Coleção de Sonetos Fúnebres e Outros Poemas

UM FILÓSOFO MORRE

                        I do not know what tomorrow will bring.

                                                            Fernando Pessoa

Um filósofo morre: nada no mundo muda.

Estão aí, do mesmo modo, as plantas,

Os bichos, as pessoas, as coisas, tantas,

E a vida, de novo, indiferente, muda.


Ninguém no mundo que respondesse tantas

Questões: a mente, em vão, interroga, estuda,

E nada senão hipóteses, ideias – coisa miúda

Pra quem busca a Verdade. Quantas verdades?! Quantas?!


O universo guardou consigo o seu segredo

E tanto trabalho, esforço, para cedo

Descobrir, amigo, que a Verdade, por lei,


Nunca se mostra. E quem nada concluiu de

Tudo isto, só resta então ser humilde

Para no fim aprender a dizer: não sei. 


SONHO


Sorriste pra mim, amor ... foi em sonho … mil louvores,

Porém, dirijo a Deus, que o permitiu, mil glórias tanjo

A Ele, Que soube, no mais pródigo esbanjo

Um pedaço do céu pôr nos teus lábios tentadores.


Não foi real, foi um sonho apenas, mas as cores

Daquele sorriso guardo. Agora, em vão, os versos que arranjo

Descrevê-lo tentam: daquela que é linda como as flores,

Daquela que, quando sorri ... é mais que linda … é um anjo.


Não passou de um sonho, um breve conto de fada:

Eu, um rei, mas só da tua lembrança, na verdade,

Só da tua imagem tive a mente coroada!


Acordar sem ti ... oh! Que deserto medonho!

Só tu, amor, tornas meus sonhos realidade,

Só tu fazes da minha realidade um sonho!  


PERFEIÇÃO


Ah! Aquela voz que vem suave como a brisa!

Aqueles cabelos que a brisa acaricia!

Que têm a cor da noite mais sombria

Que um ar de escuros tons prodigaliza.


Um olhar que, por contraste, harmoniza

Com o matiz de ouro do céu em hora tardia,

Uns olhos tão brilhantes, que o próprio dia,

Para ficar mais luminoso, deles precisa!


Uma pele na qual neva o ano inteiro,

Os lábios que a mais linda primavera escala

Pra espalhar mais perfume, luz, verdade...


Que pôde ela, porém, contra o derradeiro

Instante? A morte, eterna, veio enfim buscá-la,

Reivindicou para si mais aquela divindade.


AMOR OBSESSIVO


Procurei teu rosto, amor, em cada flor qu’eu visse

Pelos caminhos da vida; inda te adoro

Como se adora um anjo que no céu surgisse.

O teu nome eu não digo: eu recito e oro


Como a mais santa das orações! Observo,

Às vezes, teu vulto, possuído, por inteiro,

Do teu ser e da tua vida. Sou teu servo,

O mais fiel dos teus escravos, o primeiro


A morrer por ti se acaso ordenasses.

O te perder me arruinaria tudo

Porque sou teu completamente. Em mim renasces

A cada dia; sou fanático por ti: mudo


E desvairado amor que só a morte acalma!

Oh deusa do meu coração e da minha alma!


QUE ESTRELA TE CHAMOU?


Invejosa de mim, que estrela te chamou para

Morar bem longe, deixando aqui o triste

Sentimento que calei, e que nada mais ampara?

Onde estás agora? Precocemente partiste


Em que delicada canção do céu? Acaso viste

O paraíso? A paisagem límpida e clara

Que eu neguei sempre, mas agora sei que existe

Pois que te possui como eras: tão linda! Tão rara!


Acabou-se. Não mais, amor, teus olhos (que fechas)

Contemplam flores pelos campos, nem as mechas

De teus cabelos dourados, no ar, denunciam


O sopro das brisas: foram-se as mãos mais puras

Que nada tinham neste mundo de loucuras

Mas que toda a minha vida possuíam!


SEPULTAMENTO


Caem sobre ela, uma a uma, as pás de terra,

Eis, afinal de contas, o que é um sepultamento:

O coveiro, hábil, técnico, dispõe cimento,

Tijolos, e a lápide, assim, de vez, se cerra.


Olho o homem trabalhar, Deus meu, e entender tento,

Mas não posso, e quanto isto me dói, quanto me aterra!

Tão simples: a pá, o pó, a pedra, o vento,

E é uma vida inteira, porém, que ali se encerra.


Ah quem dera que tudo o mais fosse banal assim!

E eu pudesse crer, amor, que estás num lugar melhor...

E que o labor do coveiro, simples, fosse mesmo o fim...


E não restasse em mim senão essa placidez e calma,

Não me custasse senão o cansaço, o suor,

Pra sepultar-te também, para sempre, na minha alma!


A PROSTITUTA MORTA


A prostituta morta, na noite tranquila,

Descansa em paz. Enfim, um lar, um teto

Sobre sua cabeça: o cemitério quieto

E a lápide de pedra caiada para cobri-la.


Pra carregar seu caixão, não houve fila,

Nem choro, adeus, velório, do modo correto.

Só o verme talvez, imundo inseto,

Foi um último cliente ainda a possuí-la.


Eu me condoo sozinho do corpo putrefato

Desta menina de má reputação, e em segredo

Digo da falta que ela faz a um velho beato.


Ouso rezar, chorar, levar-lhe flores? Não me perturbo.

À sua memória, assim como ela foi, procedo:

Sob seu túmulo, como último adeus, eu me masturbo.


O ENTERRO DA SUICIDA


A família, envergonhada, fez omissão

Dos detalhes do caso. Era a quarta

Tentativa, e enfim deu certo o plano da Marta

De morrer (ou de chamar, talvez, nossa atenção).


Muita tristeza, muita dor, ela conta na Carta,

Mas o padre negou-lhe a extrema-unção

Póstuma; e a família, pior, pouca aflição

Mostrou, pois da maluca estava, na verdade, farta.


O enterro feito, cada um de nós voltou pra vida

E também pro mal - cada alma, ali, perdida

De inveja, ódio, rancor, ganância. A Marta, por bem,


Coragem teve de tomar num só gole o veneno;

Nós o tomamos aos poucos, eu não a condeno;

Nós somos todos uns suicidas também!


A MORTE DO BÊBADO


Ninguém sabe se morreu ou está padiolado.

Na calçada se deitou o tal “bebum”

Pra nunca mais se levantar. Por sinal, nenhum

Pedestre o notou sem vida, pobre coitado!


Seu mijo, ainda quente, escorre do lado

E esconde a morte gelada deste “qualquer um”.

Seu corpo cheira a vodka, a rum,

Mas vai começar a feder, o dia clareado.


Ele bebia pra dormir, pra estar sempre no sono,

Mas a vida, que aos fracos, de preferência, ataca,

Insistia em acordar, na rua, o cão sem dono.


Ele agora pode descansar, porém;

Por sorte – amanhã não tem ressaca.

Amanhã – o próprio amanhã não tem.


O NECRÓFILO


Psicótico, doente, os mortos lhe fazem

Triste companhia, à noite, no cemitério;

Ele deseja o corpo das que ali jazem

Por isso exuma-as do seu leito funéreo


E nelas sacia o hediondo apetite

Que, na solidão da vida, o assola.

A carne fria ao sexo não impõe limite:

Sob a sepultura, o necrófilo viola


Um cadáver podre que não geme, que não sua;

Como, porém, ele uiva de prazer, como unta

De esperma o mórbido motel, à luz da lua!


Como, excitadíssimo, ele junta

O seu órgão genital ao dela, como sua

Boca arranca beijos de amor da pobre defunta!



NOTURNO DA INFÂNCIA



Sobre o solar abandonado destes jardins espectrais

Vínhamos, às vezes, amigo, depor cestas de piquenique

E risadas inconsequentes de férias de verão.

O céu crepuscular, que pouco a pouco se nublava,

As vastidões sem termo enegrecia,

E nosso queijo amarelo era, por vezes, o único luar daquelas noites.



Errava pelas vidraças e passagens secretas

Do antigo casarão tão mudo e sério

O recôndito olhar das almas penadas e inquietas.

Ouvindo nas árvores de sombrio aspecto

O canto orquestral dos ventos de outrora,

Os vaga-lumes que saltavam da fogueira

Perdiam-se em cinza no orvalho da relva.



Chamuscavam-se os marshmallows,

De lua cheia que era, eclipsou-se o queijo,

E os gritos de alegria, complôs do anoitecer,

Antecipavam, juvenis,

O despertar habitual de algum vampiro.



Ah! Incríveis fogueiras de São João no silêncio das florestas!

No silêncio das almas, das lendas e abismos!

Alimentando chamas de imaginação e sonho

Como esses pobres galhos secos sem importância,

Sem importância ao raiar do dia.



Tribos do sonho! Das noites de aurora!

Meninas faceiras de olhar assustado!

Não tereis medo do velho Tinoco

Entre vós e a fogueira, acendendo um cachimbo?”



Ah não! Que tudo na infância é puro e mágico,

E só mesmo elas, as crianças,

Para fazer do medo, do susto e do mistério,

Fonte pura de alegria e diversão!”



Mas que foi, amigo? Por que choras?

Que lágrima é esta de absurdo e dor

Se do tempo és onde falar se usava

Homem que é homem não banha seu rosto

Com a lágrima dos fracos e das mulheres?”



Os amigos se foram,

Os fantasmas também,

Derrubaram a casa,

Apagou-se a fogueira,

Mas na cinza dos tempos ecoa ainda

A música das lendas e estórias esquecidas.”



Não, o gargalhar fatídico e cruel das caveiras

Já não te amedronta mais, és homem,

Nem da morte a negra foice aterradora

Da tua garganta arrancar vem algum grito adormecido.

Nem a bruxa Catuxa

Com seu riso e sua verruga no queixo

E sua vassoura, avião sem asas,

Esperando, no tráfego do céu,

O semáforo brilhante da lua cheia;

Nem a casa assombrada da Transilvânia

Que mudou-se para o quarteirão vizinho

Com suas escadas e antigas portas rangedoras

E seus mordomos e teias de aranha

E seus caixões em repouso no sótão;

Nem o aconchego definitivo dos túmulos;

Nem o bom e velho camarada Escuro

Com suas barbas hirsutas e desgrenhadas

E seus fantasmas brancos e desastrados;

Ou talvez, na treva, a face peluda do lobisomem,

Do Bicho-Papão (quem sabe?)

Que morava debaixo da cama,

E sempre, sempre,

Pegava pelos pés descobertos

Dos meninos malvados

Que não faziam o dever de casa,

Que esqueciam o dever da casa,

Que não entendiam nem queriam saber do dever de casa.



Se não tens medo, por que choras então?

Me diz o que aconteceu, amigo,

Com aquele seu olhar de fantasia,

Com aquele sorriso seu de qualquer hora?

E os brinquedos que se foram, cansados de te esperar,

E que ninguém mais sabe o paradeiro

Simplesmente porque eram brinquedos

E não tinham, como a felicidade,

A mínima importância?



Embalde o velho cacique com seus duzentos anos

E suas estórias de arrepiar cabelo

E seu carão vermelho ao redor da fogueira

Tentativas faz agora de te assustar.



Sob o olhar indevassável de teu monstro interior

Fitas, pálido, o recente terraço,

Escondendo, pelo negrume da tua noite que não tem fim,

A bênção luminosa das estrelas.



Mas não é, no relógio, o soar da meia-noite,

Nem esse luar vampiresco,

Banhando, no sertão, as estradas solitárias.

Creia-me

Que o que tanto te assombra agora, no mistério,

É que um dia também farás parte dele.

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