ESTUDO LITERÁRIO (POESIA) - O SONETO E SUAS FORMAS
I. APRESENTANDO O SONETO
Soneto (do italiano sonneto - pequeno som ou pequena canção) é o nome que damos a um poema curto de forma fixa composto de 14 versos divididos em 2 quartetos e 2 tercetos e que costuma fechar no último verso com chave de ouro. Fechar com chave de ouro significa produzir no último verso uma “impressão” mais forte no leitor, seja por meio de uma bela imagem, de uma relação, de uma surpresa, de uma oposição, de um paradoxo, de uma combinação ou jogo de palavras, etc.
Os versos do soneto são na maior parte dos casos versos metrificados, quer dizer, cada um dos 14 versos é constituído de um número determinado de sílabas. A forma mais usual de soneto é o decassílabo (no qual cada verso deve possuir 11, 12, 13 ou 14 sílabas). Os decassílabos se incluem na classe dos versos alexandrinos. Chama-se "alexandrino" por ter sido metodicamente empregado na composição da famosa obra Roman d' Alexandre lê Grand, -- poema começado no século XII por Lambert Licors, de Châteaudun, e continuado por Alexandre de Bernay, trovador normando do mesmo século.
Exemplo de decassílabo:
Ou-vi-ram do I-pi-ran-ga as mar-gens plá-ci-das (14 sílabas).
De um po-vo he-rói-co o bra-do re-tum-ban-te (14 sílabas).
Al-ma mi-nha gen-til que te par-tis-te (11 sílabas)
Tão ce-do des-ta vi-da des-con-ten-te (11 sílabas)
A métrica é que regula o ritmo e a musicalidade da composição.
O Soneto foi criado na Sicília no século XIII. Ele se divide em dois tipos: (i) italiano ou petrarquiano; (ii) inglês ou shakespeariano.
1) Exemplo de soneto italiano ou petrarquiano (cultivado pelo poeta italiano Francesco Petrarca, 1304-1374).
SONETO III
Se a minha vida do áspero tormento
E tanto afã puder se defender,
Que por força da idade eu chegue a ver
Da luz do vosso olhar o embaciamento,
E o áureo cabelo se tornar de argento,
E os verdes véus e adornos desprender,
E o rosto, que eu adoro, empalecer,
Que em lamentar me faz medroso e lento,
E tanta audácia há de me dar o Amor,
Que vos direi dos martírios que guardo,
Dos anos, dias, horas o amargor.
Se o tempo é contra este querer em que ardo,
Que não o seja tal que à minha dor
Negue o socorro de um suspiro tardo.
Na forma cultivada por Petrarca, as rimas seguem sempre a mesma ordem:
No primeiro quarteto: ento / er / er / ento (abba).
No segundo quarteto: ento / er / er / ento (abba).
No primeiro terceto: or / ardo / or (cdc).
No segundo terceto: ardo / or / ardo (dcd).
Chamaremos à forma petrarquiana (abba abba cdc dcd) de forma clássica pura.
2) Exemplo de soneto inglês ou shakespeariano (cultivado pelo poeta e dramaturgo inglês Willian Shakespeare, 1564-1616)
SONETO 116
Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love
Wich alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove:
O, no! it is an ever-fixed mark,
That looks on tempests and is never shaken;
It is the star to every wandering bark,
Whose worth´s unknown, although his height be taken.
Love´s not Time´s fool, though rosy lips and cheeks
within his bending sickle´s compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to the edge of doom.
If this be error, and upon me prov´d,
I never writ, nor no man ever lov´d.
Tradução:
Que eu não veja empecilhos na sincera
União de duas almas. Não amor
É o que encontrando alterações se altera
Ou diminui se o atinge o desamor.
Oh, não! amor é ponto assaz constante
Que ileso os bravos temporais defronta.
É a estrela guia do baixel errante,
De brilho certo, mas valor sem conta.
O Amor não é jogral do Tempo, embora
Em seu declínio os lábios nos entorte.
O amor não muda com o dia e a hora,
Mas persevera ao limiar da Morte.
E, se se prova que num erro estou,
Nunca fiz versos nem jamais se amou.
Na forma cultivada por Shakespeare, o poema é composto de 3 quartetos e um dístico, e as rimas seguem sempre a mesma ordem:
No primeiro quarteto: era / or / era / or (abab).
No segundo quarteto: ante / onta / ante / onta (cdcd).
No terceiro quarteto: ora / orte / ora / orte (efef).
No dístico: ou / ou (gg).
A forma shakespeariana é a seguinte: abab cdcd efef gg.
Nós vemos que o tipo de soneto é determinado pela posição das rimas. No soneto italiano, as rimas ordenam o poema em dois quartetos e dois tercetos, no soneto inglês, as rimas ordenam-no em três quartetos e um dístico.
Devemos dizer que a rima é um recurso importante e bastante utilizado na composição de sonetos, mas ela não é absolutamente obrigatória. Nem sempre houve rima na história da poesia. A rima deve ter sido inventada provavelmente na antiguidade como um simples recurso mnemônico (quer dizer, um meio de facilitar a memorização do poema, pois no começo as letras eram somente recitadas e cantadas, não escritas).
As rimas podem ser perfeitas ou imperfeitas, pobres ou ricas.
As rimas perfeitas são aquelas em que há uma perfeita identidade entre as sílabas finais das palavras rimadas, tanto no som quanto na escrita. Por exemplo: pura / formosura; rosa / graciosa; diante / brilhante. As palavras, além disso, devem concordar em número, quer dizer, palavras no singular devem rimar com palavras no singular e palavras no plural devem rimar com palavras no plural.
As rimas imperfeitas são aquelas em que há identidade apenas no som e não na escrita ou apenas na escrita e não no som. Exemplo 1: Brasil / viu; mais / faz; seis / talvez. Exemplo 2: vela / estrela; boca / toca; vertigem / virgem.
As rimas pobres são aquelas em que as palavras rimadas pertencem à mesma classe gramatical. Exemplo: falar / amar / pensar; coração / paixão / visão.
As rimas ricas são aquelas em que as palavras rimadas pertencem a classes gramaticais diferentes: mar / navegar; penas / apenas.
Além dos dois tipos de soneto italiano e inglês, existe também o chamado soneto monostrófico, que reúne todos os 14 versos numa única estrofe e que é escrito muitas das vezes sem métrica e sem rima, com versos livres e brancos.
II SONETOS NA FORMA CLÁSSICA PURA
Nesta forma, a ordem das rimas, como vimos, é abba abba cdc dcd.
Nos dois quartetos, o primeiro verso rima com o quarto, que são os mais distantes um do outro, e o segundo verso rima com o terceiro, que são os mais próximos um do outro. Não há entrecruzamento das rimas, e sim um jogo de proximidade e distância que confere um interessante ritmo de leitura à estrofe.
Nos dois tercetos, acontece o entrecruzamento, pois, na primeira estrofe, o primeiro verso rima com o terceiro, e o segundo, por sua vez, rima com o primeiro e o último versos da estrofe posterior. Na segunda estrofe, por sua vez, a ordem se repete: o primeiro verso rima com o último, que fecha o poema, e o segundo verso rima com o primeiro e o último da estrofe anterior.
Existe poesia escrita somente em estrofes de três versos, e os tercetos que fecham a forma clássica pura do soneto são idênticos a eles.
O terceto foi a forma poética escolhida por Dante para compor a sua Divina Comédia. Segue como exemplo um trecho do Paraíso Canto XXXIII em que Dante se dirige à Virgem Santíssima:
“Virgem Mãe, por teu filho procriada,
Humilde e sup’rior à criatura,
Por conselho eternal predestinada!
“Por ti se enobreceu tanto a natura
Humana, que o Senhor não desdenhou-se
De se fazer de quem criou, feitura.
“No seio teu o amor aviventou-se,
E ao seu ardor, na paz da eternidade,
O germe desta flor assim formou-se.
“Meridiana Luz da Caridade
És no céu! Viva fonte de esperança
Na terra és para a fraca humanidade!
“Há tal grandeza em ti, há tal pujança,
Que quer sem asas voe o seu anelo
Quem graça aspira em ti sem confiança.
O Paraíso, Canto XXXIII (1-15), A Divina Comédia, Dante
Exemplos de Soneto na forma clássica pura:
1) No classicismo português:
CAMÕES
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
2) No classicismo brasileiro:
A CRISTO NOSSO SENHOR CRUCIFICADO
Gregório de Matos
Meu Deus, que estais pendente de um madeiro,
Em cuja lei protesto de viver,
Em cuja santa lei hei de morrer,
Animoso, constante, firme e inteiro:
Neste lance, por ser o derradeiro,
Pois vejo a minha vida anoitecer;
É, meu Jesus, a hora de se ver
A brandura de um Pai, manso Cordeiro.
Mui grande é o vosso amor e o meu delito;
Porém pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor que é infinito.
Esta razão me obriga a confiar,
Que, por mais que pequei, neste conflito
Espero em vosso amor de me salvar.
3) No Romantismo:
SONETO DO BEIJO
Álvares de Azevedo
Um beijo ainda! os lábios teus, donzela,
Nos meus se pousem — junto de teu seio
Que treme-te e palpita em doce enleio
Beba eu o amor que teu olhar revela.
—
Vem ainda uma vez! és pura e bela,
Arfa-te o seio, amor, n'olhos te leio...
Que importa o mais? vem, anjo, sem receio!
Um beijo em tua face! ind'outro nela!
Aperta-me ao teu colo — assim — um beijo
Desses em que ao céu um'alma se transporta!...
— E o mundo?... — Um louco. — E o crime? — Só te vejo.
— Mas quando a vida em nós gelar-se morta
— E o inferno? — Contigo eu o desejo.
— E Deus? — Meu Deus és tu. — E o céu? — Que m'importa!
4) No Parnasianismo:
DESPEDIDAS
Raimundo Correia,
LÚCIA teve um desmaio no momento
Em que Amphriso partiu ; a loura Alice,
De Antenor despedindo-se, lhe disse :
« Vae, que comtigo vae meu pensamento! »
Fez Julia a Arthur um grave juramento ;
E Amélia, n'um accesso de doudice,
Protestou que, se a Alfredo não mais visse,
Não n'a veriam mais, que n'um convento !
Tu não ! Nem d'esse olhar o azul celeste
Desmaiou; nem de phrases prévio estudo,
Como as outras fizeram, tu fizeste;
Quando eu parti, teu lábio esteve mudo;
Tu, formosa Beatriz, nada disseste,
Mas, sem nada dizer, disseste tudo!
DESPEDIDAS
Raimundo Correia,
LÚCIA teve um desmaio no momento
Em que Amphriso partiu ; a loura Alice,
De Antenor despedindo-se, lhe disse :
« Vae, que comtigo vae meu pensamento! »
Fez Julia a Arthur um grave juramento ;
E Amélia, n'um accesso de doudice,
Protestou que, se a Alfredo não mais visse,
Não n'a veriam mais, que n'um convento !
Tu não ! Nem d'esse olhar o azul celeste
Desmaiou; nem de phrases prévio estudo,
Como as outras fizeram, tu fizeste;
Quando eu parti, teu lábio esteve mudo;
Tu, formosa Beatriz, nada disseste,
Mas, sem nada dizer, disseste tudo!
CÍRCULO VICIOSO
Machado de Assis
"Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:
"Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!"
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:
"Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!"
Mas o sol, inclinando a rútila capela:
"Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"
Círculo vicioso chama a atenção não apenas porque foi escrito na forma clássica pura, mas porque ele introduz uma leve modificação nessa forma que a deixa ainda mais primorosa: os tercetos são construídos com as mesmas rimas utilizadas nos dois quartetos. Então, são 7 palavras com rima "ela" e 6 palavras com rima "ume" (vaga-lume é a palavra que tanto abre quanto fecha o soneto, para transmitir a ideia de círculo). O poema expressa genialmente a ideia do círculo da insatisfação com o próprio estado e da inveja do estado alheio.
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