Heidegger e a Questão da Técnica
Heidegger e a Questão da Técnica
Heidegger questiona a respeito da técnica. Diz o filósofo que todo questionar constrói num caminho e que é preciso considerar, sobretudo, o caminho, e não ficar preso às sentenças e proposições.
O que ele quer dizer é que todo questionar passa pelo modo de ser do homem (o Dasein), que é justamente aquele que faz a pergunta. Passando pelo homem, será possível tornar livre o nosso relacionamento com a técnica, chegando à sua essência.
É importante assinalar, de início, que a essência da técnica não é algo técnico. Essência designa aquilo que algo é (quid), não é algo, portanto, individual. Não podemos permanecer limitados aos objetos técnicos e esperar encontrar neles a sua essência enquanto objetos técnicos.
Uma lição que vem dos antigos diz que a técnica possui duas características: ela é um fazer humano (instrumento) e um meio para fins. Heidegger diz que essas duas determinações estão corretas, sem dúvida. Elas são tão corretas que se aplicam até mesmo à técnica moderna.
Mas Heidegger diz que essa constatação, para ser correta, não precisa descobrir a essência do que se dá e apresenta. E só quando ocorre a descoberta da essência é que se dá o que é verdadeiro em sua propriedade. Para chegar à essência, é preciso escavar por trás do correto e arrancar do fundo o verdadeiro em sua propriedade.
As outras perguntas que se colocam são:
O que é o instrumento? O que são meios para fins?
Instrumento é um meio para a obtenção de uma finalidade. A isso corresponde causa e efeito, pois causa é o que gera um efeito. Precisamos esclarecer, portanto, o que é a causalidade.
Na filosofia tradicional, ensina-se há séculos que existem quatro causas: a causa material (causa materialis); a causa formal (causa formalis); a causa eficiente (causa efficiens); a causa final (causa finalis).
Heidegger usa o exemplo do cálice para ilustrar isso. A causa material do cálice é a prata de que ele é feito. A causa formal do cálice é a sua forma, é o seu aspecto, é o princípio de organização da matéria, a qual lhe confere o formato, a sua configuração enquanto cálice.
Heidegger considera que essas determinações estão corretas. Mas falta escavar por trás do correto o verdadeiro em sua propriedade. Para isso, Heidegger faz uma análise etimológica a fim de esclarecer o que os gregos tinham em vista quando falavam das quatro causas. O conceito das quatro causas ainda é obscuro e exige um esclarecimento, uma explicitação da sua essência e da sua verdade.
Na modernidade, os filósofos passam a priorizar a causa eficiente, e essa atitude vai tão longe que já não se considera mais hoje a causa formal e a causa final como causas. Mas o que os gregos na antiguidade tinham em mente quando falavam de causa não corresponde à concepção moderna da causa eficiente. Na verdade, a concepção dos gregos não tem nada a ver com a eficácia e a eficiência de um fazer.
Para Heidegger, as quatro causas são quatro modos diferentes de “responder” e “dever”, era assim que os gregos enxergavam as quatro causas.
Heidegger volta ao exemplo do cálice para ilustrar a causalidade como modos de responder e dever. Nessa concepção, a prata, a matéria do cálice, responde por ele. O cálice, por sua vez, deve à prata aquilo de que ele consta e é feito. A forma do cálice responde por ele, dando-lhe o formato de cálice e não o de um broche ou de um anel. O cálice deve à forma o que ele é, como cálice, diferente de um broche ou de um anel. O télos, por sua vez, que é a finalidade, o objetivo final ou meta do cálice, é responsável por ele, colocando-o na esfera do sagrado e da libação. O télos circunscreve o cálice como utensílio para sacrifício, ele finaliza, acaba, termina o cálice em sua completude, em sua plena realização.
Por último, a causa eficiente, que é um quarto modo de responder e dever que reúne os três modos anteriores numa unidade. Esse modo de responder é o ourives, o artesão que produz o cálice.
Os quatro modos de responder e dever respondem pelo dar-se e propor-se do cálice, isto é, pela sua manifestação, pelo seu surgimento. Dar-se e propor-se, para Heidegger, designam a vigência do cálice, o fato de que o cálice está em vigor, em pleno advento de si como cálice. O dar-se e propor-se do cálice levam alguma coisa a aparecer, a partir daí eles deixam o cálice viger, vigorar.
Heidegger então se pergunta como se articula o jogo dos quatro modos de deixar-viger. O filósofo responde que os quatro modos deixam que algo que não era vigente chegue à sua vigência. Eles conduzem algo até o seu aparecer. Conduzir algo até a sua vigência significa produzir. Pro-duzir: conduzir alguma coisa em favor de seu aparecer. O deixar-viger, portanto, é uma produção (no grego: poiesis).
A produção, tal como concebida pelos gregos, é a confecção artesanal (o fabricar de um sapato, de uma casa, etc.), mas também é a criação artística e poética (de uma pintura, uma estátua, uma poesia, uma música, etc.).
Mas, para os gregos, a phisis (a física, a natureza) é também uma produção, inclusive, é a produção máxima. Mas reside aí uma diferença: a poiesis é uma produção artificial, é obra de um artesão ou artista, ao passo que a phisis é uma produção a partir de si mesma, algo que emerge naturalmente, que irrompe espontaneamente.
A produção, ao fazer aparecer e apresentar-se algo, é um movimento de condução do encobrimento para o desencobrimento. A produção só acontece quando algo que estava encoberto é levado ao seu desencobrimento. Os gregos tinham para designar isso a palavra aletheia, que Heidegger traduz por verdade. Na visão do filósofo, a palavra aletheia designa um desencobrimento, um desvelamento, um descortinamento. A verdade então é concebida como a condução de algo encoberto ao seu desencobrimento. A produção, a técnica, é um desencobrimento, pois leva algo que antes estava encoberto, velado, oculto, ao seu desencobrimento.
A técnica, ao ser um tipo de desencobrimento, pertence ao âmbito da verdade. A techné é uma forma de tornar verdadeiro, na medida em que des-encobre aquilo que é incapaz de produzir-se a si mesmo e ainda não se dá e propõe.
Mas aqui pode surgir a objeção de que esta determinação da técnica, como verdade, vale para a antiga técnica artesanal e não para a técnica moderna, cuja característica é a máquina e a aparelhagem. E diz Heidegger que é preciso questionar a técnica moderna, pois foi justamente esta que nos sufocou e nos levou a perguntar pela essência da técnica.
A técnica moderna se apoia na ciência exata da natureza. A física matemática moderna depende de aparelhagens técnicas e do progresso tecnológico.
A técnica moderna é também um desencobrimento. Mas este desencobrimento não é desenvolvido no sentido da produção poiética. Esse desencobrimento é uma exploração, o qual impõe à natureza a exigência de fornecer energia e de armazenar tal energia.
Quando se explora a terra para que ela forneça carvão e minérios, ela se desencobre como depósito, como jazida. O homem dis-põe da natureza, quer dizer, a natureza está disponível para a sua exploração.
"O desencobrimento que domina a técnica moderna possui, como característica, o pôr, no sentido de explorar. Esta exploração se dá e acontece num múltiplo movimento: a energia escondida na natureza é extraída, o extraído vê-se transformado, o transformado, estocado, o estocado, distribuído, o distribuído, reprocessado” (HEIDEGGER, Martin. A questão da Técnica. In: Ensaios e Conferências. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão. Editora Vozes, 2012, p. 20).
Todos esses, diz Heidegger, são modos de um tipo de desencobrimento: o desencobrimento explorador. A técnica moderna é dominada por um tipo de desencobrimento que é o explorador, que dis-põe da natureza, que arranca dela energia e recursos que serão armazenados, estocados, acumulados.
A natureza assim é desencoberta como disponibilidade, ela se entrega à exploração. Essa disponibilidade, por sua vez, desafia o homem a explorar.
Evidentemente, é o homem que exerce a exploração que desencobre o real como disponibilidade, mas este desencobrimento não é produzido pelo homem. O homem, quando desencobre o real, responde ao apelo, ao chamado daquilo que está encoberto e que solicita ser desencoberto. O homem limita-se a atender a este apelo, ele escuta o chamado e atende a ele.
Heidegger chama de composição a “este apelo de exploração que reúne o homem a dis-por do que se des-encobre como disponibilidade” (Ibid., p. 23).
A composição é o tipo de desencobrimento que predomina naquilo que rege a técnica moderna. Na técnica antiga do produzir, domina o pro-por produtivo, ao passo que na técnica moderna domina o dis-por explorador. “Ambos são modos de desencobrimento, modos de aletheia” (Ibid., p. 24).
Na idade da técnica moderna, o homem vê-se desafiado pelo apelo da composição a desencobrir o real dis-pondo dele como disponibilidade. Ao ver-se desafiado, o homem se entrega ao seu destino, ao seu envio para realizar o desencobrimento. A essência do homem se revela como este que está destinado, que é enviado, este que escuta ao chamado daquilo que está encoberto para desencobri-lo, para trazê-lo à clareira, ao horizonte do ser.
Isso constitui um perigo para o homem, porque, na mesma medida em que dis-põe, ele pode ocultar a sua essência de homem como aquele que atende ao chamado do desencobrimento. Nesse caso, o homem passa a tomar a si mesmo, a entender a sim mesmo, como disponibilidade também. Quer dizer, o homem pode tomar a si mesmo como algo disponível para exploração. Para Heidegger, isso é o extremo perigo.
Mas como o homem então pode ser salvo desse perigo?
Aqui, Heidegger evoca um poema de Hölderlin:
"Ora, onde mora o perigo
é lá que também cresce
o que salva".
Para Heidegger, salvar significa atingir a essência da coisa, fazendo com que tal essência apareça em seu brilho. Mas essência não é tomada por Heidegger no sentido tradicional, como aquilo que designa o que a coisa é, a sua definição, etc. Essência é um essencializar (modo em que vige e exerce o seu ser), é algo duradouro, algo que perdura, é um continuar a conceder. Nesse sentido de essência, dizemos então que “somente dura o que foi concedido. Dura o que se concede e doa com força inaugural, a partir das origens” (idem, p. 34).
Assim, há a possibilidade de que aquilo que salva esteja presente na própria técnica como algo duradouro e concedido nela.
Outro verso de Hölderlin é citado:
"... poeticamente
o homem habita esta terra".
Heidegger enfatiza o que Hölderlin quis dizer com "poeticamente". Quer dizer: a poesia é própria do homem. Antigamente, a palavra techné não designava apenas as artes produtivas, de fabricação, mas designava também as belas artes (pintura, escultura, poesia). As belas artes eram um modo de revelar o belo, o verdadeiro, de fazer iluminar o brilho da verdade através da beleza.
Assim, o homem tem a tarefa de pensar se é nas belas artes que reside o brilho da essência da técnica que constitui a força salvadora que liberta o homem de sua tendência de tomar a si mesmo como disponibilidade, encobrindo a sua essência enquanto homem.
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