A Analista (conto)

 

A ANALISTA


I


No Livro do Gênesis, em 18:20 até 18:33, e no Capítulo 19, é contada a história das cidades de Sodoma e Gomorra:

Conforme o testemunho bíblico, Deus fala a Abraão: “20 É imenso o clamor que se eleva de Sodoma e Gomorra, e o seu pecado é muito grande”.


Abraão diz ao Senhor que podem haver homens justos nas cidades, vivendo no meio dos ímpios. Ele roga então ao Senhor que não fizesse perecer a elas, em atenção a estes homens. Deus promete a Abraão não destruir as cidades, caso haja ali 50 homens justos. Não satisfeito, mas pedindo desculpas por sua insolência, Abraão pergunta ao Senhor se Ele perdoaria o pecado das cidades, se nelas houvesse 45 homens justos, depois, o patriarca reduz o número para 30, 20 e, por último, 10 homens justos. Ao que o Senhor diz que as perdoaria, se assim fosse.

Porém, o único homem justo que morava em Sodoma era Ló, sobrinho de Abraão, que ali vivia junto de sua esposa e de suas duas filhas.

Naquele dia, estando Ló sentado à porta da cidade, avistou 2 anjos que chegavam à cidade. Ló foi ao encontro deles e, com o rosto prostrado no chão, em sinal de deferência, convidou os anjos a pernoitar em sua casa. Tendo eles recusado, Ló insistiu, e de novo insistiu, até que eles acederam ao convite. Os anjos entraram assim na casa, onde Ló preparou-lhes um banquete.

Vieram, porém, homens de toda a cidade de Sodoma e, reunindo-se em torno da casa, disseram a Ló, que os atendeu: “19:05 Onde estão os homens que entraram esta noite em tua casa? Traze-os até nós para que possamos conhecê-los”. Ló suplicou a eles que não fizessem mal aos 2 anjos, oferecendo-lhes, em troca, as suas duas filhas, que eram virgens: “08 (...) eu vo-las trarei, e fazei delas o que quiserdes. Mas não façais nada a estes homens, porque se acolheram à sombra de meu teto”. Os homens, porém, empurraram Ló, com violência, e tentaram arrombar a porta. Os anjos intercederam, ferindo aqueles homens de uma cegueira repentina, e trazendo Ló para dentro da casa.

15 Ao amanhecer, os anjos instavam com Ló, dizendo: “Levanta-te, toma tua mulher e tuas duas filhas (...) para que não pereças também no castigo da cidade. 16 E, como ele demorasse, aqueles homens tomaram pela mão a ele, à sua mulher e às suas duas filhas, porque o Senhor queria salvá-los, e os levaram para fora da cidade. 17 Quando já estavam fora, um dos anjos disse-lhe: “Salva-te, se queres conservar tua vida. Não olhes para trás, e não te detenhas em parte alguma da planície; mas foge para a montanha, senão perecerás.”

Ló pediu ao Senhor que o deixasse fugir para a cidade de Segor, em vez de refugiar-se nas montanhas. O Senhor atendeu ao pedido.

23 O sol levantava-se sobre a terra quando Ló entrou em Segor. 24 O Senhor fez então cair sobre Sodoma e Gomorra uma chuva de enxofre e de fogo, vinda do céu. 25 E destruiu essas cidades e toda a planície, assim como todos os habitantes das cidades e a vegetação do solo. 26 A mulher de Ló, tendo olhado para trás, transformou-se numa estátua de sal.


Nesta passagem da Sagrada Escritura, surge a imagem da estátua de sal. O que ela significa? Os anjos haviam advertido Ló e sua família que partissem da cidade depressa, e que não olhassem para trás durante a fuga. A mulher de Ló, desobedecendo à advertência, voltou seus olhos na direção da cidade e, imediatamente, foi convertida numa estátua de sal (respiciensque uxor eius post se versa est in statuam salis).

A história de Sodoma e Gomorra é interpretada pelos teólogos da Igreja como o relato de um julgamento, de uma punição. Daquelas cidades se elevava aos céus um clamor, um clamor que fazia conhecer a Deus o “grande pecado” em que os habitantes da região estavam afundados. Que pecado é este? Segundo a tradição, os pecados da ganância, da impiedade, da falta de compaixão e da luxúria.

Deus envia Seus mensageiros, os anjos, para averiguar aquele clamor, e se ele correspondia, de fato, às obras. A corrupção de Sodoma se confirma no instante em que os sodomitas, cercando a casa de Ló, impõem a este que traga para fora os anjos, para que eles os “conhecessem”. Parece que os sodomitas, possuídos de luxúria, queriam ter relações com os anjos. Por isso Ló, tentando proteger estes últimos, oferece aos sodomitas as filhas, que não tinham “conhecido homem” ainda, e que saciariam o seu apetite (a sua cobiça). Os sodomitas, porém, agridem Ló e buscam entrar à força na casa, mostrando a sua falta de compaixão.

Esses crimes despertam então a ira divina, a qual só seria aplacada com a devastação das cidades. Os mensageiros advertem Ló: “Levanta-te e te afastes daqui, para que não pereças junto à iniquidade”. Uma chuva de fogo e enxofre começa a cair dos céus, no momento em que Ló e sua família se afastavam, às pressas, da cidade. Todos os sodomitas foram dizimados e reduzidos a pó por aqueles raios incandescentes que desciam, como relâmpagos, lançados pela ira divina.

Mas por que a mulher de Ló olhou para trás, perdendo a sua salvação? Ela não havia sido prevenida pelos anjos a não fazê-lo? A mulher tinha a sua alma corrompida pelo pecado da ganância, ela era apegada às suas posses, as quais foram abandonadas por Ló no instante da fuga, e que acabaram também destruídas pelo fogo.

A história de Sodoma e Gomorra volta a aparecer no Novo Testamento, quando Nosso Senhor, anunciando o Juízo de Deus, adverte: “Lc. 17:28 Acontecerá como nos dias de Ló”, “Lc. 17:32 Lembrai-vos da mulher de Ló”.

Ele diz: não devemos voltar os nossos olhos para o mundo quando estivermos prestes a entrar no Reino dos Céus. Não olhar para trás significa que nós, humildes pecadores, precisamos nos desapegar deste mundo. A esposa de Ló fica apegada a um mundo que dentro em breve desmoronará, que logo deixará de existir, dissolvido em cinzas. Por isso, ela é condenada.


II


A analista P. encontrava-se na sala onde realizava, semanalmente, as sessões terapêuticas. Era um ambiente tépido, acolhedor e confortável. Grandes janelas ogivais davam vista para o telhado dos prédios vizinhos. Mas um sistema de isolamento acústico, instalado por ela, impedia que os ruídos da rua chegassem dentro da sala. O silêncio que ali imperava vinha, por sua vez, acomodar-se com o estilo clássico da decoração: os estofados, aparadores, estantes, eram feitos de madeira centenária e com um verniz que lhes conferia uma nobre coloração; sobre o balcão, bustos de deusas e deuses nus; numa parede lateral, a biblioteca; na outra, molduras com retratos de Charcot, Breuer, Fliess e, no centro de todos, uma tela do doutor Segismundo Félix. O cenário dava testemunho da paixão que P. nutria pela psicologia.

Como podemos ver, a analista tinha como sua maior referência em ciência da mente o doutor Félix, fundador da Análise Psíquica. O doutor, que viveu na segunda metade do século 19 e na primeira da do 20, era psiquiatra e diretor de um estabelecimento destinado à internação de pacientes portadores de transtornos mentais, um hospício. Neste estabelecimento, o psiquiatra trabalhou por anos num novo método de tratamento que fosse capaz de substituir os métodos tradicionais, que consistiam, basicamente, em medicação controlada, internação, tratamento de choque, lobotomia e demais intervenções cirúrgicas. Ele conseguiu, por fim, desenvolver um método não-medicamental e não-manicomial de cura, baseado exclusivamente na conversação.

O doutor Félix batizou seu novo método de Análise Psíquica. Ela é uma psicologia, porque cumpre as mesmas funções da medicina mental-cerebral. Ela é analítica, porque não faz recurso a meios materiais de tratamento, somente à terapia, à conversa franca, buscando as causas da doença na mente e recorrendo à própria mente para ministrar a cura.

Vamos desenhar com a imaginação um quadro da rotina de trabalho ali mantida pela doutora P.. Sentada na poltrona com a caderneta na mão, ela ali ficava por horas e horas na companhia de pessoas que não conhecia, as quais, de um instante para outro, no estabelecimento do diálogo, passavam a contar-lhe pormenores da sua vida mais particular, traumas guardados no recôndito do seu coração, segredos às vezes embaraçosos, que em circunstâncias normais ninguém revelaria a ninguém. A doutora adotava então técnicas tradicionais: hipnose, regressão, livre associação, de modo a entrar fundo na mente do paciente, sondar o seu inconsciente, trazer à tona o que estava ali submerso, reprimido pela consciência. Ela era adepta fiel das concepções tradicionais do doutor Félix, assim, buscava sempre no inconsciente a origem da patologia, das neuroses manifestadas no comportamento consciente. Além disso, imitava o doutor na sua tendência em ver um conteúdo sexual por detrás de tudo.

De repente, episódios inteiros da vida daquelas pessoas, há um minuto atrás, completamente desconhecidos, tornavam-se transparentes para P.. Com o olhar intrusivo, ela perscrutava as pulsões da alma daquelas pessoas, assim como, no hospital, com o aparelho estetoscópico, um médico ausculta as batidas cardíacas no peito dos seus doentes. Aqui, a missão era penetrar na vida íntima da psique, sondá-la em todos os seus recantos, e os pacientes, deitados no divã, faziam à analista essa concessão de onisciência. A prática da análise, que requer a conversa franca, a confissão, a transparência, acaba por estabelecer entre analista e paciente, como uma espécie de efeito colateral, uma atmosfera humana propícia à amizade e intimidade.

Mas P. fazia tudo de um ponto de vista estritamente analítico. Para ela, as patologias que se manifestavam no “eu consciente” dos doentes não tinham origem na mente desperta, e sim numa entidade inconsciente cuja função era abrigar pensamentos secretos, pulsões, desejos, lembranças. O “eu” não era mais do que a ponta do iceberg, por detrás dele ocultava-se algo desconhecido, uma coisa, dotada de vida própria. Mais do que uma entidade, era uma vasta região inexplorada, uma Atlântida, um tipo de continente submerso povoado por desejos proibidos, sufocados e suprimidos banidos pela mente.

Esses desejos tinham por detrás um conteúdo erótico, um teor sexual. Assim, a tendência da mente, em estado de vigília, era recalcá-los, era afastá-los da vista, era relegá-los ao esquecimento, atendendo aos tabus impostos pela religião, pela decência e pela moralidade. Contudo, o que era reprimido, depositado no inconsciente, acumulava-se aos poucos e logo entrava em ebulição, como um vulcão em chamas. A dita região, como uma panela de pressão a pique de explodir, tornava-se ao final o palco de uma orgia dionisíaca que, das profundezas, emergia à superfície, bramindo, ululando, arrebentando como as ondas de um mar bravio.

Eram tais desejos que desencadeavam a doença. O inconsciente, repleto de apetites, despontava na consciência sob a forma de transtornos emocionais, e até mesmo fisiológicos. Cada desejo sexual que o animava buscava satisfazer-se, saciar-se, mas disfarçadamente, na realização de atos simbólicos. O comportamento neurótico não era mais assim do que um pretexto para buscar aquilo que, simbolicamente, pudesse acalmar a onda bravia das paixões. P. chamava a isso a sublimação dos instintos. Cada sintoma que se manifestava no doente era a satisfação simbólica de um impulso sexual reprimido. Satisfação que, por meio do símbolo, burlava as censuras do eu consciente.

Os doentes, sob o jugo do inconsciente profundo, viam-se arrastados por uma constelação de anseios que eles não conseguiam verbalizar, não conseguiam dizer o que era. Que coisa, afinal, era esta que os afligia, que, secretamente, os angustiava? A tarefa da analista era ajudá-los, através da regressão, da associação, a trazer à memória os traumas e as experiências sexuais dolorosas do passado, fornecendo à consciência os signos verbais capazes de exprimir tudo isso. Não era mais do que o velho processo de autoconhecimento, de varredura da consciência. Relembrando os anseios esquecidos, tendo a palavra certa para expressá-los, o “eu” seria levado a uma catarse que extirparia o mal latente, desde as suas raízes.

Assim funcionava o método adotado por P.. Os enfermos tratados por ela, cujo nome verdadeiro vamos substituir por nomes fictícios em respeito à sua privacidade, sofriam em geral dos seguintes males:

Algumas mulheres, como a senhora Anna B., a senhora Bárbara P. e a senhora Lucrécia F., queixavam-se de ataque dos nervos, irritação, mau humor, ansiedades crônicas, intolerância, raiva. Ao mesmo tempo, essa exacerbação dos nervos era acompanhada de sintomas fisiológicos como enxaquecas, tosse, febre, zumbido nos ouvidos, perda de apetite, insônia, tremores, suor frio, vômito, diarreia.

A analista classificou a doença delas como histéricas. Cada sintoma das neuroses estaria associado a um conteúdo erótico: os ataques tinham como significado as convulsões do orgasmo; o mau humor e a irritação, por sua vez, tinham como significado o fastio que se apodera de cada um dos parceiros após a ejaculação; a ansiedade tinha como significado, no homem, o medo da impotência e, na mulher, o medo de não engravidar. Os sintomas físicos, por sua vez, tinham a significação de partes e gestos do corpo durante o ato sexual: o zumbido nos ouvidos estava a representar os gemidos, a enxaqueca o cansaço, a insônia o contato entre as carnes e, portanto, o compromisso entre os parceiros, a febre a excitação, os tremores a penetração contínua na vagina, o vômito e a tosse o sexo oral, a diarreia o sexo anal, e demais associações do tipo.

Outras pacientes, como as senhoras Isadora O., Helen T., Virgínia X. e Elizabeth M. faziam a P. a confissão de seus conflitos conjugais. Sofriam de frigidez, nojo e aversão aos seus maridos. O casamento delas, por isso, ameaçava ruir devido às constantes discussões, conflitos, estresse, brigas e reclamações. As mulheres assumiam atitudes extremas, amuavam, recorriam a birras e a chantagens emocionais, a pequenas vinganças como greve de sexo e falta com as obrigações domésticas. Uma delas havia chegado ao extremo de botar por vezes na comida, sem conhecimento do esposo, substâncias como purgantes e laxantes, a fim de que aquele as tomasse sem perceber e se expusesse ao ridículo de correr, contorcido de aperto, para o banheiro.

A analista considerou que aquelas pacientes estavam entediadas, aborrecidas, cansadas da vida conjugal rotineira e sem graça que mantinham, sem novidades e aventuras. Elas guardavam, no íntimo, uma inveja inconsciente das prostitutas, que podiam satisfazer livremente todas as suas luxúrias e fantasias. Despejavam a culpa de seu tédio em seus respectivos esposos. Assim, as birras, chantagens e pequenas vinganças, que as divertiam, simbolizavam o pagamento pelos favores sexuais que elas deviam dispensar aos maridos, já que não podiam cobrar, como fazem as garotas de programa.

Demais pacientes, como a senhora Antonieta R., a senhora Valéria W., dentre outras, sofriam de uma tendência para a autodestruição. Tendência que as expunha ao perigo de tirar, por acidente, a própria vida. Elas andavam pelas trafegadas ruas do centro da cidade como cegas, sem observar semáforos, passarelas e faixas de trânsito. Assumiam comportamentos lesivos que redundavam em prejuízo para si mesmas. Contraíam dívidas que não tinham a mínima condição de pagar. Mutilavam o próprio corpo com navalhas. Eram tomadas de um impulso de se atirar pela janela (a agorafobia). Empanturravam-se de comida para em seguida vomitarem. Faziam uso de remédios sem prescrição médica. Faziam planos utópicos e impossíveis para depois queixarem-se de fracasso em tais projetos, que era o fracasso em suas próprias vidas.

P. classificou tais condutas como uma espécie de masoquismo inconsciente.

A mocinha Dorothy L. vivia um inferno astral que parecia não ter fim. Única mulher na prole, e a de menor idade, vivia brigando com seus irmãos mais velhos, que ela chamava de porcos, imundos, safados. Sem se envergonhar pela falta de compostura, lançava-lhes na cara feios insultos, palavrões e provocações. Andava sempre à beira de um ataque dos nervos, dava chiliques periódicos por causa dos assuntos mais banais e corriqueiros; tinha voz histriônica, e crises histéricas que chegavam a lhe provocar dores pontiagudas no peito.

P. chegou à conclusão de que o comportamento consciente de Dorothy acobertava uma neurose típica: a síncope do incesto. A moça se rebelava contra sua própria virgindade, contra os irmãos que a tinham sob severa vigilância, enciumados da caçula da família. Mas a rebeldia dela comportava também o anseio de ser deflorada, de ser molestada por algum dos irmãos. Os xingamentos, impróprios para uma garota da sua idade, demonstravam o seu desejo inconsciente por safadezas e obscenidades, a vontade de refestelar-se naqueles “porcos imundos”.

O senhor Terêncio F., vindo ter no consultório, queixava-se com aflição de gravíssimo incômodo físico e mental. Seu mal-estar, que já durava meses, há muito não lhe permitia fazer mais nada a não ser passar os dias deitado numa cama. Os médicos não souberam diagnosticar a doença; os remédios não haviam surtido efeito. Enquanto isso, o doente passava por sofrimento terrível: exaustão, náuseas, agudas enxaquecas, ossos quebradiços e estridentes, fala enrolada, vista embaralhada, catalepsia, catatonia, ou estados alternados de euforia e depressão, contusões e paralisias frequentes pelo corpo. P. não demorou nem um segundo para diagnosticar Terêncio como neurastênico. A neurastenia – esclarecia ela – é uma neurose tipicamente masculina. Seu antecedente causal é a constante prática do coitus interruptus, que é uma relação sexual incompleta, interrompida de modo proposital e por diversos meios: penetração extravaginal, preservativos, métodos contraceptivos, masturbação. A prática do coitus interruptus precipita no homem a sensação de castração, de impotência. Assim, o neurótico entra num estado de preocupação excessiva com a própria virilidade. Tem o ego ferido por complexos, e projeta inconscientemente a figura do pai, que gerou no passado dezenas e dezenas de filhos, sendo macho e vigoroso o bastante para garantir a perpetuação da espécie através de seus descendentes. As reações psicossomáticas da doença têm então um significado bipolar: sob um aspecto, vêm da sensação de fracasso do doente em relação ao patriarca, pai de numerosas gerações vindouras, e da inveja do perdedor em relação àquela vitória genética alcançada por ele; sob outro aspecto, vêm como desculpa, como prerrogativa para não assumir idêntico papel.

O advogado Milton R., por sua vez, queixava-se de pesadelos horríveis e temores sem explicação. Toda vez que ele estava num julgamento, a cumprir suas funções, era assaltado de um súbito pânico, com receio de não conseguir defender seu cliente, perdendo a causa.

P. classificou-o como um sádico. Os sonhos maus eram a manifestação simbólica de um sadismo inconsciente. Em tais sonhos, Milton R. tinha um contrato a cumprir com o próprio diabo, que, em pessoa, havia comparecido diante do juiz, e Milton devia defendê-lo e absolvê-lo das culpas que lhe foram imputadas (por isso, o medo de não conseguir cumprir o contrato, já que o cliente era o mais culpado de todos os réus). Depois de absolvido, o diabo estaria novamente livre para infernizar o mundo, e o sadismo do senhor Milton R. seria satisfeito.

Leda T. era uma senhora de mais de 40 anos que dizia sofrer de enjoos e náuseas persistentes que não a deixavam em paz. Com os olhos debulhados de lágrimas, ela se queixava de que não tinha mais vida social, pois mal pisava em casa alheia tinha de passar pelo vexame de pedir para usar o banheiro às pressas e de sofrer a indignação de enfiar a cara na privada dos outros para vomitar. P. viu o problema de Leda como uma reação irrefletida contra sua menopausa e como a satisfação subliminar de desejos que ela manteve em segredo no inconsciente desde a puberdade; entre eles, o desejo de parir inúmeros filhos - manifesto nos enjoos - e o desejo de tê-los de muitos homens, e não de um só - manifesto no seu desejo expresso de ter vida social intensa. O ato de vomitar na privada alheia manifestava seu desprezo contra os que podiam desfrutar do convívio em sociedade, que lhe era proibido; mas a posição em que o fazia, de quatro no chão, a engatinhar, manifestava também o anseio de se indignar na podridão, de se emporcalhar no chiqueiro das depravações.

Outros pacientes, homens e mulheres, sofriam de hipocondria, depressão, complexo de inferioridade. Sem causa aparente, eram acometidos de uma melancolia profunda, de um desamparo, de um sentimento de desolação indescritível. Eles experimentavam uma situação abissal, como se estivessem no fundo de um poço, a enxergar tudo pela ótica embaciada das fundas angústias que os dilaceravam por dentro. Visto dali, de onde estavam, o mundo perdia anemicamente as cores e esmaecia num cinza moribundo, rarefazia-se, cobrindo-se de névoas.

Um desses melancólicos era a menina Dora S., que costumava fugir de casa e ficar dias e dias desaparecida, andando a esmo pelas ruas, longe da família. A senhora Paloma B., acometida de igual tristeza, refugiava-se em casa sem nunca sair, como numa clausura, porque o mundo lhe parecia conter demasiados perigos e ameaças por todos os lados. Ela vivia em estado de permanente apreensão, temia ser assaltada, sequestrada, atropelada, sofrer algum acidente no trânsito, tremia de medo ao pensar em tudo isso. Ao mesmo tempo, tinha uma fobia incontrolável de insetos, aranhas, baratas, besouros e pequenos roedores. Isolando-se no quarto, era como se ela vivesse numa redoma, abrigada e protegida de tais perigos.

Para a analista, a melancolia era um sentimento dotado de duplo significado: por um lado, era a intenção inconfessa de chamar a atenção dos outros para si, requisitando carinho e cuidados, ansiando pelo resgate de um “salvador”; por outro, era a intenção de eximir-se das responsabilidades, de demitir-se das obrigações normais do dia a dia. P. interpretou o comportamento de Dora e Paloma como diferentes reações em face das implicações sexuais do casamento. A menina Dora S. fugia porque tinha medo que o pai, por excesso de ciúme e proteção, a impedisse de arranjar um noivo e casar, passando o resto de seus dias virgem e solteirona. A senhora Paloma B. ansiava pelo casamento, por um autêntico cavalheiro que a desposasse, um genuíno “príncipe” que a possuísse como mulher, protegendo-a das ameaças do mundo. Mas, ao mesmo tempo, era visível que ela morria de pavores de engravidar e ter que sofrer as dores do parto.

A depressão de Eleanor W., por sua vez, manifestava-se na forma de uma bulimia nervosa e de uma compulsão alimentar periódica. A menina estava 25% abaixo do peso recomendado para sua idade e altura, no entanto, ela via sua imagem distorcida no espelho, e insistia na crença de que era gorda e tinha a pele repleta de pelancas. Na obsessão por ter um corpo perfeito, ela se purgava, tomava laxantes e provocava o próprio vômito. Só que esses estados eram acompanhados de uma gula compulsiva, o que gerava em Eleanor um sentimento intolerável de culpa depois de ter exagerado na ingestão de doces, guloseimas e alimentos gordurosos.

P. viu o transtorno alimentar de Eleanor como um desejo inconsciente de engravidar, por isso o gesto obsessivo de comer, e sentir o peso de alimentos gordurosos enchendo seu ventre. Para a analista, no entanto, esse desejo se confrontava com um medo terrível que a menina tinha de ficar feia, estando grávida, e de ser traída pelo pai da criança, que sentiria nojo de sua obesidade. Assim, o transtorno se transformava em bulimia, e na excessiva preocupação com a própria beleza, as quais sublimavam no comportamento consciente dela o desejo secreto de seduzir vários parceiros, e de se entregar a orgias com eles, traindo o homem que viria ser o pai de seu bebê antes que ele próprio a traísse. É por causa dessa sede inconsciente de vingança, que ela abrigava no peito, que Eleanor não reconhecia a si mesma, quando se olhava no espelho.

O senhor Camilo V., jovem engenheiro, queixava-se de ter tiques nervosos e hilários acessos de riso que o expunham ao ridículo. Em diferentes contextos de interação social - trabalho, família, amigos - ele simplesmente não sabia o que fazer com as mãos, e as movia a esmo de cima para baixo e de baixo para cima. Vivia a policiar seus gestos, “algemava” suas mãos no bolso das calças e camisas, ou então desajeitava e em seguida ajeitava com elas os cabelos e a barba. Além disso, explodia em gargalhadas súbitas, esporádicas, junto às pessoas, de sorte que provocava constrangimento e até protesto por parte de seus interlocutores.

P. considerou que o rapaz havia sido alvo na juventude de deboche e zombaria entre os amigos por causa da sua virgindade, da rejeição das garotas e da sua castidade forçada. Os tiques significavam, portanto, os movimentos da masturbação que ele praticava naquela época, ao passo que as gargalhadas eram causadas pelo cômico que ele agora era capaz de perceber em si mesmo, depois que tudo havia passado. Era como se ele estivesse rindo com anos de atraso das piadas e galhofas que haviam-no humilhado na adolescência.

O senhor Teodoro V., negociante de meia idade, tinha constantes acessos de pânico, constante mania de perseguição. Imaginava-se cercado por todos os lados de ladrões, velhacos, caloteiros e estelionatários. Ele evitava gastar o dinheiro ganho nos negócios, o tanto quanto possível, a fim de não cair nas trapaças de ninguém e de não ter que arcar com os impostos embutidos no preço dos produtos, que considerava altíssimos. Tornara-se, ao longo da vida, avarento e extremamente mesquinho.

P. interpretou o caso como uma mistura de ciúme e luxúria. A seu ver, o senhor Teodoro havia sido traído na juventude pela noiva, a quem amava sinceramente e com quem não chegou a casar. Desenvolvera, por isso, um ciúme doentio, obsessivo, marcado pela ânsia de ter só para si e proteger dos outros. Por outro lado, sofria de um forte apetite sexual que não podia satisfazer, já que não abria mão do dinheiro que possuía. Esse apetite era de caráter sádico, simbolizado pela mão fechada, a mesma usada para esmurrar. Assim, o “unha de fome” era tomado da ânsia de guardar, de enfiar no cofre, atos que simbolizam a penetração, e de conservar sua riqueza dentro do baú ou da bolsa, que simbolizam o genital feminino.

Sônia N. era uma destas senhoras recém-casadas que se queixava de passar semanas e semanas sem dormir. Sua insônia parecia ter como causa o fato de que ela tinha seu sono perturbado por qualquer insignificante ruído na calada da noite: o ronco do marido, o tique-taque do relógio, o cricrilar de alguma cigarra. Assim, o cansaço que ela não conseguia reparar durante a noite era compensado por sonolências constantes que lhe assaltavam ao correr do dia. E o pior é que essas sonolências lhe vinham nos lugares e nos momentos mais inapropriados: dormia em pé falando com as amigas, dormia com a panela ao fogo, correndo o risco de incendiar a casa, e assim por diante.

P. avançou a tese de que os ruídos que a incomodavam tinham ligação com seu calendário corporal. Os relógios, os despertadores, marcavam com seu tique-taque uma regularidade igual à da sua menstruação, que se comportava também como um mecanismo sincronizado. Além disso, P. viu nas sonolências diárias de Sônia o símbolo de um desejo inconsciente, era sinal de que ela guardava na intimidade uma inveja de mulheres como dançarinas, raparigas, alcoviteiras, que tinham seus horários invertidos, trabalhando à noite e dormindo durante o dia.

O casal C., Afrânio e Bianca, procurou P. rogando a ela que os ajudasse a salvar o seu casamento, que estava prestes a desmoronar. Afrânio, que era ainda jovem e vigoroso, já não conseguia cumprir o papel de esposo, por sofrer de males inapropriados para a sua idade. Por um lado, ele sofria de enurese noturna, fazia xixi na cama e tinha pesadelos, febres, alergias e inflamações – moléstias mais comuns em crianças. Por outro lado, ele tinha disfunção erétil, sofria de impotência e reumatismo – moléstias mais comuns em idosos. Assim, não sabia dizer se se sentia um menino ou um velho. O conjunto desses males deixava o jovem em situação embaraçosa, irritadiço, e presa de um sentimento intolerável de derrota e frustração.

P. viu o caso dele como um resíduo do Complexo de Édipo: desejo inconsciente de matar o pai e casar com a própria mãe, que a Análise Psíquica acredita acometer todas as crianças, e algumas bem precocemente, ainda na fase da amamentação. A analista concluiu que Afrânio nutria uma paixão inconsciente pela sua mãe, amor sensual que ele guardou secretamente durante todo o tempo que passou junto dela, até crescer e tornar-se adulto. A mãe depositara muitas esperanças nele, no seu sucesso, e ele prometera a si mesmo nunca decepcioná-la. Ao mesmo tempo, ele nutria um rancor e um ódio profundo contra seu pai, que ele jurara superar, tornando-se mais rico e mais bem-sucedido do que o velho. Com o passar do tempo, a dupla obrigação que ele impôs a si mesmo de não decepcionar a mãe e de vencer o pai pesou sobre suas costas, esgotando suas forças. Assim, seu inconsciente descarregou duas espécies de sintomas a fim de aliviá-lo dessa pesada carga, satisfazendo ao mesmo tempo seus desejos edipianos secretos. As doenças que o remetiam à infância tinham a significação de chamar a atenção da mãe e fazê-la voltar para junto do seu “bebê”, que reclamava carinho, proteção e cuidados maternos. As doenças que o remetiam à velhice tinham a significação de torná-lo mais maduro e mais sábio do que o pai, obrigando este a respeitá-lo e a reconhecer sua “vitória”.

O senhor Mauro J., estudante, foi levado ao consultório pela família para tratar de uma síndrome alimentar. Ele desenvolveu uma repugnância por alimentos preparados, cozidos e, particularmente, por carne. Fez uma prolongada greve de fome, deixando os pais exasperados e, prestes a morrer de inanição, adquirira o hábito de comer terra e vegetais selvagens, tornara-se um consumidor inveterado de plantas, folhas, troncos, raízes recém-arrancadas do solo. Diziam dele na vizinhança que era um comedor de mato, que, ao invés de tomar as refeições na mesa como todo mundo, pastava como se fosse uma besta.

Para P., esse comportamento era desencadeado também por um resíduo do Complexo de Édipo. Mauro matava simbolicamente o pai ao rejeitar as convenções sociais, a civilidade e as boas maneiras, além de rejeitar carne, que representava a virilidade paterna. O hábito alimentar contraído, por sua vez, tinha como significado o desejo de possuir Gaia, comer a Mãe-Terra, de retornar ao pó e ao barro, ao aconchego do útero natural materno. Alimentando-se de plantas selvagens, o rapaz desejava repousar no seio primordial da natureza.

O senhor Álvaro H. foi enviado a P. pela esposa para tratar do seu vício em jogos de azar. Ele havia se tornado um apostador contumaz, e estava a arruinar financeiramente a família. Durante esse tempo, mudara de personalidade, tornando-se cabeça dura, caprichoso, teimoso, obstinado. Não admitia receber conselhos, não se dissuadia jamais de uma opinião depois de tê-la fixado na cabeça.

A analista classificou seu caso como infantilização erótica. O doente volta a comportar-se como uma criança: tem caprichos, teimosias e obstinações pueris. Vê as coisas como um jogo, uma brincadeira. Caso não obtenha o objeto dos seus desejos, ele faz pressões, travessuras e chantagens até conseguir. A infantilização, que geralmente acomete pais de família, é uma conduta que eles assumem, inconscientemente, para se demitir dos compromissos e responsabilidades da vida adulta. É a forma como eles reagem ao patriarcado, a defender-se dos tabus e códigos sociais, que colocam o homem como provedor e chefe do lar, pondo demasiado peso sobre seus ombros. Ao mesmo tempo, eles satisfazem seus apetites eróticos projetando-os sobre os jogos de azar. O neurótico desiste de satisfazer tais apetites fisicamente, mas, do seu ponto de vista, os cassinos, os tabuleiros, as mesas de jogo representam o mesmo, simbolizam o coito, e diferentes graus da relação amorosa: apostar é como que atrair e seduzir a parceira; as chances de perder ou ganhar comportam a incerteza e a mesma adrenalina dos atos de conquista, requerem os mesmos truques e táticas; lançar os dados, as cartas, as fichas, é como um ato de penetração; ganhar é como um orgasmo.

Além de Álvaro H., havia também grande número de histéricos que se recusava em crescer (como num tipo de síndrome de Peter Pan) e não se livrava dos hábitos adquiridos na infância: dormir abraçado ao ursinho de pelúcia, ter ciúme dos brinquedos, beber chocolate quente na chupeta, e coisas afins. P. costumava submeter esses casos ao diagnóstico de desvio de desenvolvimento. Os doentes sofriam um retardo no seu estágio de evolução biológica, e regrediam à fase pré-fálica oral e anal, própria de bebês. Para P., essa fase é caracterizada por uma genitalização de todo o corpo, e a uma absorção de todo prazer no prazer estritamente erótico. Assim, o prazer obtido pelo paladar é assimilado ao prazer do sexo oral; o de amamentar é assimilado ao de ter o corpo chupado; o de defecar é assimilado ao coito anal; o das cócegas recebidas nos pés, que os bebês têm de suas mães, é assimilado ao das carícias e preliminares que precedem a cópula; e assim com as mãos; com os lóbulos das orelhas, e afins.

Ainda mais além, havia o caso dos pacientes que apresentavam sintomas histéricos relacionados ao sonho. Para esses, já estava reservado todo um esquema onírico. Àqueles que sonhavam com pombas P. sugeria a ansiedade da noite de núpcias em que o véu da virgindade era rasgado e o céu era coroado por um luar dourado da cor do mel. Àqueles que sonhavam com andorinhas P. sugeria a migração da puberdade para a sexualidade, com a respectiva obrigação da opção sexual. Àqueles que sonhavam com escadas P. sugeria os atos de vaivém da cópula: segurar o corrimão cilíndrico, chegar ao topo em movimentos rítmicos e respiração ofegante, tornar a descer aos saltos, e coisas afins. Àqueles que sonhavam com mortos P. sugeria segredos de alcova e amores não correspondidos que eles desejavam ver enterrados. Àqueles que sonhavam com animais pegajosos como lesmas, ou com alimentos gordurosos, P. sugeria vaselinas e demais óleos lubrificantes que tornam as mucosas escorregadias e facilitam a penetração.

A senhora Pâmela Z. era uma dessas pacientes que era afligida pelo sonho de que era traída por seu marido. Ela tinha assim ataques incontroláveis de ciúme: perseguia seu esposo, espionava-o noite e dia, a fim de o pegar em falta, tornava sua vida, enfim, um inferno. P. viu o ciúme obsessivo de Pâmela como a manifestação de um desejo inconsciente: ela era própria que estava apaixonada por um rapagão, e planejava trair com este seu marido. Assim, para não ser censurada por sua própria consciência, ela transferia a paixão pelo rapagão para o próprio marido, de quem se vingava, ao mesmo tempo, por ver neste a proibição de ceder a seus desejos adúlteros.

Demais comportamentos eram traduzidos nos mesmos termos pela analista: em ataques de dispneia via ela alusões à respiração coital do pai; em tosses nervosas via alusões à felação; em problemas de fala via alusões ao ato de sugar o pênis; em enxaquecas a defloração; em amnésias o orgasmo; em apendicites as dores do parto; em vômitos desejos de gravidez; em anorexias o pânico-temor de engravidar; em tendências suicidas o parto; na mania de espremer espinhas a masturbação; na prisão de ventre a fantasia de um parto anal; na compulsão de limpeza a culpa pela prática de seduzir menores.

O fator sexual era assim o denominador comum que permitia à doutora equacionar os problemas, organizando a terapia de modo a encontrar para as doenças uma possível cura. Os agentes sexuais reprimidos formavam a “legião” que precisava ser exorcizada. Os pacientes, tomados de pudor, de vergonha, a princípio relutavam, resistiam em ceder ao tratamento, em fazer a confissão de eventos do passado que os “comprometiam”, que os deixavam em situação embaraçosa. Na maior parte das vezes, negavam que “aquilo” houvesse acontecido, de fato. P. via esta resistência, este constrangimento, como a exata prova de que suas análises estavam certas, e, de modo capcioso, sutil, ela recorria a um jogo de sugestões, insinuações, com o qual manipulava as lembranças evocadas pelo paciente até fazê-las concordar com sua teoria. O tratamento virava assim uma verdadeira guerra. Mas uma guerra que precisava ser vencida, e a cura, alcançada. Restava ver o quanto ela era bem-sucedida nesse empreendimento.


III


Certo dia, P. recebeu no seu consultório a visita do Anjo Samael.

O Anjo fê-la deitar-se no divã, como se ela fosse a paciente, e contou-lhe uma parábola antiga, retirada de Rabelais:

A parábola contava a história do Leão e da Raposa. Andava certo dia o Leão pela floresta, quando machucou gravemente uma de suas patas. Assustado, o pobre Leão fugiu, a coxear, até que encontrou pelo caminho um bondoso carpinteiro que se dispôs a ajudá-lo. O carpinteiro examinou a ferida, e viu que estava inflamada devido ao acúmulo de sujeira. O carpinteiro esfregou os resíduos com um pano molhado, até que a ferida ficou completamente limpa. Depois ele instruiu o Leão a conservá-la assim, até que cicatrizasse. O rei dos animais agradeceu e continuou sua jornada pela floresta. Um dia, não muito depois, o Leão viu uma linda mulher perto de um vilarejo. A mulher, vendo a fera, desmaiou de susto, caindo de costas no chão. Por infelicidade, o vento soprava forte naquela hora, e o sopro levantou o vestido e as anáguas da mulher, deixando suas partes íntimas à mostra. O Leão ficou desesperado, e, sem saber o que fazer para ajudar a moça, saiu a pedir socorro na aldeia. Mas a poderosa e terrível presença do rei dos animais afugentou todos os aldeões. O Leão, vendo-se então só, não teve outra escolha senão voltar para junto da mulher desmaiada. A Raposa, que estava no galho de uma árvore, viu os 2 em apuros. Mas, como era uma Raposa velhaca, maliciosa, quis pregar-lhes uma peça, para se divertir. Apontando para baixo, ela disse: “Veja, meu amigo! Esta senhora está machucada, ela tem uma grave ferida no meio das pernas. Nós temos que ajudá-la a curar esse talho, antes que ele inflame!” O Leão, percebendo a vagina da mulher, lembrou-se de sua ferida na pata, e de como ela ficara boa depois que o carpinteiro a limpara. “Um pano molhado!” Ele pediu, e a Raposa arranjou-lhe uma tira de sua própria pelugem, umedecida com a seiva dos frutos da árvore. Depois, enquanto o ingênuo Leão socorria a pobre aldeã, a esperta Raposa bradava: “Vai, meu amigo! Abane a cauda para espantar as moscas varejeiras, e esfregue a ferida, limpe bem o machucado! Ânimo! Eu lhe exorto: esfregue com força! Com força! Essa ferida só pode ser arrancada da carne aos esfregões!”

Conte-me o significado dessa fábula. – Pediu a analista a Samael.

O Anjo Samael disse que a psicologia de P. comporta-se como a Raposa, e o Leão representa os pacientes. Nela, o Pecado Original é identificado com os apetites sexuais. P., com seu método de terapia, busca no inconsciente a ferida, e induz seus pacientes a esfregá-la, tal como o Leão esfregara a vagina da mulher, acreditando que estivesse a limpá-la. À medida que P. instruía seus pacientes a confessar seus desejos secretos, ela os instigava a mexer no ferimento, a esfregá-lo com força, com a esperança de que ele limpasse. O tiro saía-lhe, porém, pela culatra. Ele não limpava, não sarava. Ali se escondiam impulsos lascivos que, quanto mais são esfregados, mais se atiçam, mais coçam, pedindo para ser esfregados. E, assim, pela esfregação, P., sem se dar conta, incentivava os desejos dos pacientes, insinuava a eles fantasias eróticas, excitava sua imaginação, deixando-os, por fim, entregues aos excessos da volúpia, da concupiscência. Quanto mais P. apelava para os desejos inconscientes, buscando limpá-los, mais suja e depravada ficava a consciência dos enfermos.

Assim, Samael falou do método da analista:

1. O método atiça os apetites sexuais, ao invés de tocar nas feridas reais da alma.

2. O método tem a pretensão de imitar a Confissão, o Sacramento da Igreja (representado pelo carpinteiro), mas torna essa confissão secular, laicizada, paganizada, sem objetivos piedosos, sem a absolvição da alma do pecador diante de Deus.

3. O método busca a saúde e o bem-estar, mas sem finalidades espirituais, não tem em vista a educação da alma para a busca da santificação e da redenção. Reduz assim o espírito ao corpo, o espiritual ao biológico. Cai num materialismo pueril.

4. O método fragmenta o homem, cinde sua consciência em duas, com a parte mais importante escondida no inconsciente. Assim, torna o homem um esquizofrênico, incapaz de assumir sua culpa e sua responsabilidade diante do pecado, que ele mascara, esconde de si mesmo, ao concebê-lo como inconsciente, fora do seu controle. É uma fonte perene de pretextos e desculpas.

5. O método parte de uma concepção distorcida do homem, ao conceber as paixões sexuais desordenadas como essência da alma humana, e não como um desvio na sua natureza, criada por Deus para a salvação. A ignóbil concepção avilta a imagem do ser humano.

O Anjo dirige à analista essas 5 acusações, que correspondem a 5 crimes gravíssimos, pois invertem os caminhos do espírito, e pavimentam uma estrada que leva o caminhante direto para o inferno. P. mal sabia que a inversão das coisas é uma das estratégias preferidas do demônio.


IV


Samael ordenou então que a analista abandonasse as teorias que ela sustentava, porque essas teorias tinham a aparência de cientificamente neutras, mas eram imundas e escandalosas. Ele pediu que P., ao fazê-lo, não olhasse para trás, assim como a esposa de Ló, em Sodoma e Gomorra, que deixou que sua alma se perdesse olhando para trás, em atitude de apego aos bens que possuía. A analista, porém, era a tal ponto afeiçoada à sua psicologia que não pôde, na última hora, deixar de desviar o olhar na direção dela, em atenção ao objeto do seu amor.

P. foi assim condenada a passar o resto da eternidade na forma de uma estátua de sal.


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