bandas – upa – quando então que a noite fez montaria sobre esse sertão xucro, selvagem, difícil de domar. Olha que nós, assim, é que acabamos que nem essa coisinha mesquinha, mixuruca, no meio do mundo. É de noite que o olhar da gente mede, menino, a estatura do céu, a imensidão. O coronel, por essas, ainda encafifava ideia, naquele descabreio, recluso, trancafiado no quarto. Quando em fé que, de repente, o Mané, justo ele, estralou o berreiro, a gritaria, que tinha finalmente dado de lembrar do velho da fotografia, reconhecera o pessoal que guardava postura de vigilância, na sala, os retratos na parede. O susto que foi, os jagunços apressaram pra lá, na deixa de topar com o homem na tremedeira, os olhos esbugalhados, apontando dedo pra imagem.
– Quê isso, moço? Endoideceu, é?
– Êta tá besta, palerma, que deu consigo de ensimesmar, impressionado com esses quadros? Se se deixe de tolice. Nem não existe fantasma nenhum: história.
– Ara, calem a boca, seus pagãos! Que vassuncês agora é que tratam de acreditar. Esse velho amaldiçoado da foto: eu bem que atinava de ter conhecimento com ele. Mas desde agora que alembrei: que esse é um tal de Severino Pandoreba, sujeito que eu sangrei na faca, há bem de alguns anos atrás. Espia só as faces do cabra, é ele mesmo, igualzinho que tava aquele dia que nós nos estranhamos, desentendidos, onde foi que armamos a briga feia, bravia de morte.
– Ôxe, que tu fala, por demais, esparolado, na afobação. Se acalma, daí, de explicar melhor.
– Esse um que deu de me encarar no arranca-rabo, o furdunço na rua, sô. Cruz-credo, que lhe enfiei a peixeira no lombo. A coisa que foi: sangrou até morrer.
Mas o enquanto que o Calango se assuntava com o medroso, tentando tranquilizá-lo, o Zeferino surtou, semelhante, de reconhecer outra figura lá, de cara estampada nos retratos.
– Êta trem disgramado, sô, que esse branquelo aí acomete de ser, também, um que assassinei no furo, baleado, em meio de tiroteio.
– Olha o quê, Zeferino, que aquelazinha rapariga, igual na foto, é a desavergonhada com quem eu vivia amancebado. Cêbesta, que quando lhe peguei na cama com outro, me botando os cornos, meti bala, sem dó. Tava tão distraído, inhantes, que nem reparei que era ela.
E assim, seguido, que o Laurindo, o Evandro, o Expedito, todos, desataram de espanto, aturdidos, que perceberam que cada retrato mostrava um falecido diferente, morto por eles. Oxênte, que foi o fim da picada, a situação cabulosa, de atordoar a ideia, menino, o visto daquele morticínio, a imagem de tanto cadáver lá, pendurado nas paredes. Os jagunços aprontaram, assim, a barafunda, o alvoroço:
– Que inferno desse lugar! Vixe, que eu suspeitava, de sempre, que essa cidade viria de trazer desgraça, a calamidade!
– A maldição da hora que viemos de trombar com esse sítio mal-assombrado!
– Isso é praga daquela feiticeira! Tava na cara: aquela dali fez pacto com Belzebu!
O coronel, bruto aborrecido, foi então que irrompeu sala adentro, saiu na testa com os sujeitos, imprecando:
– Que ocorre com vancês, seus rudos estabanados?! Que papelão esse de cangaceiro, barbado, fazendo confusão, bagunça, que nem criança?
O Calango acudiu voz de explicar o caso, gaguejando indeciso, apavorado, que havia reconhecido num quadro, também, o rosto de inimigo seu, morto por suas mãos, numa tocaia.
– Mas que cafifa! Tem cabra assim, bobo-que-urra, dando trela pra superstição! Os senhores estão é delirando, abalados dos nervos, sob a má impressão que tiveram daquelas bruxarias.
E isto assim, determinado, foi que o coronel se armou da garrucha, disparou que nem um possesso na direção das fotografias, destruindo uma por uma, naquele estrondo, mor de por fim na arenga.
– Chega dessa conversa! Não quero de escutar nem um piado a respeito desse negócio. Não bitola daí, que passa de ser tudo papo furado, a patranha lenda dessa gente lunática, imbecil. Vancês rendem mesmo é de birutas, doidivanas, com esses causos de espírito, mandinga, magia negra. Tudo ilusão, coisa mentirosa, inventada por aquela bruxa charlatã. Ora meteram na cachola essas histórias, e estão aí a impressionar, a encucar à toa, sem precisão. Da agora pra diante, mais concertado é da gente puxar a palha, o cochilo, descansar o corpo, pra amanhã decidir o que fazer.
Ói dito que, esse, condicionou de ser a ordem expressa, o mando, então, de rechaçar os sujeitos pra cama – sossegar a cabeça do dia agitado que tiveram. Mas adormecer que nada, menino! Que cada qual se acudia ali era daquela gastura, aquele peso na consciência! A calada da noite se convertia, daí, em silêncio de luto, a estranheza, o sobressalto, só, imersos na escuridão. Lá de fora, as lufadas do vento, soturnas, abafadas, rangiam de colidir na ossada bamba dos tapumes, das tábuas. O luar tocava a sua ronda lenta, vagarosa: o plenilúnio, ora dentre as nuvens, a neblina, caía em borbotões de luz sobre a terra quieta, a cidadezinha. Na noitada muda, monótona, o tumultuo de sombras invadia dentro os casarões, quando daí que sucedeu da mente titubear de sono: hora desmaiaram todos ali, num só torpor, esquecidos da vida. Como diz o outro: vieram de roncar numa sonolência profunda, de pedra, o durante de prazo, que nem atinaram com o trem absurdo, petecado, que se passou no meio da noite – a obra furtiva, oculta, maligna, que ocorreu de acontecer sob as trevas.
Oração nos valha, menino, que essa fez jus de misteriosa, sombria, onde então que a própria cidade não amanheceu, devido acolá, ao pé do morro. Duma hora pra outra na madrugada, só podia ser. Desde num repente que o arraial, completo, desapareceu que nem uma miragem, uma alucinação. Naquele dia, o deserto rompeu vazio, soprando, amiúde, um lastro de solidão, de coisa morta, desolada. Imagina, sô, que o primeiro jagunço, ao despertar, ofuscou de perceber sobre si a manhã raiada, iluminada, sem um telhado nenhum para cobri-lo. O caboclo ainda esfregou os olhos, descrente, mas veio de topar de novo com o mesmo sumiço total, sem vestígio algum das casas, dos sobrados, onde se conteve a custo de aflito, no desespero. Daí, assim, que o resto do bando despertou, ora no susto tremendo, no choque de se pegar dormindo no chão de terra, na poeira. O surto, o repelente, que acometeu de embasbacar os cabras, que só, pra mais, articularam razão, de balbuciar:
– O que diabos é isso, coronel? Estamos acordados ou sofrendo pesadelo?
– Êta porqueira, sô, onde há de ver que a cidade se surrupiou inteirinha do mapa?!
– Foi, de pronta, pro beleléu, ou nós que embriagamos, varridos, com manguaça na cabeça?
O coronel, ranzinza, estropiado de ter dormido no chão duro, nem apurou palavra daquela vez, que só pensou na maluquice daquilo, o da cidade sumir desaparecer assim, sem pista, sem pegada, que nem fumaça no vento. Ficou cabreiro por demais, o homem, que quase até que entregou de admitir sua perdição, pressentindo, pesado, o alarido o labordo dos infernos, a presença dos demônios ali, esgolepados, querendo se saciar de sua alma. “Mas cuida daí, Marciano, devagar com o andor. Não pede arrego, assim, de inhantes de analisar, minucioso, o caso”. O danado ainda tentava se convencer de explicação concreta, racional, o atribuindo à canseira, à fadiga, o tamanho daquela alucinação. “Que tudo bem poderia de ser o delírio deles todos juntos, a agitação, o distúrbio coletivo, que estavam todos ali, indefesos, sugestionáveis, se influenciando, prestes de botar crença naquela doideira. Só poderia de ser, ora pois, que por artes da faina de viageiro, a correria pelo sertão afora, o ardido do sol, haviam fraquejado do juízo, de sonhar com bruxas, espíritos, fantasmas. Iludiram a vista com mera fantasia, quimera, o diacho!”
– Carniça desse negócio, que cada vez é dado de complicar embrulhar a cabeça da gente. Não tem cabimento: inda agorinha que pousamos justo aqui, hospedados numa cidade, uma de apalpar de verdade, que existia, de se pegar! Pro donde que se escamoteou essazinha da terra?
– É a vingança da jabiraca, sinhô coronel. Ocorre que ela praguejou desastre, catástrofe, no nosso destino.
– Mas inda inclino de suspeitar, Calango, o desconfio prudente, sábio, de estarmos ludibriados dos próprios sentidos. Não afianço nessas artimanhas, que a mente mesmo é quem amarra o nó cego na ideia, enfia coceira de comichão na cuca. Abre o olho, inhantes de desesperar. Valença é que não resultou mesmo conforme o futuro previsto pela velha. Outro tal motivo de ser tudo, tudo, a mentira deslavada! Vamos tratar, daí, de regressar pra estrada, o quanto mais cedo, melhor, ora pra longe desse lugar.
O ínterim dos cangaceiros apressarem de selar seus cavalos, recolherem os alforjes, as armas, ocupados, por demais da conta, no desaviso do que estava ainda por acontecer. Prestes que, de repente, quando um tal de lá, o Deusdário, apurou vista na direção do morro, o seu chapéu voou roto, esburacado, mal o balaço certeiro estourou-lhe por riba das orelhas. O jagunço, no susto, jogou-se no chão, tonto, desorientado, ensurdecido. O tiro, em vindo dali de cima, perto, foi oportuno de alertar o bando do perigo:
– Quê isso Coronel?! Aparece de lá que estão atirando em nós?!
Então, daí, que alguém, escondido alto, lá na anca do monte, pronunciou ordem de prisão, dos bandidos se renderem imediatamente, que era de parte da polícia. Ora em volta que os jagunços, pressurosos, se viram encurralados: um mundo velho de homens, armados até os dentes, fazendo cerco no grotão. Estava ali, estatal, bélica, a chusma de policiais, milicos, cumprindo missão de acabar com a raça de bandoleiro, vagabundo, aquela praga toda!
– Vige senhora, que o lugar tá infestado de macaco, coronel. Estamos fritos!
Cebêsta que era, sim, o batalhão de soldados, menino, os quais procederam de se tocaiar sob as rochas, na posição de combate, mirando pra baixo os canudos de ferro, bojudos, aquela ameaça. A enrascada em que tinham se metido os caboclos, que tavam encantoados ali, na mira, sem jeito de evadir, prestes de morrer que nem a presa sobre a qual se lança, no bote, o predador.
– Ixa, que tamos lascados, compadres!
Mas da onde, moço, que o coronel Pedrosa viria de se entregar sem resistência – homem cabeçudo, ignorante, que logo se entrincheirou numa das escoriações do terreno, revidando bala. Proeza, então, que surtou do resto do bando reagir também, assinalar de refúgio nas pedras, nos barrancos, nos cactos, o qual de desferir, naquelas guinadas, a rajada de tiro, a labareda. Desde assim que eclodiu, só, o bombardeio, o pandemônio da guerra. De ambos os lados que estrugiu a artilharia, a mangada de bala, estrepitosa, picando em fatias, em estilhaços, a piçarra cascuda, dura, dali do morro.
O Virgulino, azarento, senão que antes de se proteger foi pego, queimado de tiro na barriga:
– Desgraçados, me acertaram!
Tal qual que o bandido se estrebuchou no chão, sangrando feito um suíno, a boseira de sangue e tripa que lhe ensopou o corpo, escorrendo fluida pelas canelas. Mas era daí que a escaramuça acirrava, recrudescia, que nem nenhum dos jagunços se atreveu de socorrer o ferido. Oxênte, que o trabuco, em punho da polícia, vociferou real o seu cuspo de fogo. Imagina: essas pestes, avoando, se avizinham de nós, menino, o enxame de balas zumbidoras, de letal ferroada – ricocheteia, ribomba, estronda, esfola a rabeira das pedras – desde até que dilacera na testa dum, esburaca a carne viva desse daquele, o qual, caído espichado, se acoitada ali, abraçado com a morte.
Assim veio de suceder que fincou uma daquelas no peito do Iolando, outra nas costelas do Frojoca, a fuzilaria maciça dos milicos, metralhando solta, foi efetuando as baixas crescentes, constantes, na quadrilha do coronel. Estes, os cabras, acuados, ora se esconderam como puderam, de cata cavaco, agachados, deitados, mercê de travar aquela luta desigual, aquela peleja. Os disparos, tinindo brutos, dizimavam, encarniçavam, onde na toada que provocaram o susto tremendo nos cavalos, o escarcéu, que os bichos altearam o relincho, a poeira, a carreira doida, a debandada deserto afora.
O enquanto isso, o que constituiu era do Jasão, maníaco, escalar com as garras sua posição no morro, onde veio de lobrigar os inimigos, cedendo bala, à queima-roupa, em tudo quanto foi de macaco polícia ali, no seu caminho. Ôxe, que a tropa do coronel iria de despicar sua vingança, de nem de deixar barato a morte dos companheiros. Outro um dos tais pistoleiros, o Mané, se seguiu bem no encalço do Jasão, o então servido da navalha que, logo, decepou o talho no pescoço do primeiro soldado que cruzou. A algazarra frigiu, só, um sarapatel danado, de exacerbar-se desfiladeiro acima, onde que os jagunços reenvidaram ataque, menino, de estufar a envergadura por sobre o exército adversário. Desde o que, tal, que foram abrindo a sua passagem sangrenta, ora deixando no chão o repleto de cadáver, de moribundo, esse massacre todo. Isto o concluiu de repelir, por momentos, aquela guarnição de sujeitos fardados, frente ali, na dianteira da batalha. Mas só senão, o prazo, que a segunda remessa de soldados apontou no alto, apertando o cerco, o esparramo de homens em volta, assim em novo pelotão, dobrado de mais numeroso.
Sói de reto que arrastaram a chuva de projétil pra riba dos cangaceiros. A saraivada de chumbo, o credo de bala que tolheu o passo do Simas, do Laurindo, alvejados. O nego Jasão, na circunstância, acabou varado de pipoco de tiro: seu corpo, lambrecado de sangue, caiu pela goela da ribanceira abaixo feito cachaça numa talagada daquelas, de aguar os olhos! Onde que acarretou, demasiado, o risco, o perigo, que tiveram os bandidos de recuar, sob o estampido grosso, em polvorosa. O Mané, mocado nas pedras, ainda ocorreu de degolar outrozinho de lá, um mequetrefe, pelas costas. Mas ara, que na hora de saltar de banda, na fuga, vitimou de ser pego pelo tornozelo, o quando que num só repelão, foi arremessado nas rochas, num baque surdo, que nem um boneco, um trapo velho à toa. Mais, vixe, que o tempo apenas do homem praguejar “que diabos”, que logo percebeu sobre si um marruco de homem, um butelo de soldado, caçando briga a pêlo, o tanto só de bruto, no muque. O lobo ligeiro do Mané que catou depressa, no chão, a navalha, fresca de sangue, pra se defender. Pois porém que se engalfinhou na luta com o grandalhão, sungando alto o punho, mor de lhe desferir o rasgo mortal da lâmina. Onde assim que o jagunço rangeu os dentes, ao se atracar de corpo com o brutamontes, o qual rijo, robusto, premia cerrava forte, agarrando seus braços. Rasteira que os dois se deram, desabaram no chão, revolveram, embolaram no pó, no cascalho, então até que o polícia montou arriba o jagunço, afuleimado, assassino, já de posse da arma, já com o punhal a mergulhar de finca no peito do Mané – este no custo, no triz, segurando, arfando, gemendo, impedindo o golpe. O baita esforço, entretanto, lhe foi inútil, vão que os braços de aço daquele troncho do gigante foram descendo devagar, pendendo caindo, lentos, lentos, até lhe cravarem a ponta afiada no tronco, enfiar-lhe banha adentro a friagem do ferro. Êta o grito de dor do Mané, menino, que deu sinal mesmo da derrota breve de suceder, a da quadrilha.
O que sobrou ainda de cangaceiro era só, de ver, aquela precata de homem abatido, ferido, aleijado, em frangalhos, uns estafermos de gente, sem saída, lutando, no desespero, pra se safar vivos dali. Deveras que a tropa policial avançou dessa vez sobre os miseráveis, arrojando o disparo, chuchando bala nas gretas donde tavam, os tais, encantoados. Ô sina bruta, que caboclo criminoso rastejou, roçagou, autografou ali – foi com o sangue – o farelo grosso da terra. Os olhos do coronel Pedrosa atualizaram então, prestes de ser, a morte. Conduziu de revidar, ainda, uma bala no desenlace de avanço dos soldados, ao que os tais responderam com a metralha, a artilharia cerrada, em profusão. Oxênte, que apararam o vento, sobre ele, as mil lâminas cirurgiãs, afiadas, cada qual no espaço os mil botes de serpente, destilando morte, riscando trajeto sobre sua cabeça. O Calango, cambeta, omitiu de cascar pé dali, quando o tiro fisgou-lhe adentro afora as costas, onde o pobre encaçapou de novo pro fundo do buraco, a sua cova. Desde, não há de crer que o coronel resistiu até esgotar, por fim, sua munição, assim porque de o cabra ser rendido prisioneiro, atado amarrado, o último sobrevivente dos jagunços.
Levado em presença pra ser linchado, menino, o coronel Marciano Pedrosa admitiu de cerrar, pra sempre, a voz, quedou mudo, taciturno, esperando o fim. Mas daí se conta, por todo esse sertão, que o coronel sorriu sarcástico, mesmo então de ver a cabeça dos seus capangas decepada, fincada macabra nas estacas, os cabelos ao vento. A decapitação de bandido era, no tempo, modo de inibir prática de cangaço, revolta que houvesse, qualquer daquelas, contra a lei. O coronel ora por que, então, que serenou prazenteiro, desabafou seu ufa, o riso largo estampado na carranca? Ói diz o outro, menino, que folgou de conferir o dolo, o logro naquela profecia, dita inhantes, pela bruxa. Ara que não havendo filho nenhum, dele, o resto da história provava de ser tudo batota, invenção, mentira. O resulto de sua condenação ao inferno sendo também parte da burla, a papironga braba daquela íngua velha, caduca. Mas onde, na ocasião, que chegou ali o tenente policial, o qual que dirigia a palavra de comando, proferindo ordem de rematar, de vez, o fuzilamento. Coronel Pedrosa veio, que decidiu de olhar bem pra cara do seu carrasco – rapaz novo, distinto – outrossim que se atrevia de mandar linchar um general de escalão, um chefe nato, da sua importância. Pois daí acredite, menino, que logo antes um subalterno achegou de interpelar o moço, soltando alto, claro, o nome do sujeito:
– Tenente Gamaliel, que esse um parece de ser o cangaceiro principal, capitão da tropa.
– Melhor se diz, ora pois, que o serviço hoje rendeu bom proveito, senão?
O coincidiu de o coronel discriminar, ouvido atento, as sílabas fatais daquele nome “Gamaliel” ditas o bem próximo ali, na sua frente. Tanto, que obra efetivou de acontecer o tal encontro esperado – o pai e o filho, um o inimigo do outro, o destino feito, conforme acontecido. Tenente Gamaliel – filho de puta que ele próprio tinha embuchado, a bem pra trás nos anos. Sinhô se avie sinhô: estranhar jamais o quê, que o sertão presta de ser, só assim, essas sucedências. Arrupêio de contar, moço, mas o coronel foi morto a bala, nesta hora, sem uso de venda na vista nem nada. As mãos amarradas, detidas: queria de ter sinalizado a cruz na testa quando, enfim, expirou. Os olhos estatalados como se visse, de fato, o que há depois da morte.
FIM










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