Resumo histórico do conceito de intencionalidade: de Aristóteles e Santo Tomás de Aquino até Franz Brentano
Intencionalidade é um conceito introduzido pelos filósofos escolásticos medievais para elaboração de sua teoria do conhecimento. A palavra vem do latim “intendere” que significa tender para, dirigir-se para, voltar-se para.
O problema epistemológico, que implica entender a intencionalidade da alma humana, é tratado por Santo Tomás de Aquino nas questões 84 até 89 da primeira parte da Suma Teológica. Ali, o filósofo procura descrever e explicar como a alma humana, estando unida ao corpo, consegue conhecer as coisas corporais, que lhe são inferiores. A opinião assumida por Santo Tomás é a de que o ato de conhecimento, realizado pelo intelecto, tende para fora da alma para alcançar os objetos corporais que existem fora dela. Diz ele, com efeito, que “o ato de conhecimento se estende ao que está fora do cognoscente, pois conhecemos também o que está fora de nós” (AQUINO, 2004, p. 87).
Para resolver a questão sobre como o conhecimento é possível e como ele se processa, Santo Tomás de Aquino retoma a doutrina de Aristóteles exposta no tratado De Anima. Para Santo Tomás de Aquino, o sentido recebe as formas sensíveis sem a matéria, ao passo que o intelecto recebe as espécies dos corpos materiais e mutáveis de modo imaterial e imutável, quer dizer, ao modo do intelecto. É dito, portanto, que as espécies imateriais e inteligíveis, por sua própria essência, estão no intelecto, não, porém, de modo material e mutável, e sim conforme o modo do intelecto. O que Santo Tomás(AQUINO, 2004, p. 81) ilustra dizendo que “o recebido está no recipiente ao modo do recipiente”.
A alma intelige as coisas mediante as espécies, quer dizer, por intermédio da unidade conceitual específica. Isso significa que aquilo que é conhecido é a coisa mesmo por meio da espécie. Mas entra aqui a questão: as espécies estão naturalmente introduzidas na alma (são inatas) ou a alma possui em potência o conhecimento de todas essas espécies, precisando para conhecê-las atualizar tal conhecimento?
Aristóteles tomou a posição de que, no ente humano, os sentidos e o intelecto, às vezes, são cognoscentes apenas em potência, ou seja, eles têm a aptidão para conhecer. Assim, os sentidos e o intelecto, cognoscentes em potência, são conduzidos ao ato por ação da coisa sensível (pela presença da coisa sensível diante dos sentidos) e por ação da espécie (pela presença conceitual do inteligido no intelecto). A alma, então, para Aristóteles, é de certa forma todas as coisas, ou seja, ela tem a potência de conhecer todas as coisas.
Santo Tomás de Aquino, retomando Aristóteles, sustenta que o “intelecto, pelo qual a alma intelige, não tem certas espécies naturalmente introduzidas, mas está de início em potência para todas essas espécies” (AQUINO, 2004, p. 93).
Santo Tomás de Aquino sustenta, em conformidade com a opinião de Aristóteles, que nosso conhecimento começa a partir dos sentidos.
Para Aristóteles, o sentido não possui uma operação própria sem comunicação com o corpo. Sentir, portanto, é algo que pertence ao composto alma e corpo. O conhecimento da parte sensitiva é causado pela impressão deixada nos sentidos pelos corpos que existem fora da alma, os corpos materiais.
O intelecto, por outro lado, possui uma operação própria sem comunicação com o corpo. Assim, a operação intelectual não é dependente do corpóreo nem pode ser causada por ele. Aristóteles sustenta assim que, para a produção da atividade intelectual, é exigido algo mais nobre do que a passividade das impressões sensíveis, já que “o agente é mais honroso do que o paciente”. A esse agente mais honroso o filósofo dá o nome de intelecto agente. A função cumprida pelo intelecto agente é a de tornar inteligíveis as imagens recebidas dos sentidos. Ele cumpre essa função por uma atividade abstrativa, que separa a forma da matéria.
O conhecimento sensível, portanto, não é a causa perfeita e total do conhecimento do intelecto. Os sentidos fornecem apenas a matéria, são, por assim dizer, a causa material dele.
Segundo Aristóteles, a origem de todo conhecimento humano é a sensação. Os dados sensoriais obtidos são então conservados na lembrança. A função que se ocupa disso é a memória, que retém a imagem das coisas recebidas sensorialmente. Mas a memória não é simplesmente uma faculdade que registra de modo passivo os dados, armazenando-os. Ela desempenha uma função imaginativa, que combina e funde as fantasias, criando esquemas das coisas. Aristóteles denomina “fantasma” a imagem que é retida na memória e que reproduz esquematicamente alguma coisa ou acontecimento.
À medida que os fantasmas são retidos na memória, acumulando-se, a imaginação opera sobre eles criativamente, recombinando-os, selecionando-os, esquematizando-os, etc. Assim a imaginação é capaz de condensar numa única imagem fantasias semelhantes ou dessemelhantes. Ela organiza o conteúdo da memória, passando a designar os semelhantes por imagens sintéticas e esquemáticas que os incluem num mesmo grupo. A imaginação passa a designar as coisas então por espécies, e não mais por unidades particulares.
A imaginação, desse modo, traça a ponte que vai do dado sensorial à espécie. O pensamento cognoscitivo não opera assim diretamente sobre os dados sensíveis, os quais chegam numa multiplicidade inabarcável. Ele opera somente sobre a parte selecionada e simplificada, que foi retida na memória e que a imaginação converteu em esquemas. Esses esquemas então são convertidos pelo pensamento cognoscitivo em conceitos. Daí, o pensamento sobe da espécie de entes particulares para as espécies de espécies, o gênero, chegando por fim até às relações mais gerais e universais.
O conceito de intencionalidade é retomado dos medievais pelo filósofo Franz Brentano no século XIX. A partir da concepção sobre a intencionalidade, Brentano passou a estudar os processos psíquicos. Diz ele que o fenômeno psíquico se distingue dos demais fenômenos por sua propriedade de referir-se a um objeto, assim como a um conteúdo de consciência. O papel da psicologia, portanto, é analisar os diversos modos pelos quais a consciência estabelece relações para com os objetos existentes nela mesma, descrever a natureza desta relação, bem como o modo de existência deste objeto.
Todo fenômeno mental é caracterizado por aquilo que os escolásticos da Idade Média chamaram a inexistência intencional (ou mental) de um objeto, e aquilo que podemos chamar, ainda que de forma não completamente não-ambígua, referência a um conteúdo de direção, no sentido de para um objeto (que não deve aqui ser entendido como querendo dizer uma coisa), ou objectividade imanente. Todo o fenômeno mental inclui algo em si como objecto, embora nem todos o façam da mesma maneira. Na representação algo é representado, no juízo algo é afirmado ou negado, no amor amado, no ódio odiado, no desejo desejado, e assim por diante. Esta "in-existência" é uma característica exclusiva dos fenômenos mentais. Nenhum fenômeno físico exibe nada parecido. Poderíamos, portanto, definir os fenômenos mentais, dizendo que eles são aqueles fenômenos que contêm um objeto intencionalmente dentro de si (BRENTANO, 1995, pp. 88-89).
A filosofia de Brentano exercerá uma enorme influência em Edmund Husserl, seu aluno, que funda a fenomenologia tendo a “intencionalidade” como seu tema capital.
Referências:
BRENTANO, Franz. Psychology from an Empirical Standpoint, edited by Linda L. McAlister (London: Routledge, 1995).
Santo Tomás DE AQUINO. Suma de Teologia: (Primeira parte – Questões 84 – 89). Tradução e introdução Carlos Arthur Ribeiro do Nascimento. – Uberlândia: EDUFU, 2004.
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